domingo, 26 de agosto de 2012

Sem filosofia, sem cidadania

Olá, amigo, olá amiga, que acompanha o Cabeça Bemfeita, tudo certo? Tirando o texto que serviu para apresentar sua nova identidade, esta é a 2ª postagem da nova fase do blog. Conforme sua orientação mais recente, os domingos serão reservados para compartilhar com vocês cinco grandes áreas do conhecimento que me interessam: filosofia, arte, comunicação, ciência e tecnologia.

Nas postagens trarei sempre alguma questão do cotidiano relacionada às áreas de interesse do blog. Nas páginas específicas aprofundarei os conceitos relacionados às áreas referidas nas postagens. Por exemplo, hoje o texto faz referência à filosofia. Isto significa que, na página FILOSOFAR alguns conceitos ligados a esta área do conhecimento serão aprofundados. 


E dentro do espírito da Cabeça Bemfeita TV, a programação acompanhará as palavras-chave da postagem. Espero que os vídeos sejam interessantes (como já falei, a seleção é automaticamente feita pelo youtube a partir das palavras que sugiro, por isso, vocês poderão encontrar verdadeiras pérolas, ou produções sem maiores qualidades estéticas ou aprofundamento temático).


Já a programação da Rádio Cabeça vem trazendo uma rapaziada que tematizou a questão da cidadania nas suas canções. Rage Against the Machine, Devotos, The Roots e The Clash se alternarão na programação da  sua Rádio Cabeça.

  
Agora sim, fiquem com a primeira postagem dos domingos. Quinta-feira eu volto com mais uma reflexão sobre educação na página FORMAÇÃO (DES)CONTÍNUA. Até lá!

(Observação: Esta postagem foi originalmente publicada domingo, dia 26, e revista e ampliada no dia 28 de agosto de 2012)



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Sem filosofia, sem cidadania 



Ainda que nenhum conhecimento por si só tenha o poder de trazer felicidade ou, quem sabe, uma vida mais digna, sou da opinião de que sem uma formação filosófica básica fica difícil (não digo impossível para não desanimar os que ainda não se iniciaram nos estudos filosóficos) exercer de fato a cidadania.


No presente texto, defenderei a ideia que se não desenvolvermos as competências filosóficas que uma educação para o filosofar pode ajudar a desenvolver, ficaremos sempre aquém do exercício pleno da cidadania.  



Semana passada enquanto preparava uma aula para um cursinho com o qual colaboro aqui no Recife (o nome da instituição é "Os mestres", mas eu só tenho graduação!), me veio a ideia para esta primeira postagem das reflexões dominicais que pretendo manter com vocês, prezado leitor, prezada leitora, sobre filosofia, arte, comunicação, ciência e tecnologia.

Levando em consideração a lição kantiana que não se ensina filosofia, mas a filosofar, resolvi compartilhar com a turma as competências filosóficas conforme constam nas orientações curriculares nacionais de Filosofia para o ensino médio, volume dedicado às Ciências Humanas e suas Tecnologias.


 Ao chegar ao tópico “o significado das competências filosóficas”, indaguei: a cidadania plena pode ser alcançada por quem não detém um mínimo de conhecimento filosófico? Para mim, não.


Voltando minha atenção pra galera que estuda no cursinho acima citado, ponderei: possivelmente, parte considerável da turma não desenvolveu no ensino médio as competências filosóficas consideradas fundamentais para o exercício da cidadania. Mesmo conseguindo alcançar sua aprovação, qual será a qualidade da cidadania desses futuros profissionais?

Me pareceu ser bem pertinente discutir sobre a importância da Filosofia para a construção de sujeitos capazes de vivenciar plenamente seus direitos e deveres. É isso que passo a fazer a partir de agora.


Primeiro falarei sobre cidadania, depois, trago algumas considerações sobre filosofia e, finalizo, defendendo que esta é condição necessária para o exercício daquela.




A cidadania




Apesar de usado e abusado, o que contribui para a perda de significado, o termo “cidadania” tem uma história, e como tal, cabe um breve resgate de sua história para superar a vulgarização deste conceito.

A cidadania, fundada nos valores de liberdade e democracia, é uma conquista recente.  A palavra cidade (em latim civitas, civitatis), por volta do século XIII, deu origem ao termo cidadão para se referir aos indivíduos que abandonavam os campos e se dirigiam às cidades.


