segunda-feira, 29 de abril de 2013

Educa-te a ti mesmo

Finalmente publico hoje a terceira parte da Paideia a Caio e a Ravi. No texto "Educa-te a ti mesmo" procuro esclarecer os princípios filosóficos que têm fundamentado meu trabalho pedagógico. Por falar em "princípios filosóficos", também hoje publico a página FILOSOFAR, cujo objetivo é sistematizar os conceitos e temas filosóficos utilizados para melhor compreender os problemas levantados aqui no blog.

Como venho transformando minha própria existência, nas programações da Cabeça Bemfeita TV e da Rádio Cabeça presto uma homenagem a alguns "revolucionários" que têm ajudado na minha luta pelo poder ("poder do conhecimento", que fique bem claro!). Na Cabeça Bemfeita TV, trago mais uma vez o cara que ultimamente tem feito minha cabeça: Michel Foucault (1926-1984). Suas análises sobre a origem das instituições sociais modernas tem me ajudado a compreender o contexto político e ideológico repressor contra o qual venho me rebelando. Destaco dois vídeos: o segundo, que traz as ideias do filósofo francês por ele mesmo, e o último, uma produção da ATTA Mídia e Educação, onde o filósofo brasileiro Sílvio Gallo, apresenta as contribuições de Foucault para a educação. 

Public Enemy: origem da minha postura crítica



Já na Rádio Cabeça, presto uma homenagem ao Public Enemy, banda old school do rap norte-americano que, na segunda metade da década de 1980, me apresentou conceitos como "crítica", "engajamento" e "militância". Esse meu contato com o discurso político do movimento Hip-Hop me levaria, anos depois, a abraçar a filosofia, não só como forma de conhecimento, mas, principalmente, como postura de vida. 




Gil Scott-Heron (1949-2011): 
"a revolução será ao vivo", irmão!



Completa a programação da Rádio Cabeça outro ativista: o poeta e músico norte-americano Gil Scott-Heron que, com sua mistura de poesia cantada e falada (precursor do rap) ritmos como Jazz, Funk, Soul e música latinano final da década de 1960 e início da de 1970, também apontou as mazelas do modelo capitalista de sociedade. No final de maio vai fazer dois anos que o autor do clássico "The Revolution Will Not Be Televised" nos deixou. É isso G.S.H.: "a revolução não será televisionada, a revolução será ao vivo." A minha já tá rolando!!!





Sem mais delongas, fiquem com a terceira parte da Paideia a Caio e a Ravi.

Educa-te a ti mesmo

Com a postagem de hoje chegamos a um momento bem especial do texto Paideia a caio e a Ravi: é a primeira vez que sistematizo, num corpo textual organicamente integrado, o germe daquilo que constituirá o núcleo teórico e prático do meu próprio sistema filosófico e pedagógico, sistema esse ao qual me dedicarei até o final da minha existência.

Antes de falar especificamente sobre os princípios teóricos sobre os quais construirei meu projeto de educação, quais sejam, a criticidade, a criatividade, a reflexividade e a dialogicidade, permitam-me narrar minha recente experiência em tentar entrar para o corpo discente do curso de Mestrado em Educação, da UFPE, mais especificamente na linha de pesquisa Formação Docente e Prática Pedagógica. Tal fato, como mostrarei a seguir, corrobora minha ideia de que os princípios teóricos por mim defendidos são fundamentais para o exercício da cidadania. Por isso mesmo, eles serão a base da educação que pretendo dar para meus filhos.

Para quem não sabe, estive participando do processo seletivo ao mestrado em Educação da UFPE. Estive, porque na terça, dia 26/03, fiquei sabendo que havia sido reprovado na 3ª Etapa do concurso, correspondente a entrevista e defesa do projeto. Confesso que fiquei surpreso, pois, no meu entender, a entrevista tinha sido tranquila (até demais, uma vez que não fui indagado sobre aspectos importantes, como metodologia ou fundamentação teórica), tendo eu respondido, adequadamente, aos questionamentos levantados pela banca examinadora, principalmente com relação a uma suposta “amplitude” da minha pesquisa (concordo que meu projeto é complexo, pois não é tarefa das mais simples investigar as práticas e representações docentes dos professores de filosofia do estado, mas, ainda que fosse “amplo”, a Academia só se interessa por temas “restritos”? E a visão de conjunto cara a atividade do filósofo, como é que fica?).

