segunda-feira, 29 de abril de 2013

Educa-te a ti mesmo

Finalmente publico hoje a terceira parte da Paideia a Caio e a Ravi. No texto "Educa-te a ti mesmo" procuro esclarecer os princípios filosóficos que têm fundamentado meu trabalho pedagógico. Por falar em "princípios filosóficos", também hoje publico a página FILOSOFAR, cujo objetivo é sistematizar os conceitos e temas filosóficos utilizados para melhor compreender os problemas levantados aqui no blog.

Como venho transformando minha própria existência, nas programações da Cabeça Bemfeita TV e da Rádio Cabeça presto uma homenagem a alguns "revolucionários" que têm ajudado na minha luta pelo poder ("poder do conhecimento", que fique bem claro!). Na Cabeça Bemfeita TV, trago mais uma vez o cara que ultimamente tem feito minha cabeça: Michel Foucault (1926-1984). Suas análises sobre a origem das instituições sociais modernas tem me ajudado a compreender o contexto político e ideológico repressor contra o qual venho me rebelando. Destaco dois vídeos: o segundo, que traz as ideias do filósofo francês por ele mesmo, e o último, uma produção da ATTA Mídia e Educação, onde o filósofo brasileiro Sílvio Gallo, apresenta as contribuições de Foucault para a educação. 

Public Enemy: origem da minha postura crítica



Já na Rádio Cabeça, presto uma homenagem ao Public Enemy, banda old school do rap norte-americano que, na segunda metade da década de 1980, me apresentou conceitos como "crítica", "engajamento" e "militância". Esse meu contato com o discurso político do movimento Hip-Hop me levaria, anos depois, a abraçar a filosofia, não só como forma de conhecimento, mas, principalmente, como postura de vida. 




Gil Scott-Heron (1949-2011): 
"a revolução será ao vivo", irmão!



Completa a programação da Rádio Cabeça outro ativista: o poeta e músico norte-americano Gil Scott-Heron que, com sua mistura de poesia cantada e falada (precursor do rap) ritmos como Jazz, Funk, Soul e música latinano final da década de 1960 e início da de 1970, também apontou as mazelas do modelo capitalista de sociedade. No final de maio vai fazer dois anos que o autor do clássico "The Revolution Will Not Be Televised" nos deixou. É isso G.S.H.: "a revolução não será televisionada, a revolução será ao vivo." A minha já tá rolando!!!





Sem mais delongas, fiquem com a terceira parte da Paideia a Caio e a Ravi.

Educa-te a ti mesmo

Com a postagem de hoje chegamos a um momento bem especial do texto Paideia a caio e a Ravi: é a primeira vez que sistematizo, num corpo textual organicamente integrado, o germe daquilo que constituirá o núcleo teórico e prático do meu próprio sistema filosófico e pedagógico, sistema esse ao qual me dedicarei até o final da minha existência.

Antes de falar especificamente sobre os princípios teóricos sobre os quais construirei meu projeto de educação, quais sejam, a criticidade, a criatividade, a reflexividade e a dialogicidade, permitam-me narrar minha recente experiência em tentar entrar para o corpo discente do curso de Mestrado em Educação, da UFPE, mais especificamente na linha de pesquisa Formação Docente e Prática Pedagógica. Tal fato, como mostrarei a seguir, corrobora minha ideia de que os princípios teóricos por mim defendidos são fundamentais para o exercício da cidadania. Por isso mesmo, eles serão a base da educação que pretendo dar para meus filhos.

Para quem não sabe, estive participando do processo seletivo ao mestrado em Educação da UFPE. Estive, porque na terça, dia 26/03, fiquei sabendo que havia sido reprovado na 3ª Etapa do concurso, correspondente a entrevista e defesa do projeto. Confesso que fiquei surpreso, pois, no meu entender, a entrevista tinha sido tranquila (até demais, uma vez que não fui indagado sobre aspectos importantes, como metodologia ou fundamentação teórica), tendo eu respondido, adequadamente, aos questionamentos levantados pela banca examinadora, principalmente com relação a uma suposta “amplitude” da minha pesquisa (concordo que meu projeto é complexo, pois não é tarefa das mais simples investigar as práticas e representações docentes dos professores de filosofia do estado, mas, ainda que fosse “amplo”, a Academia só se interessa por temas “restritos”? E a visão de conjunto cara a atividade do filósofo, como é que fica?).

No entanto, o que quero destacar aqui, não é meu aparente “fracasso”, mas meu autodidatismo que, mesmo enfrentando diversas barreiras, me trouxeram até a terceira fase de um dos cursos de mestrado mais disputados do estado de Pernambuco. Gostaria aqui, de convidar o prezado leitor e a prezada leitora para voltarem comigo até fevereiro de 2012, época em que coloquei o Cabeça no ar (ou melhor, nas infovias).  Até essa época, apesar de já vir investindo (timidamente) nas competências leitora e escritora, nem imaginava o fortalecimento e o salto qualitativo que minha condição de leitor e escritor daria com o exercício literário proporcionado pelo blog Cabeça Bemfeita.

Acreditem-me, se não fosse o Cabeça (que me obrigou a investir nas competências citadas), não teria conseguido aprovar meu projeto (“orientado” por mim mesmo), nem passado na avaliação escrita (sem nem sequer ter lido um dos textos cobrados para o exame, pois, sabem como é, quando se adquire uma certa competência para escrever, dá pra “argumentar” bem, ainda que sem a fundamentação devida!), nem muito menos questionar o resultado final da entrevista.

Para que ninguém se iluda e fique achando que bastam a força, o empenho, o esforço, o compromisso e o sacrifício individual para que consigamos o quê buscamos. É preciso estarmos atentos aos condicionantes sociais que, quando não impedem, dificultam a realização dos nossos projetos. Foi o que aconteceu comigo na 3ª Etapa da seleção ao mestrado da UFPE ao ser “reprovado”. Minha “reprovação” freou um processo ascendente (que continua, apesar de tudo) que vinha experimentando.

Alguns, com uma postura menos crítica, poderiam pensar: “Ah, tá bom demais! Pra quem ganha a vida como professor, cuida, sem babá, de dois filhos, organiza as “coisas” do lar e não traz na sua bagagem intelectual quase nada das escolas por onde passou (incluindo cursos universitários), uma vez que esquecemos o que decoramos, e que só estudou na vida inteira por conta própria (sempre com fins pragmáticos), fazer pela primeira vez o concurso e chegar até a entrevista, já é um ótimo resultado!”.  Até concordo que me saí bem, mas, dentro da postura crítica e reflexiva que venho assumindo e em nome do livre-pensar, me reservo o direito de discordar da “avaliação” dos que organizam o processo de seleção ao mestrado em educação, da UFPE.

Em primeiro lugar, toda avaliação é arbitrária (sei o que é isso, sou professor!), no sentido de que um determinado grupo (no caso, os organizadores da seleção), a partir de certos princípios categoriais e axiológicos (nem sempre tematizados e/ou explicitados), escolhe certos critérios (deixando de lado uma série de outros critérios tão ou mesmo mais fundamentais do que os convencionalmente estabelecidos) a partir dos quais (ou alheio aos quais) julgam os projetos apresentados.

Se os/as nobres examinadores valorizam, presam e cultivam suas faculdades de julgar, também tenho cuidado e educado a minha. Ora, mais do que qualquer sujeito (e principalmente mais do que qualquer “coletividade julgadora”), devemos nós mesmos, que assumimos nossa “maior idade” e conduzimos autonomamente nossa própria formação, sermos nossos juízes mais rigorosos.

Não sei quais critérios foram utilizados (entrei com recurso, apenas para posicionar-me, mas ciente de que o resultado não mudaria), mas quaisquer que tenham sido e ainda que persuasivos ao ponto de convencerem-me da justiça do processo, não alteram o fato das razões e argumentos apresentados serem discursos construídos a partir de certos princípios, valores e ideias, convencional e arbitrariamente construídos por sujeitos concretos, historicamente determinados e ideologicamente comprometidos, passíveis, por tudo que foi exposto, a julgamentos de fato e de valor mais ou menos rigorosos, mais ou menos sistemáticos, mais ou menos totalizantes, mais ou menos isentos de interesses estranhos às regras (impessoais) do processo (sendo mais direto: não favorecer esse ou aquele candidato devido a sua posição no jogo de distribuição do poder social).