 Com a explosão dos ideais liberais a partir do século XVIII, a burguesia impôs à antiga ordem de soberanos e súditos o conceito de cidadania, atribuindo ao cidadão, direitos e deveres que antes não tinha.


“No entanto, os ideais democráticos, que para o próprio liberalismo estavam na base de seus valores, nem sempre se expressaram de maneira extensiva, por se restringirem aos indivíduos de posse, com exclusão do restante.” (ARANHA, 2008, p.180) O voto, por exemplo, até o século XX era um privilégio dos proprietários.  Só no século passado é que pobres, mulheres e analfabetos ganharam o direito de votar. 


A gradual conquista de direitos também ocorreu devido à luta organizada da sociedade civil através de diversos movimentos sociais, como o dos trabalhadores, mulheres, minorias étnicas, e outros segmentos que sofriam (e ainda sofrem) discriminação.


Algumas reivindicações da sociedade civil organizada foram codificados em diversos documentos, entre os quais destaca-se a Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, “e que em seus trinta artigos estabelece parâmetros a respeito da defesa dos direitos do cidadão.” (Idem, p. 180)   


Vale lembrar que nas democracias ocidentais, de orientação capitalista, ter o direito é diferente de exercê-lo, pois há dois aspectos da democracia que devem ser considerados: o formal e o substancial. A democracia formal caracteriza-se pela presença de instituições que caracterizam tal regime: sufrágio secreto e universal, autonomia dos poderes executivo, legislativo e judiciário, pluripartidarismo, liberdade de pensamento e expressão, etc. Por sua vez, a democracia substancial diz respeito aos fins alcançados, ou seja, se de fato a maioria da população tem acesso aos direitos consubstanciados nas “constituições democráticas”.


“Desse modo, é preciso reconhecer que nem toda população dos países ditos democráticos é constituída por cidadãos plenos, uma vez que muitos não usufruem daqueles direitos já referidos” (Idem, p. 181)


Infelizmente, o Brasil é um exemplo de democracia formal, pois, mesmo havendo a recuperação das instituições necessárias para a experiência democrática após vinte anos de ditadura militar, pouca coisa mudou com relação à distribuição dos bens materiais e simbólicos. É só observarmos os índices brasileiros e logo constatamos que cerca de 2/3 da riqueza nacional está nas mãos de aproximadamente 10% da população.

Numa realidade como esta, desigual e injusta, o nível de participação na construção e divisão dos bens materiais e simbólicos está, no meu entender, diretamente relacionada à capacidade do indivíduo em compreender o contexto social-econômico-político no qual está inserido, através de uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto sobre a realidade natural e humana, apresentando soluções criativas quando a situação o exigir.


Sem medo de errar, afirmo que a grande maioria da população brasileira que concluiu o ensino médio (aqui mim incluo, prezado leitor, prezada leitora, e a maioria de vocês) não desenvolveu competências filosóficas básicas para o pleno exercício da cidadania.

Sendo assim, concluo esta primeira parte do texto "Sem filosifia, sem cidadania", dizendo que: a maioria da população brasileira ou não exerce de fato a cidadania, ou, quando o faz, seu exercício fica aquém das possibilidades que poderia atingir se as competências filosóficas que a educação básica deveria ter ajudado a construir tivessem sido assimiladas criticamente.   








  

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Assumamos nossa própria formação

Olá, leitor e leitora do Cabeça Bemfeita! 

Conforme a  nova identidade  do blog, hoje a publicação é especialmente destinada (mas não exclusiva, porque qualquer profissional, principalmente quem trabalha com informação e conhecimento, deveria se preocupar com sua formação) para o/a professor/professora. Para inaugurar nosso espaço de reflexão sobre nossa profissão, falo sobre a importância de assumirmos nossa própria formação, pois dificilmente encontraremos instituições, sejam cursos de pedagogia/licenciatura ou escolas, que promovam uma formação adequada .

Acompanhando a discussão da postagem, a Cabeça Bemfeita TV traz alguns vídeos sobre formação continuada. Lembro que os vídeos são selecionados automaticamente pelo youtube a partir das palavras-chave que sugiro, por isso, a qualidade dos vídeos em cartaz variará bastante.