No entanto, o que quero destacar aqui, não é meu aparente “fracasso”, mas meu autodidatismo que, mesmo enfrentando diversas barreiras, me trouxeram até a terceira fase de um dos cursos de mestrado mais disputados do estado de Pernambuco. Gostaria aqui, de convidar o prezado leitor e a prezada leitora para voltarem comigo até fevereiro de 2012, época em que coloquei o Cabeça no ar (ou melhor, nas infovias).  Até essa época, apesar de já vir investindo (timidamente) nas competências leitora e escritora, nem imaginava o fortalecimento e o salto qualitativo que minha condição de leitor e escritor daria com o exercício literário proporcionado pelo blog Cabeça Bemfeita.

Acreditem-me, se não fosse o Cabeça (que me obrigou a investir nas competências citadas), não teria conseguido aprovar meu projeto (“orientado” por mim mesmo), nem passado na avaliação escrita (sem nem sequer ter lido um dos textos cobrados para o exame, pois, sabem como é, quando se adquire uma certa competência para escrever, dá pra “argumentar” bem, ainda que sem a fundamentação devida!), nem muito menos questionar o resultado final da entrevista.

Para que ninguém se iluda e fique achando que bastam a força, o empenho, o esforço, o compromisso e o sacrifício individual para que consigamos o quê buscamos. É preciso estarmos atentos aos condicionantes sociais que, quando não impedem, dificultam a realização dos nossos projetos. Foi o que aconteceu comigo na 3ª Etapa da seleção ao mestrado da UFPE ao ser “reprovado”. Minha “reprovação” freou um processo ascendente (que continua, apesar de tudo) que vinha experimentando.

Alguns, com uma postura menos crítica, poderiam pensar: “Ah, tá bom demais! Pra quem ganha a vida como professor, cuida, sem babá, de dois filhos, organiza as “coisas” do lar e não traz na sua bagagem intelectual quase nada das escolas por onde passou (incluindo cursos universitários), uma vez que esquecemos o que decoramos, e que só estudou na vida inteira por conta própria (sempre com fins pragmáticos), fazer pela primeira vez o concurso e chegar até a entrevista, já é um ótimo resultado!”.  Até concordo que me saí bem, mas, dentro da postura crítica e reflexiva que venho assumindo e em nome do livre-pensar, me reservo o direito de discordar da “avaliação” dos que organizam o processo de seleção ao mestrado em educação, da UFPE.

Em primeiro lugar, toda avaliação é arbitrária (sei o que é isso, sou professor!), no sentido de que um determinado grupo (no caso, os organizadores da seleção), a partir de certos princípios categoriais e axiológicos (nem sempre tematizados e/ou explicitados), escolhe certos critérios (deixando de lado uma série de outros critérios tão ou mesmo mais fundamentais do que os convencionalmente estabelecidos) a partir dos quais (ou alheio aos quais) julgam os projetos apresentados.

Se os/as nobres examinadores valorizam, presam e cultivam suas faculdades de julgar, também tenho cuidado e educado a minha. Ora, mais do que qualquer sujeito (e principalmente mais do que qualquer “coletividade julgadora”), devemos nós mesmos, que assumimos nossa “maior idade” e conduzimos autonomamente nossa própria formação, sermos nossos juízes mais rigorosos.