Divergências sobre o resultado à parte, o certo é que se não tivesse investido por conta própria na minha formação permanente (afinal, o filósofo não é aquele que, consciente da sua ignorância, procura sua superação?), não estaria, nesse momento, escrevendo as páginas da minha própria existência.

Narrei esse exemplo para corroborar a máxima baconiana de que “conhecer é poder”. Aqui me refiro tanto ao poder do sujeito que pode tomar consciência da sua situação e transformá-la (como no meu caso), quanto ao poder das instituições sociais que investe ou destitui do poder social quem é “aprovado” ou “reprovado”, segundo critérios convencionalmente escolhidos e legitimados pelos que conduzem as instituições (como no caso do processo seletivo ao curso de mestrado em educação).

Apesar da ideia de Bacon (1561-1626) não incluir necessariamente uma dimensão ética da busca, manutenção e distribuição do poder, não podemos deixar de considerar que tanto o conhecer quanto o poder encerram questões éticas: Conhecer para que?, Quem seleciona, sistematiza e transmite o conhecimento? Com quais interesses? Buscamos “poder” para que? Quem distribui o poder? Quem fica com mais poder?, ....

Como no imaginário coletivo o conceito de poder traz um estigma negativo muito forte (geralmente associado às sociedades repressivas, onde o poder é exercido por uma minoria que explora, violenta e aliena a maior parcela da população) poucas pessoas admitem lutar por ele.

Não nos iludamos, prezados leitor e leitora: o poder está aí (seja econômico, político ou ideológico) e, o que é pior, está sendo (sempre foi, na verdade) utilizado contra a maioria da população, que não herdou uma condição sócio-histórica favorável. Cansado de fazer parte dessa maioria, venho investindo na minha formação continuada, sempre de forma independente e autônoma, para “conhecer” mais e melhor (respeitando o espírito do blog, melhor seria dizer, “melhor e mais”!) para “poder” conduzir minha vida, sem depender (ou pelo menos o mínimo possível) de fatores externos a minha vontade.

No entanto, diferentemente do filósofo inglês, precursor do empirismo, que, segundo nos mostra a história, não desenvolveu um conhecimento ético a altura de suas ideias epistêmicas, acredito que a máxima “conhecer é poder” só pode ser efetivado com base em princípios e valores que dignifiquem a condição humana, tais como a sabedoria, a justiça, a moderação, o respeito às diferenças e ao dissenso, a defesa radical da liberdade e a abertura permanente ao diálogo.

Se cada hoje da minha existência é uma superação do ontem vivido, devo isso à postura crítica e reflexiva que venho assumindo nos últimos tempos e que, por sua vez, tem despertado e aguçado minha criatividade. E como não há vida pessoal fora de uma vida social, mais recentemente tenho procurado sair do isolamento que me coloquei (afinal, o filósofo é aquele que se afasta da realidade para visualizá-la melhor e conseguir um ponto vista mais amplo, e que depois volta para essa mesma realidade para tentar modificá-la) e ir ao encontro de outros sujeitos que, assim como eu, se encantam com a vida e buscam compreendê-la para, quando necessário, promover mudanças naquilo que não for adequado para uma existência digna e feliz.

Compartilho com vocês a partir de agora, os princípios-atitudes que têm me ajudado a construir minha própria identidade, através de um processo contínuo de tomada de consciência das capacidades, possibilidades e probabilidades de transformação da  minha realidade imediata: a criticidade, a criatividade, a reflexividade e a dialogicidade.

Criticidade

Até o momento que antecede minha atual fase (de pesquisador, escritor, enfim, de filósofo) julgava que eu era crítico porque havia me formado em filosofia e conhecia (superficialmente) alguns conceitos e questões filosóficas. Não poderia estar mais enganado! Se hoje começo a me aproximar de uma fundamentação mais clara sobre minhas práticas e representações, devo isso à atitude crítica que passei a assumir (não só profissionalmente, mas, principalmente, pessoalmente) há alguns anos.

Normalmente, quando falamos em crítica, logo pensamos naquela pessoa que é do contra, que diz que tudo está mal, que tudo é feio e desagradável e está errado. É claro que quando as coisas não vão bem ou quando estamos diante de uma obra (seja de arte, científica ou filosófica) de qualidade duvidosa temos que apontar sim suas limitações. Criticar é muito mais do que apontar limites ou falhas. Segundo a filósofa Marilena Chauí, “a palavra ‘crítica’ vem do grego e possui três sentidos principais: 1) capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente; 2) exame racional de todas as coisas sem preconceito ou pré-julgamento; 3) atividade de examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma obra artística ou científica.” (CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo, SP: Ática, 2003, p. 18).  Ora, é justamente isso que venho fazendo: como filósofo, tenho examinado racionalmente, sem preconceito e sem pré-julgamento, o aspecto da realidade que elegi como meu objeto de estudo, a educação. Para isso, tenho procurado examinar e avaliar detalhadamente o processo educativo, levando em conta todos os matizes que interferem no processo de formação humana, dos pressupostos filosóficos da educação aos recursos metodológicos, passando pelo processo avaliativo. O resultado de tudo isso é que tenho aguçado minha “capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente”, fundamental para o exercício da cidadania na sociedade contemporânea.

Se hoje começo a ter algum retorno (só para lembrar, cheguei à fase de entrevista no processo seletivo ao mestrado em Educação da UFPE, sendo “orientado” por mim mesmo, e hoje, dia 24 de abril de 2013, enquanto trabalhava no presente texto, recebi a feliz notícia de que havia sido convidado para participar de um bate-papo no CESAR EDU, espaço de formação do C.E.S.A.R., importante centro privado de inovação que utiliza engenharia avançada em Tecnologias da Informação e Comunicação para solucionar problemas complexos para empresas e indústrias) é porque assumi o compromisso com a postura crítica.

Sem dúvida, meus filhos, Caio e Ravi, respeitando o ritmo de seus desenvolvimentos cognitivos e afetivos, serão educados para a criticidade.

Criatividade

Normalmente consideremos criativas as pessoas ligadas ao universo artístico. Na visão comum, são criativas as pessoas que desenham, tocam algum instrumento, têm alguma habilidade manual para o artesanato, enfim, normalmente consideramos criativas as pessoas que sabem fazer coisas que a maioria dos mortais não sabe.

Como dizem Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, uma conferida nos significados da palavra criar (e derivados como criador, criatividade e criativo) mostra-nos que “a criatividade pressupõe um sujeito criador, isto é, uma pessoa inventiva que produz e dá existência a algum produto que não existia anteriormente.” (ARANHA, M.L. e MARTINS, M.H. Filosofando: introdução à filosofia. 2ed. rev. e ampl. - São Paulo, SP: Moderna, 1993, p. 337).

Senão, vejamos: criar. V. t. d. 1. Dar existência a; tirar do nada. 2. Dar origem a; gerar, formar. 3. Dar princípio a; produzir, inventar, imaginar, suscitar. criador. Adj. 3. Inventivo, fecundo, criativo. criatividade. S. f. 1. Qualidade de criativo. Vale lembrar que o produto da atividade criativa não é, necessariamente, um objeto concreto, podendo ser uma ideia, uma imagem ou uma teoria.

Segundo as filósofas citadas, um dos critérios para determinar a criatividade de um produto (objetos, ideias, teorias) é a extensão de sua influência. Quanto mais uma obra reestruturar nosso “universo de compreensão", ou seja, quanto mais ela contribuir para desestabilizar nossas crenças estabelecidas, quanto mais revolucionar nosso saberes constituídos (o que consideramos "certo" e "indiscutível"), mais criativa ela será.

Outro critério importante para medir a criatividade é a inovação. Uma obra criativa de fato traz alguma novidade, algum detalhe que nos leva a rever o que já conhecíamos, atribuindo-lhe uma nova organização. Porém, é bom termos cuidado, pois nem tudo que é novo é criativo, já que “a inovação aparece com relação a um dado problema ou a uma dada situação, solucionando-a ou esclarecendo-a. A inovação surge, geralmente, do remanejo do conhecimento existente que revela insuspeitados parentescos ou semelhanças entre fatos já conhecidos que não pareciam ter nada em comum.” (Idem, 1993, p. 338) Além disso, a inovação deve ser relevante, ou seja, adequada à situação. “Um ato, uma ideia ou um produto é criativo quando é novo, adequado e abrangente” (Idem, 1993, p. 338), sentenciam as autoras.