Não sei quais critérios foram utilizados (entrei com recurso, apenas para posicionar-me, mas ciente de que o resultado não mudaria), mas quaisquer que tenham sido e ainda que persuasivos ao ponto de convencerem-me da justiça do processo, não alteram o fato das razões e argumentos apresentados serem discursos construídos a partir de certos princípios, valores e ideias, convencional e arbitrariamente construídos por sujeitos concretos, historicamente determinados e ideologicamente comprometidos, passíveis, por tudo que foi exposto, a julgamentos de fato e de valor mais ou menos rigorosos, mais ou menos sistemáticos, mais ou menos totalizantes, mais ou menos isentos de interesses estranhos às regras (impessoais) do processo (sendo mais direto: não favorecer esse ou aquele candidato devido a sua posição no jogo de distribuição do poder social).

Divergências sobre o resultado à parte, o certo é que se não tivesse investido por conta própria na minha formação permanente (afinal, o filósofo não é aquele que, consciente da sua ignorância, procura sua superação?), não estaria, nesse momento, escrevendo as páginas da minha própria existência.

Narrei esse exemplo para corroborar a máxima baconiana de que “conhecer é poder”. Aqui me refiro tanto ao poder do sujeito que pode tomar consciência da sua situação e transformá-la (como no meu caso), quanto ao poder das instituições sociais que investe ou destitui do poder social quem é “aprovado” ou “reprovado”, segundo critérios convencionalmente escolhidos e legitimados pelos que conduzem as instituições (como no caso do processo seletivo ao curso de mestrado em educação).

Apesar da ideia de Bacon (1561-1626) não incluir necessariamente uma dimensão ética da busca, manutenção e distribuição do poder, não podemos deixar de considerar que tanto o conhecer quanto o poder encerram questões éticas: Conhecer para que?, Quem seleciona, sistematiza e transmite o conhecimento? Com quais interesses? Buscamos “poder” para que? Quem distribui o poder? Quem fica com mais poder?, ....

Como no imaginário coletivo o conceito de poder traz um estigma negativo muito forte (geralmente associado às sociedades repressivas, onde o poder é exercido por uma minoria que explora, violenta e aliena a maior parcela da população) poucas pessoas admitem lutar por ele.

Não nos iludamos, prezados leitor e leitora: o poder está aí (seja econômico, político ou ideológico) e, o que é pior, está sendo (sempre foi, na verdade) utilizado contra a maioria da população, que não herdou uma condição sócio-histórica favorável. Cansado de fazer parte dessa maioria, venho investindo na minha formação continuada, sempre de forma independente e autônoma, para “conhecer” mais e melhor (respeitando o espírito do blog, melhor seria dizer, “melhor e mais”!) para “poder” conduzir minha vida, sem depender (ou pelo menos o mínimo possível) de fatores externos a minha vontade.

No entanto, diferentemente do filósofo inglês, precursor do empirismo, que, segundo nos mostra a história, não desenvolveu um conhecimento ético a altura de suas ideias epistêmicas, acredito que a máxima “conhecer é poder” só pode ser efetivado com base em princípios e valores que dignifiquem a condição humana, tais como a sabedoria, a justiça, a moderação, o respeito às diferenças e ao dissenso, a defesa radical da liberdade e a abertura permanente ao diálogo.

Se cada hoje da minha existência é uma superação do ontem vivido, devo isso à postura crítica e reflexiva que venho assumindo nos últimos tempos e que, por sua vez, tem despertado e aguçado minha criatividade. E como não há vida pessoal fora de uma vida social, mais recentemente tenho procurado sair do isolamento que me coloquei (afinal, o filósofo é aquele que se afasta da realidade para visualizá-la melhor e conseguir um ponto vista mais amplo, e que depois volta para essa mesma realidade para tentar modificá-la) e ir ao encontro de outros sujeitos que, assim como eu, se encantam com a vida e buscam compreendê-la para, quando necessário, promover mudanças naquilo que não for adequado para uma existência digna e feliz.

Compartilho com vocês a partir de agora, os princípios-atitudes que têm me ajudado a construir minha própria identidade, através de um processo contínuo de tomada de consciência das capacidades, possibilidades e probabilidades de transformação da  minha realidade imediata: a criticidade, a criatividade, a reflexividade e a dialogicidade.

Criticidade

Até o momento que antecede minha atual fase (de pesquisador, escritor, enfim, de filósofo) julgava que eu era crítico porque havia me formado em filosofia e conhecia (superficialmente) alguns conceitos e questões filosóficas. Não poderia estar mais enganado! Se hoje começo a me aproximar de uma fundamentação mais clara sobre minhas práticas e representações, devo isso à atitude crítica que passei a assumir (não só profissionalmente, mas, principalmente, pessoalmente) há alguns anos.

Normalmente, quando falamos em crítica, logo pensamos naquela pessoa que é do contra, que diz que tudo está mal, que tudo é feio e desagradável e está errado. É claro que quando as coisas não vão bem ou quando estamos diante de uma obra (seja de arte, científica ou filosófica) de qualidade duvidosa temos que apontar sim suas limitações. Criticar é muito mais do que apontar limites ou falhas. Segundo a filósofa Marilena Chauí, “a palavra ‘crítica’ vem do grego e possui três sentidos principais: 1) capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente; 2) exame racional de todas as coisas sem preconceito ou pré-julgamento; 3) atividade de examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma obra artística ou científica.” (CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo, SP: Ática, 2003, p. 18).  Ora, é justamente isso que venho fazendo: como filósofo, tenho examinado racionalmente, sem preconceito e sem pré-julgamento, o aspecto da realidade que elegi como meu objeto de estudo, a educação. Para isso, tenho procurado examinar e avaliar detalhadamente o processo educativo, levando em conta todos os matizes que interferem no processo de formação humana, dos pressupostos filosóficos da educação aos recursos metodológicos, passando pelo processo avaliativo. O resultado de tudo isso é que tenho aguçado minha “capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente”, fundamental para o exercício da cidadania na sociedade contemporânea.

Se hoje começo a ter algum retorno (só para lembrar, cheguei à fase de entrevista no processo seletivo ao mestrado em Educação da UFPE, sendo “orientado” por mim mesmo, e hoje, dia 24 de abril de 2013, enquanto trabalhava no presente texto, recebi a feliz notícia de que havia sido convidado para participar de um bate-papo no CESAR EDU, espaço de formação do C.E.S.A.R., importante centro privado de inovação que utiliza engenharia avançada em Tecnologias da Informação e Comunicação para solucionar problemas complexos para empresas e indústrias) é porque assumi o compromisso com a postura crítica.

Sem dúvida, meus filhos, Caio e Ravi, respeitando o ritmo de seus desenvolvimentos cognitivos e afetivos, serão educados para a criticidade.

Criatividade

Normalmente consideremos criativas as pessoas ligadas ao universo artístico. Na visão comum, são criativas as pessoas que desenham, tocam algum instrumento, têm alguma habilidade manual para o artesanato, enfim, normalmente consideramos criativas as pessoas que sabem fazer coisas que a maioria dos mortais não sabe.

Como dizem Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, uma conferida nos significados da palavra criar (e derivados como criador, criatividade e criativo) mostra-nos que “a criatividade pressupõe um sujeito criador, isto é, uma pessoa inventiva que produz e dá existência a algum produto que não existia anteriormente.” (ARANHA, M.L. e MARTINS, M.H. Filosofando: introdução à filosofia. 2ed. rev. e ampl. - São Paulo, SP: Moderna, 1993, p. 337).

Senão, vejamos: criar. V. t. d. 1. Dar existência a; tirar do nada. 2. Dar origem a; gerar, formar. 3. Dar princípio a; produzir, inventar, imaginar, suscitar. criador. Adj. 3. Inventivo, fecundo, criativo. criatividade. S. f. 1. Qualidade de criativo. Vale lembrar que o produto da atividade criativa não é, necessariamente, um objeto concreto, podendo ser uma ideia, uma imagem ou uma teoria.

Segundo as filósofas citadas, um dos critérios para determinar a criatividade de um produto (objetos, ideias, teorias) é a extensão de sua influência. Quanto mais uma obra reestruturar nosso “universo de compreensão", ou seja, quanto mais ela contribuir para desestabilizar nossas crenças estabelecidas, quanto mais revolucionar nosso saberes constituídos (o que consideramos "certo" e "indiscutível"), mais criativa ela será.