Apesar de tais condições serem associadas quase que automaticamente ao universo artístico, a criatividade é uma capacidade humana que também está presente na produção científica e na vida em geral. “A ciência não poderia progredir se alguns espíritos mais criativos não tivessem percebido relações entre fatos aparentemente desconexos, se não tivessem testado essas suas hipóteses e chegado a novas teorias explicativas dos fenômenos.” (Idem, 1993, p. 338)

Nesse processo, não podemos deixar de falar na imaginação, faculdade que aproxima os trabalhos do cientista, do artista e (acréscimo meu às ideias das colegas filósofas) do filósofo. Todos eles desenvolvem o “comportamento denominado ‘exploratório’, isto é, dedicam-se a ‘explorar’ as possibilidades, ‘o que poderia ser’, em vez de se deter no que realmente é. Para isso, necessitam da imaginação.” (Idem, 1993, p. 338). Imaginar é a capacidade de criar imagens, de ver para além do dado imediato, criando possibilidades novas.

Tanto o artista quanto o cientista e o filósofo “têm de ser suficientemente flexíveis para sair do seguro, do conhecido, do imediato, e assumir os riscos ao propor o novo, o possível.” (Idem, 1993, p. 338)

Sei que muitos podem (ou poderão) discordar das minhas ideias e posicionamentos, o que é muito bom, pois estimula o “pensamento divergente”, aquele que leva a muitas respostas possíveis, ao contrário do “pensamento convergente”, que aponta para uma única resposta, considerada certa. Mas de uma coisa ninguém pode negar: que eu esteja criando e sendo criativo!

Minha formação descurada me impediu durante grande parte da minha vida que eu exercitasse minha criatividade, que imaginasse e ousasse desafiar os limites da minha realidade concreta. Mas, a partir do momento em que passei a investir na minha formação continuada e fui me percebendo melhor, tomando posse da minha própria identidade, concomitantemente, fui descobrindo minha criatividade, que de forma nenhuma é um dom ou algo inato, mas, ao contrário, é o exercício do “comportamento exploratório”. É isso que tenho feito: aguçado a imaginação e me dedicado a “explorar” as possibilidades, “o que poderia ser”, ao invés de me contentar com o que realmente é. No meu caso, esse “realmente é” significa ser fruto de uma sociedade desigual, que exclui a maior parte da população da produção e do consumo de bens e serviços, materiais e simbólicos. Indo direto ao ponto: estou exercitando minha criatividade como forma de superar minha condição sócio-cultural-econômica herdada, visando à satisfação plena de minhas necessidades, tanto as corporais (alimentação, moradia, transporte, etc), quanto espirituais (produção e consumo de obras artísticas, filosóficas e científicas).     

Procurarei oferecer situações e atividades que desenvolvam a criatividade dos meus filhos para que, diferentemente do pai, eles possam exercer o “comportamento exploratório” desde cedo.


Reflexividade

Analogamente a atitude crítica, também me julgava reflexivo por ter me formado em filosofia. Também aqui, estava profundamente enganado. Minha ideia sobre reflexão correspondia mais ou menos à visão do senso comum que entende o ato de refletir como aquela parada que o cidadão médio faz em algum momento da vida para ponderar sobre suas ações e pensamentos ou mesmo quando precisa fazer escolhas ou tomar uma decisão importante. Apesar de sua relevância, não é a essa reflexão que me refiro, mas a filosófica.

Segundo o filósofo e educador brasileiro Dermeval Saviani, a reflexão para ser filosófica deve ser: radical, ou seja, deve ir até a raiz dos fenômenos, a sua origem, enfim, aos seus fundamentos. Dessa forma, a reflexão filosófica é uma reflexão que busca a profundidade dos acontecimentos; rigorosa, pois “deve-se proceder com rigor, ou seja, sistematicamente, segundo métodos determinados, colocando-se em questão as conclusões da sabedoria popular e as generalizações que apressadas que a ciência pode ensejar” (SAVIANI, Dermeval. Do senso comum à consciência filosófica. 17ª ed. revista. - Campinas,SP: Autores Associados, 2007, p. 21); e de conjunto: a reflexão filosófica é globalizante, pois evita a superficialidade, examinando os problemas sob uma perspectiva de conjunto, “relacionando-se o aspecto em questão com os demais aspectos do contexto em que está inserido”. (idem, 2007, p. 21)

Ora, é justamente isso que tenho feito: como filósofo, tenho procurado ir até os fundamentos do aspecto da realidade que escolhi como foco das minhas reflexões filosóficas, qual seja, a educação. Para isso, tenho procedido com rigor, sistematicamente, utilizando métodos diversos (indutivo, dedutivo, dialético, fenomenológico, etc., de acordo com a natureza dos problemas a serem analisados e compreendidos), com a finalidade de compreender o fenômeno educativo sob uma perspectiva de conjunto.

Ficarei muito contente se meus filhos, independentemente das áreas que venham a abraçar, cultivarem a radicalidade, a rigorosidade e a visão totalizante para poderem compreender melhor os fenômenos com os quais terão que lidar.

Dialogicidade

Uma das coisas que mais me dão prazer é bater um bom papo. Além de ser fonte de prazer, o diálogo representa, pra mim, um momento de conhecimento, tanto de autoconhecimento como conhecimento do outo, “pois ao tentarmos no explicar, ao tentamos nos fazer entender, estamos a um tempo nos descobrindo e tentando descobrir o outro para fazê-lo nos entender.” (FAZENDA, Ivani. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 16ª ed. Campinas, SP: Papirus, 2009, p. 55).

Como sou fruto de uma educação que não prepara para o diálogo, e como vejo que a maioria das escolas do Recife não são dialógicas, cuidarei para que meus filhos cresçam num ambiente onde a palavra falada seja valorizada e cultivada.

No artigo Desafios e saídas educativas na entrada do século, Rámon Flecha e Iolanda Tortajada, dizem, com base em Habermas (1929), que “naquelas situações não-cerceadas pelo poder e pelo dinheiro, constantemente ocorrem ações comunicativas.” (FLECHA, Ramón e TORTAJADA, Iolanda. Desafios e saídas educativas na entrada do século. In. IMBERNÓN, Francisco (Org). A educação no século XXI: os desafios do futuro imediato. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2000, p. 30). Ora, como são raríssimas as situações onde o poder tradicional e hierárquico e o poder econômico não “falam” mais alto, são raríssimas, também, as situações em que ocorrem ações comunicativas.

Como não poderia ser diferente, na chamada “sociedade da informação, da comunicação e do conhecimento”, a educação “deve basear-se na utilização de habilidades comunicativas, de tal modo que nos permita participar mais ativamente e de forma crítica e reflexiva na sociedade.” (Idem, 2008, p. 31)

Sem esquecer a dimensão política que o acesso e o tratamento da informação ensejam, os autores acima citados lembram que:

Se pretendemos superar a desigualdade que gera o reconhecimento de determinadas habilidades e a exclusão daquelas pessoas que não têm acesso ao processamento da informação, devemos pensar sobre que tipo de habilidades estão sendo potencializadas nos contextos formativos e se com isso é facilitada a interpretação da realidade a partir de uma perspectiva transformadora. (Idem, p. 31)

Assim como os autores citados, também vejo na teoria da ação comunicativa de Habermas, o meio mais adequado para potencializar as habilidades dialógicas, fundamentais para  a interpretação da realidade a partir de uma perspectiva transformadora.

A "razão comunicativa" supõe o diálogo, a interação entre os indivíduos mediada pela linguagem (discurso). A legitimidade dos valores e normas morais, antes de ser dada por uma razão abstrata e universal ou pelo arbítrio individual dos sujeitos, fundamenta-se no consenso estabelecido pelo grupo, pelo conjunto dos indivíduos.


A interação entre os sujeitos, obviamente, não se dá pela pressão do sistema econômico (fundamentado na força do dinheiro) ou do sistema político (fundamentado no exercício do poder), mas no entendimento entre os sujeitos que, através de argumentos racionais, procuram convencer (ou se deixar convencerem) uns aos outros sobre a pertinência dos valores e normas estabelecidos, instaurando-se o mundo da sociabilidade, da espontaneidade, da solidariedade e da cooperação.

Estou procurando fundamentar minhas ações na ética discursiva habermasiana e educarei meus filhos num ambiente dialógico e interacional.

Considerações finais

É isso prezado leitor, prezada leitora, ainda que esteja apenas no início da construção do meu próprio sistema de representação (visão filosófica, científica e estética) e de ação (atitudes, procedimentos, posicionamentos, habilidades), já venho vivenciando os princípios-atitudes compartilhados acima.

Mesmo sabendo que as reformas atualmente em vigor nas políticas pedagógicas de todo o mundo é muito mais fruto da pressão econômica do capital globalizado do que uma tentativa de se criar uma educação de fato libertadora e emancipatória, ninguém duvida que a atual configuração social, cultural e econômica exige que desenvolvamos novas competências, como assimilar informações, interpretar códigos e linguagens, empregar os diferentes saberes adquiridos e criar estratégias cognitivas que permitam enfrentar desafios e tomar decisões em situações cotidianas.

Hoje, muito mais significativo do que transmitir listas gigantescas de conteúdos é preparar as novas gerações para o desenvolvimento de aptidões e competências gerais, tais como: dominar a norma culta da nossa língua e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica; construir e aplicar conceitos das diversas áreas do conhecimento, visando compreender os fenômenos naturais, os processos histórico-geográficos, a produção tecnológica e as manifestações artísticas; selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representadas de diferentes formas, visando tomar decisões e enfrentar problemas; relacionar informações, representadas de diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentações consistente; e recorrer aos conhecimentos escolares construídos para elaborar propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.

Por uma questão social e cultural, não desenvolvi tais competências durante minha formação básica (incluindo o curso universitário, que considero parte da educação básica). Venho, a duras penas, procurando superar as lacunas que foram ficando durante meu processo formativo. E, nessa minha caminhada, credito a criticidade, a criatividade, a reflexividade e a dialogicidade, os pequenos (mais consistentes) saltos que tenho dado em busca de uma cidadania efetiva.

Ainda que uma formação integral do ser humano possa (e deva) ser proporcionada por instituições formais de ensino (em nível básico ou universitário), acredito que, devido aos pressupostos morais e políticos conservadores e autoritários que subjazem o trabalho efetivo na maioria das escolas, se quisermos realmente sermos livres e autônomos no pensar e na agir, precisamos assumir nossa própria formação. É esse o principal objetivo de meu projeto filosófico-pedagógico e o qual procurarei desenvolver nos meus filhos, Caio e Ravi, para que eles não demorem tanto (como aconteceu com o pai deles) a conduzirem a própria vida.


Eduquemo-nos, então, a nós mesmos, prezados leitor e leitora!



Zebé  Neto
filósofo e escritor


sábado, 20 de abril de 2013

Primeira noite do Abril Pro Rock 2013: do clássico Television ao ska turbinado do Móveis Colonias de Acaju


Ontem fui para o festival Abril Pro Rock para sacar o show do Television e ver as atrações pernambucanas como parte do projeto Sons de Pernambuco, projeto de pesquisa que estou desenvolvendo no Lubienska e que consiste em investigar, junto com a garotada, a história, os estilos e o discurso das canções feitas em nosso estado. Como o foco do meu trabalho vai ser uma "breve história do rock e rap pernambucanos" nada melhor do que acompanhar a galera mandando ver seu som ao vivo!

O show do Television (para mim o melhor da noite, em função da minha formação e experiências estéticas),  que já tava muito bom, ficou melhor ainda depois que um (ou uns) engraçadinho (s), lamentavelmente, por duas vezes jogou alguma coisa no palco (me pareceu algum lanche, como coxinha ou pastel), atingindo, na primeira, Tom Verlaine, vocalista e considerado um dos grandes guitarristas do rock'n'roll, que devolveu o presentinho e, na segunda, Richard Lloyd, também guitarrista e vocais, que, além de devolver a "gentileza", ainda fez o gesto universal do dedo em riste. O ocorrido despertou o "espírito rock'n'roll" dos "velhinhos" que a partir dali, com o apoio manifestado  por um público formado, na sua grande maioria, por uma garotada que nasceu bem depois do disco de estréia banda, Marquee Moon, lançado em 1977 e presente em várias listas de melhores álbuns de rock de todos os tempos, se soltaram mais.

Contratempos à parte, foi muito bom poder ouvir ao vivo músicas que aprecio, como "friction" e "prove it", de uma de minhas bandas preferidas.  Abaixo, a música que dá título ao álbum clássico da banda, Marquee Moon.



Das atrações pernambucanas só consegui ver o show de Siba, uma vez que cheguei na última música da Volver. Uma pena, pois não consegui ver qual é das outras duas atrações do estado, Tagore e nem Babi Jaques e os Sicilianos, duas da recente safra de bandas pernambucanas e que vêm se destacando. Fica pra uma próxima, então!.

Gostei muito do som que Siba tá fazendo. O cara tá equilibrando bem a herança musical do nosso estado com as influências do universo pop, percebidas pela presença de acordes eletrificados emitidos pela guitarra do pernambucano no seu mais novo trabalho, Avante, de 2012. Confiram abaixo, Ariana, composição do referido álbum.

  

Com relação aos outros shows, me surpreendi positivamente com Marcelo Jeneci, pois meu preconceito tinha me impedido de ter escutado direito o cantor e multiinstrumentista paulista. Apesar de esteticamente me interessar por outros sons, devo admitir que o trabalho do autor de “Feito Pra Acabar”, um dos melhores discos de 2010, segundo a imprensa especializada, como a revista Rolling Stone, é bom. Destaque para a banda que o acompanha e para vocalista que divide os vocais com Jeneci, a jovem Laura Lavieri. 

Mostrando músicas do novo trabalho e fechando a primeira noite do festival, Móveis Colonias de Acaju mandou ver na sua mistura envenenada de rock e ska e na tradicional agitação, performance, coreografias e carisma do vocalista, André Gonzáles, sem descuidar do principal: a competência com que os músicos executam seus instrumentos (dois integrantes da banda são bacharéis em música) Confiram no vídeo abaixo uma pequena mostra da apresentação de ontem.


Gostaria muito de ir hoje, noite dedicada ao som mais pesado, que entre as atrações tem o punk do Dead  Kennedys (apesar da ausência do vocalista Jelo Biafra, ainda assim, um momento histórico, pois os Kennedys são uma das principais referencias do punk), o punkrockhardcore da Devotos e o brutal death metal do Krisium. Não tenho ouvido tanto um som mais pesado ultimamente, mas seria interessante acompanhar as bandas pernambucanas, uma vez que no projeto Sons de Pernambuco pretendo mapear também a cena metal do nosso estado.

Infelizmente, como sou professor, não ganho o suficiente para ter o luxo de ir dois dias seguidos para um evento como o Abril (e olhe que, comparado a outros shows que o Recife vem recebendo, o Abril Pro Rock até que não é caro, eu é que ganho pouco!). Sem falar que hoje terei que ficar com meus filhos, Caio e Ravi, pois mamãe Sabrina Carvalho precisa trabalhar hoje à noite, na banca da editora Livrinho de Papel Finíssimo, montada justamente no festival.

Na Cabeça Bemfeita TV, a palavra-chave foi história do rock. Entre os vídeos, uma Breve história do rock e outros dois com as famosas listas: uma com os 15 maiores vocalistas e outra com os 10 maiores bateristas da história do rock. Já na Rádio Cabeça, a palavra-chave foi Marquee Moon. Lembro que os vídeos são selecionados pelo YouTube, a partir das palavras que sugiro.

Finalizando, gostaria de pedir um favor: quem quiser contribuir com o projeto Sons de Pernambuco, por gentileza, indicar bandas pernambucanas de rock (num primeiro momento consideremos "rock pernambucano" bandas que tenham em sua formação o trio base guitarra, baixo e bateria) e rap.   