Outro critério importante para medir a criatividade é a inovação. Uma obra criativa de fato traz alguma novidade, algum detalhe que nos leva a rever o que já conhecíamos, atribuindo-lhe uma nova organização. Porém, é bom termos cuidado, pois nem tudo que é novo é criativo, já que “a inovação aparece com relação a um dado problema ou a uma dada situação, solucionando-a ou esclarecendo-a. A inovação surge, geralmente, do remanejo do conhecimento existente que revela insuspeitados parentescos ou semelhanças entre fatos já conhecidos que não pareciam ter nada em comum.” (Idem, 1993, p. 338) Além disso, a inovação deve ser relevante, ou seja, adequada à situação. “Um ato, uma ideia ou um produto é criativo quando é novo, adequado e abrangente” (Idem, 1993, p. 338), sentenciam as autoras.

Apesar de tais condições serem associadas quase que automaticamente ao universo artístico, a criatividade é uma capacidade humana que também está presente na produção científica e na vida em geral. “A ciência não poderia progredir se alguns espíritos mais criativos não tivessem percebido relações entre fatos aparentemente desconexos, se não tivessem testado essas suas hipóteses e chegado a novas teorias explicativas dos fenômenos.” (Idem, 1993, p. 338)

Nesse processo, não podemos deixar de falar na imaginação, faculdade que aproxima os trabalhos do cientista, do artista e (acréscimo meu às ideias das colegas filósofas) do filósofo. Todos eles desenvolvem o “comportamento denominado ‘exploratório’, isto é, dedicam-se a ‘explorar’ as possibilidades, ‘o que poderia ser’, em vez de se deter no que realmente é. Para isso, necessitam da imaginação.” (Idem, 1993, p. 338). Imaginar é a capacidade de criar imagens, de ver para além do dado imediato, criando possibilidades novas.

Tanto o artista quanto o cientista e o filósofo “têm de ser suficientemente flexíveis para sair do seguro, do conhecido, do imediato, e assumir os riscos ao propor o novo, o possível.” (Idem, 1993, p. 338)

Sei que muitos podem (ou poderão) discordar das minhas ideias e posicionamentos, o que é muito bom, pois estimula o “pensamento divergente”, aquele que leva a muitas respostas possíveis, ao contrário do “pensamento convergente”, que aponta para uma única resposta, considerada certa. Mas de uma coisa ninguém pode negar: que eu esteja criando e sendo criativo!

Minha formação descurada me impediu durante grande parte da minha vida que eu exercitasse minha criatividade, que imaginasse e ousasse desafiar os limites da minha realidade concreta. Mas, a partir do momento em que passei a investir na minha formação continuada e fui me percebendo melhor, tomando posse da minha própria identidade, concomitantemente, fui descobrindo minha criatividade, que de forma nenhuma é um dom ou algo inato, mas, ao contrário, é o exercício do “comportamento exploratório”. É isso que tenho feito: aguçado a imaginação e me dedicado a “explorar” as possibilidades, “o que poderia ser”, ao invés de me contentar com o que realmente é. No meu caso, esse “realmente é” significa ser fruto de uma sociedade desigual, que exclui a maior parte da população da produção e do consumo de bens e serviços, materiais e simbólicos. Indo direto ao ponto: estou exercitando minha criatividade como forma de superar minha condição sócio-cultural-econômica herdada, visando à satisfação plena de minhas necessidades, tanto as corporais (alimentação, moradia, transporte, etc), quanto espirituais (produção e consumo de obras artísticas, filosóficas e científicas).     

Procurarei oferecer situações e atividades que desenvolvam a criatividade dos meus filhos para que, diferentemente do pai, eles possam exercer o “comportamento exploratório” desde cedo.