Grato por terem dedicado parte do precioso tempo para me ler! Semana que vem volto com a terceira parte da Paideia a Caio e a Ravi. Abraço forte e até lá!


Zebé  Neto
filósofo e escritor

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Convite para uma práxis coletiva

Nota de esclarecimento:

O presente texto (apesar de sua inegável ligação) não faz parte da série que venho postando sobre o projeto de educação que penso ser adequado para meus filhos, Caio e Ravi, viverem suas vidas de forma crítica, criativa, reflexiva, livre e responsável. A terceira parte da Paideia a Caio e a Ravi será o próximo texto publicado. O de hoje, é antes uma tentativa de equilibrar e unificar minhas opções teóricas e minhas posturas práticas.  Foi escrito na manhã da segunda, dia 15/04, revisto e ampliado, na manhã e na tarde da terça, dia 16/04, para evitar leituras aligeiradas, equivocadas ou mesmo mal intencionadas. Com ele, também, gostaria de incluir meus parceiros e parceiras de trabalho escolar no debate que estamos levantando por aqui, que, em sintonia com os novos paradigmas profissionais, não se resume a educação, mas abarca outras manifestações culturais fundamentais para a formação integral do ser humano: filosofia, arte, ciência, tecnologia e comunicação. Sejam bem-vindos e bem-vindas, amigos e amigas da equipe Lubienska!

***

Prezados e prezadas leitores do Cabeça, peço licença a vocês para utilizar esse espaço de reflexão e crítica para fazer um convite bem especial para os educadores e educadoras do Lubienska Centro Educacional (casa de educação que desde 1969 vem contribuindo para formar a elite pensante do Estado de Pernambuco) para construírem comigo o que venho chamando de Comunidade de Investigação Filosófica (CIF).

Tal conceito, inspirado nas comunidades de pesquisa científico-filosóficas e transposto para as escolas como método didático, já vem sendo vivenciado por mim no próprio Lubienska, já com bons resultados em apenas dois meses de trabalho - o que não é pouco, pois quem é educador sabe o quanto é difícil mudar a cultura escolar hegemônica, cuja "estrutura, seja ela espacial, dos currículos, dos programas e do tempo escolar (...) cristalizados pela rotina, pela burocracia, pelas repetições" (MEC, Ensino Fundamental de nove anos: orientações gerais), é difícil de ser mudada.

O objetivo não é outro senão juntar amantes do conhecimento e da sabedoria para pesquisar, coletivamente, sobre conceitos, temas, questões e problemas que têm dificultado o exercício de nossa profissão. Pensado juntos, podemos construir saídas criativas e inovadoras, também juntos. Sem falar que estou achando meio contraditório trabalhar dessa forma com meus estudantes e não com meus pares. Daí minha iniciativa. 

Parafraseando o velho e bom Marx, que disse que "os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de várias formas; cabe transformá-lo", digo que, nós, que trabalhamos com educação já construímos muito bem o discurso sobre o novo paradigma de educação, cabe, agora, transformar o modelo ainda hegemônico e apresentar propostas efetivas. É isso que estou fazendo!

Em sintonia com as tendências filosóficas e pedagógicas da atualidade e com base numa leitura rigorosa e sistemática da LDB, dos diversos PCNs, Diretrizes Curriculares Nacionais, Pareceres e Resoluções, num diálogo crítico e reflexivo com alguns dos principais pensadores da atualidade e, principalmente, no Projeto Político Pedagógico do Lubienska Centro Educacional, acredito ter chegado a uma maturidade intelectual, moral e política (apesar de não ter ainda o peso do mestrado ou doutorado que, como sabemos, agregam poder aos discursos e legitimam ações, e de ainda estar em pleno início de minha trajetória) para sair do isolamento de minhas reflexões (o que, aliás, já venho fazendo, aqui, no Cabeça) e instigar os/as que compartilham comigo a responsabilidade de fazer parte da equipe Lubienska para revisitarmos e revermos os valores e ideias (e ideais) que fundamentam nossos sistemas moral e político.

Com base na minha experiência como filósofo e como “professor profissional” (categoria que eu já era, mas que Tardiff, no livro “Saberes docentes e formação profissional”, leitura recente para o mencionado processo seletivo, me explicou com mais detalhes) "tô" dando uma guinada na minha vida e vou, agora, no final de abril e início de maio, abraçando o empreendedorismo e o conceito de “economia criativa”, lançar, com o apoio de vários colaboradores/colaboradoras, ligados/ligadas as mais diferentes linguagens e campos de atuação, o mais novo portal de educação na web: o P.E.TEC.A. (Portal de Educação Tecnológica e Artística), uma confluência de reflexão, crítica e produção cultural, formação continuada, análise, revisão e escrita de currículos inovadores e projetos pedagógicos (os famosos PPPs, que, na maioria das vezes, são apenas documentos engavetados, sem ressonância nas representações e práticas cotidianas dos responsáveis por efetivá-los) e produção de oficinas diversas.

Vou ficando por aqui, pois logo mais começo de fato o projeto que, se tudo der certo, apontará para o modelo de educação que, não se enganem, amigos e amigas professores e professoras, se tornará comum nas escolas (falo dos princípios filosóficos e pedagógicos, e não do meu projeto específico, singular, datado e imperfeito), não agora, é claro (quem sabe na metade do século, pois as mudanças na educação formal é muito lenta, devido ao seu conservadorismo), pois o caminho é árduo e espinhoso, mas libertador e prazeroso, no final. Comecemos a dar os primeiros passos, então!

Leitores e leitoras do Cabeça, aguardem, pois ainda essa semana publico a terceira parte da Paideia a Caio e a Ravi (se as inúmeras atividades deixarem!), série de postagens que venho publicando e que trazem o esboço inicial do projeto de  formação humana que venho desenvolvendo para meus filhos e que já comecei a experimentar no Lubienska. Amigos e amigas de profissão, gostaria muito que vocês (e a própria instituição) aceitem o convite que, em público, faço para que formemos uma comunidade aprendente, germe  de um núcleo de discussão e prática sobre as novas perspectivas pedagógicas para, juntos, navegarmos por mares nunca antes navegados. 

Vale lembrar que a própria instituição, assumindo sua tradicional postura de vanguarda, se mostra aberta para as mudanças que vêm sendo exigidas desde o final do século XX e que, timidamente, começam a chegar em alguns espaços. Exemplo disso é a parceria firmada com a educadora Andrea Castro, que, com grande competência, vem preparando a equipe para um trabalho fundamentado em novas perspectivas teóricas e metodológicas. 

Assumindo meu compromisso com a postura crítica e reflexiva, enfim, filosófica,  fica, então, meu convite para uma práxis (união indissolúvel entre teoria e prática) coletiva: organizemos uma Comunidade de Investigação Filosófica entre nós, professores e professoras, coordenadoras e diretoras do Lubienska, para, primeiro, e mais fundamental de tudo, que possamos nos conhecer melhor como pessoas (uma vez que estudos mostram que nas experiências bem sucedidas, no diz respeito à propostas inovadoras, as equipes que conduzem o processo mantêm outras relações além das profissionais, como laços afetivos e ideológicos), e, segundo, para que possamos criar, coletivamente uma proposta fundamentada na interdisciplinaridade, no desenvolvimento de competências e habilidades reflexivas, no trabalho com situações-problema, na educação da sensibilidade e na adoção de eixos temáticos para cada série do Ensino Fundamental ao Ensino Médio. 


Sem medo de errar, pessoal: vai ser muito difícil encontrar nas escolas do Estado de Pernambuco (permitam-se a ousadia: até na Academia), seja da rede pública ou privada, encontrar sujeitos que estejam trabalhando dentro da perspectiva do professor reflexivo ou intelectual transformador da realidade, como defendem pensadores importantes, como Philippe Perrenoud, Isabel Alarcão, Henry Giroux e Edgard Morin (alguns dos amigos e amigas com os quais venho dialogando). Se esse é o seu caso ou se conhece alguém que trabalhe dentro desses princípios, por favor, entre em contato comigo!

Eu, Zebé Neto, com todas as dificuldades, dúvidas, incertezas e medos (como já tive uma diretora que não entendeu direito meu movimento e quis me demitir por justa causa uma vez, porque, dentro da visão fantasiosa da mesma, eu teria influenciado os/as estudantes para agredirem-na e a escola, o que de fato nunca ocorreu, pois, acima de qualquer coisa o filósofo deve ser ético e ter compromisso com a verdade, fico com um certo pé atrás... mas vamos em frente!), mas também com coragem, pois não é tarefa das mais simples escolher o caminho mais difícil,  venho paulatinamente assumindo-me como partidário dessa postura epistemológica, profissional e pessoal citada acima e, a partir da publicação de hoje, atuarei como  militante para multiplicar a concepção do professor e da escola reflexivos.

De qualquer forma,  meu receio é infundado, é como que um resquício de meu pertencimento a categoria dos oprimidos, pois não estou fazendo nada mais do que corroborando os "princípios filosóficos do trabalho escolar", como podemos ler no PPP Lubienska: "favorecer a inserção dos alunos e alunas na sociedade de maneira consciente, crítica e criativa"; "contribuir para o desenvolvimento individual e coletivo no sentido da construção as diversas identidades"; "expressar-se com liberdade, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber"; "favorecer o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas"; "favorecer a vida cooperativa e a gestão colegiada"; "favorecer o conhecimento científico e tecnológico, integração de saberes e a resolução sustentável de problemas". Quem quiser conferir a forma que encontrei para desenvolver esses princípios é só dar um conferida em dois blogs criados por mim para trabalhar com as quintas e sextas séries do fundamental: Teia do Conhecimento: Cultura e Teia do Conhecimento: Meio Ambiente.

Enfim, assim como Deleuze, considero a função da filosofia criar conceitos. Como para isso é preciso inventar problemas, outra coisa não tenho feito senão inventar, ou seja, em colocar os problemas sobre os quais passarei o resto da minha vida tentando formular conceitos. Apenas não quero fazer isso mais isoladamente (o isolamento, tanto sistêmico quanto pessoal, é um dos principais problemas da educação). Se alguém quiser me acompanhar nessa trajetória, será um prazer! 

Quanto as programações da Cabeça Bemfeita TV e da Rádio Cabeça, permanecem as da postagem anterior, pois, tanto Foucault, quanto Pink Floyd, cada um do seu modo, se fazem presentes na minha postura. Só como aperitivo da programação da Cabeça Bemfeita TV da próxima postagem, fiquem com o vídeo A escola é um saco (valeu a dica, Veloso) produção que sintetiza bem tudo que penso e venho fazendo como educador. Espero que gostem!




Grato pela atenção e vamos nos falando, ou melhor, dialogando!

Zebé  Neto
filósofo e escritor

quinta-feira, 14 de março de 2013

Escola atual: ainda vigiando e punindo


Dando continuidade a série de textos Paideia a Caio e a Ravi, trago hoje sua segunda parte, onde apresento mais elementos para compreendermos melhor a escola que temos, visando apresentar, na próxima postagem, o modelo de educação que comecei a escrever para meus filhos, Caio e a Ravi (e também para a garotada que tenho, e com a qual terei, o prazer de ensinar e, principalmente, aprender).

Um dos objetivos do blog é fazer com que eu busque preencher os vazios e lacunas que foram ficando na minha formação. Todos sabemos que, por melhor que tenha sido nossa formação inicial, é impossível um aprofundamento mais rigoroso e sistemático sobre determinado tema ou sobre a obra de um determinado autor em quatro, cinco meses, tempo médio dos períodos universitários. Isso ainda não é o pior! Muito mais grave é que, quando nos formamos vamos para o mercado de trabalho, diminuindo a possibilidade, pelo menos para a maior parte da população, de dar continuidade aos estudos, pois, presos a uma atividade repetitiva, burocrática, estressante, enfim, alienada, no tempo liberado, só queremos "descansar" para voltarmos "com tudo" para a labuta.

Enfim, estou dizendo tudo isso para justificar que, até antes da escrita do presente texto, nunca li diretamente o autor das ideias que utilizarei no presente texto para fundamentar minha visão sobre a instituição escolar (o que para muitos acadêmicos é inadmissível!), mas, como o Cabeça me obriga a buscar justamente preencher lacunas da minha formação intelectual, nada melhor do que incluir esse pensador como um dos meus parceiros na construção da educação dos meus filhos e começar um diálogo diretamente com ele. Esse pensador é o francês Michel Foucault (1926-1984).

Como só agora comecei a dialogar com Foucault ("diretamente", que fique bem claro, pois, de certa forma já vinha conversando com ele através de outros autores que venho lendo e que foram pelo pensador francês influenciados), mais exatamente através do livro Vigiar e Punir: nascimento da prisão, resolvi chamar para o bate-papo alguém que dialoga com ele há mais tempo: Inês Lacerda Araújo, professora e pesquisadora do Programa de Mestrado de Filosofia da PUC-PR, autora, entre outros, do livro Foucault e a Crítica do Sujeito (Editora da UFPR, 2000).

Foucault: normas e regras sujeitando

e controlando os indivíduos.
Em Vigiar e Punir, livro onde faz "uma história correlativa da alma moderna e de um novo poder de julgar", o filósofo francês Michel Foucault, mostra o lado da norma, das regras, da vigilância e da punição que sujeita e controla os indivíduos, tornando-os peças de uma estrutura social disciplinarmente controlada. Segundo Inês Araújo, no artigo Vigiar e punir ou educar?, presente na edição especial da Revista Educação (Foucault pensa a educação), “nessa sociedade disciplinar, a vigilância e a punição produzem corpos dóceis e capazes. A medicina, com seu discurso científico, acolhido como insuspeito, neutro, é o árbitro para a normalização do comportamento, das condutas, dos desejos.”

Para Foucault, a emergência dessa sociedade da norma, da saúde, da vigilância, que “psicologiza” e “medicaliza” o criminoso e o escolar, é fruto do desenvolvimento do modo de produção capitalista. O crescimento populacional e o aumento da produção industrial fazem com que os mecanismos de vigilância, exame e punição dependam cada vez mais da articulação entre discurso, saber, verdade e poder. Como os indivíduos passam a ser considerados em função da sua normalidade (ou seja, da sua adequação à norma capitalista), “disciplinar” a sociedade passa a ser a palavra de ordem.

Ainda que a disciplina em si não tenha sido forjada na modernidade, pois "muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas", como diz Foucault, a partir do século XVIII ela atinge um refinamento nunca antes alcançado. Rapidamente se expande para a escola elementar, exército, hospitais e para as fábricas, no século XIX.

Segundo Inês Araújo, “na escola (a disciplina), facilitou a implementação generalizada da alfabetização, a localização espacial em carteiras; esse espaço recortado, analisado, permite individualizar e classificar; a disciplina é apropriada para desenvolver aptidões, mas também é essencial para gerir a população, torna-la governável, administrável”

Em meus quase dez anos como professor, em alguns momentos, pedi para meus/minhas alunos/alunas desenharem como viam a escola. Descontando as representações ligadas ao tédio, ao sono, transmissão de conhecimentos e isolamento, parte considerável trouxe como representação da escola a prisão. Sem o saber, eles estavam corroborando a ideia foucaultiana da típica configuração arquitetônica da sociedade disciplinar: o Panopticon. Resumidamente, a ideia é a seguinte: em um presídio, numa torre central, circundada por várias celas, apenas um vigia, com uma visão geral (daí o termo panopticon, dos gregos pan, tudo, e optikós, visão) de todo o presídio, monitora o comportamento de todos os presidiários. Se vocês perceberem alguma semelhança entre o vigia e o papel do professor na escola normatizadora, não é mera coincidência!  

Além das prisões, Foucault analisa outras instituições que possuem espaços disciplinares, tais como a medicina, as indústrias e, claro, as escolas. “Na escola se tem a divisão em classes homogêneas, crianças alinhadas, o lugar marcado tendo a frente o mestre; os escolares são distribuídos conforme a idade, o sexo; as tarefas e matérias têm níveis crescentes de dificuldades; há distribuição por mérito”, diz Inês. Além de ser uma “máquina de aprender”, o espaço escolar também converte-se em espaço de vigiar, hierarquizar e premiar.