Reflexividade

Analogamente a atitude crítica, também me julgava reflexivo por ter me formado em filosofia. Também aqui, estava profundamente enganado. Minha ideia sobre reflexão correspondia mais ou menos à visão do senso comum que entende o ato de refletir como aquela parada que o cidadão médio faz em algum momento da vida para ponderar sobre suas ações e pensamentos ou mesmo quando precisa fazer escolhas ou tomar uma decisão importante. Apesar de sua relevância, não é a essa reflexão que me refiro, mas a filosófica.

Segundo o filósofo e educador brasileiro Dermeval Saviani, a reflexão para ser filosófica deve ser: radical, ou seja, deve ir até a raiz dos fenômenos, a sua origem, enfim, aos seus fundamentos. Dessa forma, a reflexão filosófica é uma reflexão que busca a profundidade dos acontecimentos; rigorosa, pois “deve-se proceder com rigor, ou seja, sistematicamente, segundo métodos determinados, colocando-se em questão as conclusões da sabedoria popular e as generalizações que apressadas que a ciência pode ensejar” (SAVIANI, Dermeval. Do senso comum à consciência filosófica. 17ª ed. revista. - Campinas,SP: Autores Associados, 2007, p. 21); e de conjunto: a reflexão filosófica é globalizante, pois evita a superficialidade, examinando os problemas sob uma perspectiva de conjunto, “relacionando-se o aspecto em questão com os demais aspectos do contexto em que está inserido”. (idem, 2007, p. 21)

Ora, é justamente isso que tenho feito: como filósofo, tenho procurado ir até os fundamentos do aspecto da realidade que escolhi como foco das minhas reflexões filosóficas, qual seja, a educação. Para isso, tenho procedido com rigor, sistematicamente, utilizando métodos diversos (indutivo, dedutivo, dialético, fenomenológico, etc., de acordo com a natureza dos problemas a serem analisados e compreendidos), com a finalidade de compreender o fenômeno educativo sob uma perspectiva de conjunto.

Ficarei muito contente se meus filhos, independentemente das áreas que venham a abraçar, cultivarem a radicalidade, a rigorosidade e a visão totalizante para poderem compreender melhor os fenômenos com os quais terão que lidar.

Dialogicidade

Uma das coisas que mais me dão prazer é bater um bom papo. Além de ser fonte de prazer, o diálogo representa, pra mim, um momento de conhecimento, tanto de autoconhecimento como conhecimento do outo, “pois ao tentarmos no explicar, ao tentamos nos fazer entender, estamos a um tempo nos descobrindo e tentando descobrir o outro para fazê-lo nos entender.” (FAZENDA, Ivani. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 16ª ed. Campinas, SP: Papirus, 2009, p. 55).

Como sou fruto de uma educação que não prepara para o diálogo, e como vejo que a maioria das escolas do Recife não são dialógicas, cuidarei para que meus filhos cresçam num ambiente onde a palavra falada seja valorizada e cultivada.

No artigo Desafios e saídas educativas na entrada do século, Rámon Flecha e Iolanda Tortajada, dizem, com base em Habermas (1929), que “naquelas situações não-cerceadas pelo poder e pelo dinheiro, constantemente ocorrem ações comunicativas.” (FLECHA, Ramón e TORTAJADA, Iolanda. Desafios e saídas educativas na entrada do século. In. IMBERNÓN, Francisco (Org). A educação no século XXI: os desafios do futuro imediato. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2000, p. 30). Ora, como são raríssimas as situações onde o poder tradicional e hierárquico e o poder econômico não “falam” mais alto, são raríssimas, também, as situações em que ocorrem ações comunicativas.

Como não poderia ser diferente, na chamada “sociedade da informação, da comunicação e do conhecimento”, a educação “deve basear-se na utilização de habilidades comunicativas, de tal modo que nos permita participar mais ativamente e de forma crítica e reflexiva na sociedade.” (Idem, 2008, p. 31)

Sem esquecer a dimensão política que o acesso e o tratamento da informação ensejam, os autores acima citados lembram que:

Se pretendemos superar a desigualdade que gera o reconhecimento de determinadas habilidades e a exclusão daquelas pessoas que não têm acesso ao processamento da informação, devemos pensar sobre que tipo de habilidades estão sendo potencializadas nos contextos formativos e se com isso é facilitada a interpretação da realidade a partir de uma perspectiva transformadora. (Idem, p. 31)

Assim como os autores citados, também vejo na teoria da ação comunicativa de Habermas, o meio mais adequado para potencializar as habilidades dialógicas, fundamentais para  a interpretação da realidade a partir de uma perspectiva transformadora.