Em tal modelo escolar, a formação e a disciplina são obtidos por meio de castigos e sanções, normalmente distribuídos através de provas e exames cujos objetivos são descrever, analisar, medir, comparar, adestrar, corrigir, normalizar e excluir.

Na instituição escolar os procedimentos disciplinares funcionam, ao mesmo tempo, como mecanismos de ajuste do comportamento (filas, carteiras, horários) e como operadores pedagógicos (provas, testes, exercícios, treinamento de habilidades, avaliação do desempenho). Sendo assim, de acordo Inês Araújo, “forma-se um tipo de saber sobre o indivíduo que permite situá-lo com relação aos demais; o problemático, o indisciplinado, e não é só suscetível de punição corretiva, como é alvo de um saber que o qualifica. Esses recursos ‘pedagogizadores’ reproduzem na escola o poder, e seus efeitos, que funciona em discursos, práticas e saberes.”

Ao analisar a gênese e o uso do sistema escolar moderno, não é intenção de Foucault “abolir” a escola, antes, ele pretende mostrar “a proveniência e os usos daquelas ‘pequenas’ técnicas e dispositivos de saber e poder que passam despercebido por aqueles que fazem a história da pedagogia moderna”, pondera a professora.  Foucault jamais negaria a importância da disciplina intelectual, da dedicação aos estudos, do conhecimento e da educação, nem que a formação das crianças e adolescentes se limitem às articulações entre poder e saber. “Neste sentido, a disciplina intelectual, o rigor, a aplicação do pensamento sobre o próprio pensamento são essenciais para a formação, para o aprendizado inteligente, para raciocinar, refletir, argumentar, analisar, obter resultados”, continua Inês. Essas operações não são simples técnicas de repetição, reforço e reprodução, mas, ao contrário, impulsionam o aprendizado.

As ideias de Foucault, portanto, devem ser tomadas como uma denúncia contra a violência dirigida ao indivíduo sujeitado, como uma recusa a esse modelo que, infelizmente, ainda prevalece na maioria das escolas. Como diz Inês Araújo, “é preciso imaginar e criar novas políticas do corpo, que proporcionem autonomia, reconhecer o caráter inacabado das instituições, (o que dá chance para a inovação, para a criatividade), e, principalmente, abrir caminhos para a crítica, para a denúncia das práticas que sujeitam.”

Sem uma subjetividade livre, autônoma, não há pessoas críticas, criativas, comprometidas ética e politicamente. Apenas em escolas não burocratizadas, onde a punição e o controle passam a segundo plano, a formação verdadeira, a capacitação e o aprendizado crítico e produtivo poderiam acontecer.    

É sobre essa escola diferenciada que falarei na próxima postagem!

Zebé  Neto
Professor e Ensaísta

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Paideia a Caio e a Ravi (ou Manifesto pela Escola do Século XXI)


Minhas primeiras palavras em 2013 são de agradecimentos. Meu muito obrigado a todos e a todas que fizeram da primeira parte do manifesto que publiquei no final de 2012 o texto mais visitado nesse um ano de vida do Cabeça Bemfeita. Valeu a força, pessoal! Isso só aumenta nosso compromisso em oferecer um espaço de formação dialógico, crítico e reflexivo.

Gostaria muito de já ter publicado em 2013, mas, como não é novidade para quem me acompanha há mais tempo, não gozo de “ócio criativo” (uma das metas que persigo) para me dedicar a atividades não remuneradas (como a apreciação e a produção artísticas, por exemplo). Realmente não é nada fácil cuidar de duas figurinhas espertas e ativas, como são meus filhos, Caio e Ravi, sem babá (tanto por questão ideológica, quanto financeira); ser professor (que significa ter de dar conta de uma rede complexa de saberes que envolve o trabalho docente); e, ainda, ler textos de diferentes estruturas e registros e escrever, atividades necessárias para o exercício literário que representa para mim o Cabeça. Sem falar que nos últimos dois meses estive voltado para o processo seletivo ao mestrado em educação pela UFPE (continuo considerando o autodidatismo a melhor opção de formação, mas, dentro do meu processo de profissionalização, comecei a sentir a necessidade de estar perto de quem reflete sistematicamente sobre a educação, algo difícil de se encontrar nas escolas, além disso, o peso da autoridade legitimada pela academia fará com que minhas ideias sejam mais consideradas).

Caio e Ravi: destinatários do meu projeto
de educação

No entanto, a despeito de todas as dificuldades, apresento hoje o texto “Paideia a Caio e a Ravi”, um primeiro esboço do que penso ser a educação ideal para os meus filhos, e que retoma e complementa as questões discutidas no texto “Pare a escola que eu quero descer! (ou Manifesto pela Escola do Século XXI)”. Se não bastasse tudo isso, a postagem de hoje também marca o aniversário de um ano do Cabeça.



Por falar nisso, nem parece que já se foram doze meses desde que resolvi romper com minhas resistências com relação à tecnologia e investir no meu letramento digital. Nesse tempo passei por intensas experiências, algumas positivas, outras nem tanto, mas todas fontes de aprendizado e amadurecimento. Sem medo de errar, aprendi nesse ano, impulsionado pelo investimento no meu letramento digital, muito mais do que na minha última década de vida (acho que até nas duas últimas, mas, para não exagerar, fiquemos só com a última que já tá de bom tamanho!).

Tantas mudanças não poderiam deixar de influenciar na concepção e no formato do blog. A maioria das alterações serão compartilhadas nas próximas quatro postagens como forma de comemorar esse primeiro aniversário. A primeira e mais evidente mudança é com relação ao novo design, mais sóbrio e dinâmico. Outra mudança importante, diz respeito as páginas do blog. Nesse primeiro ano do Cabeça, abri algumas páginas com o objetivo de discutir vários assuntos que me interessam, como filosofia, arte, ciência, tecnologia e comunicação. No entanto, devido a escassez de tempo para dar conta das diferentes áreas contempladas, resolvi, nessa nova fase que se inicia, suprimir algumas e fundir outras.  O mesmo vale para a página "SOBRE", na qual apresento o blog, que voltará na próxima postagem, revista e reformulada. Além das páginas, a Cabeça Bemfeita TV (espaço onde compartilho vídeos que trazem temas, conceitos e problemas ligados a linha editorial do blog) também está sendo reformulada. O resultado vocês conferem a partir da semana que vem. Apenas a programação da sua Rádio Cabeça (espaço onde compartilho os sons que fazem minha cabeça) se manteve. Essa semana fiquem com a galera do SoulJazz Orchestra, big band de afro-soul-soul-jazz beat canadense e que também tá na batalha por um mundo menos injusto. Para quem não sabe, a seleção dos clipes exibidos é feita automaticamente pelo youtube, sendo minha interferência apenas na sugestão das palavras-chave.  Como a música Kapital  (que acho bem legal) não foi selecionada, mando ela agora pra vocês. Quem curtir, pode sacar mais sobre a banda no site http://www.souljazzorchestra.com/bio.html.



Diferentemente da primeira parte do Manifesto pela Escola do Século XXI, que foi publicada de uma só vez, a segunda será dividida em quatro partes, não só porque a maioria dos meus leitores e leitoras (acredito, eu) não possui muito tempo para ler, mas também porque eu não gozo de muito tempo para escrever.  

Também peço a compreensão de vocês para a existência de possíveis equívocos e erros (notacionais e/ou conceituais), ou mesmo para algumas análises superficiais. É que, como hoje é o último dia do mês de fevereiro (mês de aniversário do blog), e praticamente só tive ontem e hoje para escrever, resolvi publicá-lo mesmo sem ter tido tempo para maiores revisões.  Fiquem à vontade para nos ajudar, apontando nossos limites e equívocos.    

Por enquanto, é isso. Volto semana que vem trazendo a segunda parte do texto “Paideia a Caio e a Ravi” e com mais novidades sobre o funcionamento do Cabeça Bemfeita 2013. Aguardem!

Fiquem agora com o início da segunda parte do Manifesto pela Escola do Século XXI e até lá!

Zebé Neto
    filósofo e professor de filosofia  
   

Paideia a Caio e a Ravi (ou Manifesto pela Escola do Século XXI)


O filósofo grego Aristóteles escreveu sua Ética a Nicômaco com objetivo de registrar sua concepção moral. Eu, Zebé Neto, filósofo pernambucano, escrevi minha Paideia a Caio e a Ravi, um registro (inicial) sobre a educação ideal (no sentido de ser uma “ideia” de educação, ou seja, uma representação teórica de um modelo adequado de educação) que venho construindo para os meus filhos, Caio e Ravi.

Diferentemente do estagirita (que na obra composta por dez livros assume o papel de um pai interessado pela educação e felicidade de seu filho) não pretendo colocar a razão acima das paixões, antes pretendo construir um modelo de educação que busque o equilíbrio entre a razão (que percebe, sente, compreende e age movido pelas paixões), e as paixões (que, sendo melhor compreendida pela razão, podem ser mais intensamente experienciadas).

Assumindo minha responsabilidade com esses dois seres que não tiveram a liberdade de escolher existirem ou não, me coloquei a missão de primeiro me educar para depois, educar meus filhos. Como o projeto de todo indivíduo e da humanidade é inconcluso (aquele porque a morte chega e esta porque o “projeto” da humanidade se caracteriza, justamente, pela abertura, pelo porvir), até o final da minha existência física (sem nenhuma conotação religiosa) me empenharei em me autoformar para me aproximar ao máximo da identidade que julgo ser o modelo ideal de pessoa, pois só assim poderei educar meus filhos nos valores e princípios que considero os mais elevados: a sabedoria, a justiça, a coragem e a prudência.

O texto Paideia a Caio e a Ravi, cujo objetivo é complementar o Manifesto pela Escola do Século XXI, está dividido em cinco partes que, por sua vez, serão publicadas nas próximas quatro postagens.  

Hoje, como primeira parte, publico algumas considerações sobre o conceito de paideia, para isso me apoiando na obra clássica "Paideia: a formação do Homem Grego”, de Werner Jaeger.  Nas próximas postagens virão, respectivamente, a segunda parte, onde retomo a discussão sobre a instituição escolar iniciada na primeira parte do Manifesto, visando resgatar o fio condutor que levará a terceira parte, onde abordo as principais características de um projeto de educação crítica, criativa e libertária, o qual poderia ser adotado pela escola que se queira capaz de formar sujeitos dentro da perspectiva de paideia por mim defendida; e, por último, concluo o Manifesto pela Escola do Século XXI apresentando algumas ações efetivas que poderiam ser o germe de uma proposta pedagógica com mais qualidade social.

I. Paideia: a formação do ser humano

Poderia ter chamado o presente texto de “Ética a Caio e a Ravi” ou “Política a Caio e a Ravi”, pois, para mim, toda educação é um projeto ético e político (ainda que os agentes, muitas vezes, não tenham clareza disso). Também poderia tê-lo chamado de “Bildung a Caio e a Ravi”, pois a expressão Bildung também traduz o mesmo ideal de formação que a expressão de origem grega “paideia” traz.

Essa última prevaleceu pela razão que narro agora pra vocês.  Como sabem (pelo menos quem me ler com mais frequência), tive uma formação descurada, afinal, também faço parte dos milhões de brasileiros que são vítimas da educação de péssima qualidade oferecida nas nossas escolas (sejam públicas ou privadas). Em função disso, a qualidade do meu trabalho deixava a desejar. Ciente que minhas experiências pedagógicas não logravam êxito devido aos limites de minha formação, passei a investir no meu autoaprendizado constante para poder superar a situação histórico-social concreta na qual estava inserido (naquela época, de alienação). Até esse momento, o pouco da “bagagem” intelectual que tinha, proviera de memorizações e estudos pontuais que realizara com objetivos bem específicos (como passar no vestibular ou fazer provas no ensino superior). O surgimento do Cabeça, há um ano, é um capítulo dentro dessa minha busca de autoconhecimento. O aprofundamento das minhas leituras tem me mostrado a necessidade de buscar um diálogo direto com os próprios autores das categorias e problemas teóricos pelos quais tenho me interessado. Eis, então, minha escolha: sempre ouvi falar sobre “paideia” (o termo e a obra de Jaeger), mas nunca li diretamente o texto. Então, como é proposta do blog ser um espaço de aprimoramento intelectual e profissional, achei relevante ler essa obra que é referência dentro das áreas que tenho me dedicado, a filosofia e a educação.   Feita a justificativa do porquê do nome, passemos ao conceito de paideia.

Segundo Werner Jaeger, historiador e filósofo alemão, a palavra “peideia”, no início do século a.C., significava simplesmente “criação dos meninos”, bem distante do sentido elevado que adquiriu mais tarde. E qual é esse sentido elevado que o termo passou a conotar? É o que veremos.

Para Jaeger, expressões modernas como civilização, cultura, tradição, literatura ou educação não traduzem realmente o que os gregos entendiam por paideia. Tais termos limitam-se a expressar um aspecto do conceito de paideia, sendo necessário, se quisermos abranger o campo total do conceito, emprega-los todos de uma só vez. (JAEGER, 1995).

No capítulo “Lugar dos Gregos na história da educação”, Jaegar oferece pistas mais consistentes sobre o significado de "paideia" ao abordar os conhecimentos que são a força formativa que está a serviço da educação e que ajuda a formar verdadeiros "seres humanos" (no original, Jaeger fala “verdadeiros homens”, acredito que pelo fato da formação integral grega ser destinada ao gênero masculino, mas também porque no período em que Jaeger escreveu não havia a crítica ao uso do termo "Homem" para se referir a "humanidade").

Tais conhecimentos seriam: a física (no sentido grego de physis, “natureza”), a arte, a literatura e a filosofia. Analisemos a importância de tais saberes.

Segundo Jaeger, “os gregos tiveram o senso inato do que significa ‘natureza’.” (idem, p.10). Para o pensamento grego, as coisas do mundo não são partes isoladas do resto, mas, ao contrário, fazem parte de “um todo ordenado em conexão viva, na e pela qual tudo ganhava posição e sentido.” (idem, p. 11). A esta concepção, Jaeger chama de orgânica, uma vez que nela todas as partes são consideradas componentes de um todo. A concepção do ser como estrutura natural, amadurecida, originária e orgânica, impele o espírito grego para a clara apreensão das leis do real em todas as esferas da vida: pensamento, linguagem, ação e todas as formas de arte. (Idem, 1995).

Como a idealização da arte só aparece no período clássico, o estilo e a visão artística dos gregos surgem, num primeiro momento, como talento estético e “não na deliberada transferência de uma ideia para o reino da criação artística.”  (Idem, 1995, p. 12) O mesmo acontece na literatura, cujas criações dependem “da interação do sentido da linguagem e das emoções da alma” e não do sentido da visão. Até na oratória encontramos o caráter plástico e arquitetônico, caros a escultura e a arquitetura, mas que também encontramos num poema ou numa obra em prosa. 

Jaeger destaca também, como conhecimento formador do espírito humano, à filosofia, “criação mais bela do espírito grego”. Na filosofia se manifesta de forma mais evidente a força que se encontra na raiz do pensamento e da arte grega: “a percepção clara da ordem permanente que está no fundo de todos os acontecimentos e mudanças da natureza e vida humanas.”  (Idem, p. 12). A filosofia, segundo Jaeger, “não é uma simples soma de observações particulares e abstrações metódicas, mas algo que chega mais longe, uma interpretação dos fatos particulares a partir de uma imagem que lhes dá uma posição e um sentido como partes de um todo.” (Idem, p. 12).

Apenas a educação que leve em consideração esses saberes merece, propriamente, ser chamada de formação.

No entanto, adverte-nos Jaeger, "este ideal de Homem, segundo o qual se devia formar o indivíduo, não é um esquema vazio, independente do espaço e do tempo."  (Idem, p. 15). Com isso, Jaeger quer dizer que o tipo de formação considerada ideal está diretamente condicionada pelo contexto histórico-social onde se desenvolve o processo de socialização. Se assim é, qual é o modelo de formação ideal para o mundo atual? Esses conhecimentos destacados por Jaeger como força formativa a serviço da educação ainda são válidos nos dias de hoje? 

Procuraremos responder a essas e outras questões, na segunda parte do texto "Paideia a Caio e a Ravi". Até lá!