A "razão comunicativa" supõe o diálogo, a interação entre os indivíduos mediada pela linguagem (discurso). A legitimidade dos valores e normas morais, antes de ser dada por uma razão abstrata e universal ou pelo arbítrio individual dos sujeitos, fundamenta-se no consenso estabelecido pelo grupo, pelo conjunto dos indivíduos.


A interação entre os sujeitos, obviamente, não se dá pela pressão do sistema econômico (fundamentado na força do dinheiro) ou do sistema político (fundamentado no exercício do poder), mas no entendimento entre os sujeitos que, através de argumentos racionais, procuram convencer (ou se deixar convencerem) uns aos outros sobre a pertinência dos valores e normas estabelecidos, instaurando-se o mundo da sociabilidade, da espontaneidade, da solidariedade e da cooperação.

Estou procurando fundamentar minhas ações na ética discursiva habermasiana e educarei meus filhos num ambiente dialógico e interacional.

Considerações finais

É isso prezado leitor, prezada leitora, ainda que esteja apenas no início da construção do meu próprio sistema de representação (visão filosófica, científica e estética) e de ação (atitudes, procedimentos, posicionamentos, habilidades), já venho vivenciando os princípios-atitudes compartilhados acima.

Mesmo sabendo que as reformas atualmente em vigor nas políticas pedagógicas de todo o mundo é muito mais fruto da pressão econômica do capital globalizado do que uma tentativa de se criar uma educação de fato libertadora e emancipatória, ninguém duvida que a atual configuração social, cultural e econômica exige que desenvolvamos novas competências, como assimilar informações, interpretar códigos e linguagens, empregar os diferentes saberes adquiridos e criar estratégias cognitivas que permitam enfrentar desafios e tomar decisões em situações cotidianas.

Hoje, muito mais significativo do que transmitir listas gigantescas de conteúdos é preparar as novas gerações para o desenvolvimento de aptidões e competências gerais, tais como: dominar a norma culta da nossa língua e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica; construir e aplicar conceitos das diversas áreas do conhecimento, visando compreender os fenômenos naturais, os processos histórico-geográficos, a produção tecnológica e as manifestações artísticas; selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representadas de diferentes formas, visando tomar decisões e enfrentar problemas; relacionar informações, representadas de diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentações consistente; e recorrer aos conhecimentos escolares construídos para elaborar propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.

Por uma questão social e cultural, não desenvolvi tais competências durante minha formação básica (incluindo o curso universitário, que considero parte da educação básica). Venho, a duras penas, procurando superar as lacunas que foram ficando durante meu processo formativo. E, nessa minha caminhada, credito a criticidade, a criatividade, a reflexividade e a dialogicidade, os pequenos (mais consistentes) saltos que tenho dado em busca de uma cidadania efetiva.

Ainda que uma formação integral do ser humano possa (e deva) ser proporcionada por instituições formais de ensino (em nível básico ou universitário), acredito que, devido aos pressupostos morais e políticos conservadores e autoritários que subjazem o trabalho efetivo na maioria das escolas, se quisermos realmente sermos livres e autônomos no pensar e na agir, precisamos assumir nossa própria formação. É esse o principal objetivo de meu projeto filosófico-pedagógico e o qual procurarei desenvolver nos meus filhos, Caio e Ravi, para que eles não demorem tanto (como aconteceu com o pai deles) a conduzirem a própria vida.


Eduquemo-nos, então, a nós mesmos, prezados leitor e leitora!



Zebé  Neto
filósofo e escritor


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