Já na Rádio Cabeça, procurei priorizar artistas que dialogam mais de perto com a cultura juvenil. Geralmente nós, professores, por considerarmos que nossos estudantes só escutam músicas de menor valor, tendemos a impor-lhes obras consideradas de inegável qualidade estética. Obviamente que Chico (Buarque), Caetano e Gil têm muito o que dizer para as novas gerações. Isso não impede, contudo, que tragamos para sala de aula a galera mais jovem que também vem mandando seu recado. Mundo Livre s/a, Devotos, Criolo (que inclusive estabeleceu um diálogo com Chico Buarque com um rap feito a partir da música "cálice") e Racionais MC's, que vão se revezar na programação da Rádio Cabeça dessa semana, representam ótima oportunidade para reflexão sobre questões éticas, políticas e estéticas.

Espero que gostem! 


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Assumamos nossa própria formação


Sempre que os números oficiais da educação brasileira são divulgados, como na última semana, quando foi anunciado na terça, 14, o resultado do último  Ideb ressurge a discussão sobre um maior investimento na melhoria da qualidade da educação no nosso país.
 
Falar em melhoria na qualidade da educação significa falar na revalorização (ou melhor, valorização, pois essa nunca foi uma preocupação do nosso país) da profissão docente. Obviamente que revalorizar (ou valorizar) significa pagar  salários mais justos. Mas, no meu entender, mais importante até do que salários elevados, é o cuidado com a formação do professor.
Em tese, um professor bem preparado teria condições de, através do seu trabalho intelectual transformador, construir uma existência, material e simbólica, satisfatória.
E como um profissional da educação se torna bem preparado? Resposta óbvia: nos cursos de pedagogia e licenciatura, aos quais cabe “proporcionar uma compreensão sistematizada da educação, a fim de que o trabalho pedagógico se desenvolva para além do senso comum e se torne realmente uma atividade intencional.” (ARANHA, 2008, p. 44)  
No entanto, a maioria dos cursos de formação realiza uma atividade meramente burocrática, ao invés de serem momentos efetivos de reflexão e estudo obre a educação.
Como as escolas também não abrem espaço para a formação continuada do professor (por favor, não me venham dizer que aquelas palestras das semanas pedagógicas, proferidas por renomados especialistas em algum tema da moda, ou aquelas "reuniões pedagógicas" estéreis onde se discute de tudo, menos o pedagógico, funcionam como formação continuada!), significa que o profissional que não teve o privilégio de ter uma formação inicial adequada (a grande maioria), tenderá a ser um professor mediano, aquele que só executa as políticas pedagógicas determinadas de cima para baixo por uma minoria de burocratas, na maioria das vezes, sem conhecimentos e competências necessários para a construção de uma proposta pedagógica democrática e significativa.
Por experiência própria, digo-lhes: a satisfação e a realização com a nossa profissão é proporcional a qualidade da nossa formação. Até o momento em que estive preso a ilusão de que por haver me formado em Filosofia, poderia ser professor, minhas experiências profissionais foram frustrantes.
Mas, quando despertei do sono dogmático e percebi minha ignorância (devido a minha formação descurada), minha relação com a profissão (e comigo mesmo) começou a mudar. Hoje, prezado professor, prezada professora, vivo o momento mais pleno e feliz da minha vida (profissional e pessoalmente falando), pois, há uns quatro anos, rompi com o medo e a ignorância e assumi meu próprio processo de formação permanente.
Se ainda tenho dificuldades para efetivar a educação dos meus sonhos, pelo menos desenvolvi (e continuo aprimorando) algumas competências crítico-reflexivas que me permitem compreender minha situação, avaliar minhas práticas e representações e apresentar soluções criativas quando as dificuldades cotidianas as exigirem.
***
 
A partir de hoje, toda quinta-feira, gostaria de compartilhar com vocês um pouco das informações e conhecimentos que venho construindo nesse meu processo de autoformação permanente. Quem sabe minhas experiências possam estimular outros professores e professoras a assumirem a condução do seu próprio percurso de formação.
A cada nova postagem, aprofundarei na página FORMAÇÃO (DES)CONTÍNUA algum conceito, tema ou problema citado nos textos publicados. Hoje, por exemplo, falo sobre a qualificação, a formação pedagógica e a formação ética e política. Entrem lá e confiram!  
Abração e até quinta!

Zebé Neto
filósofo, escritor e educador

 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Novo Cabeça Bemfeita


Há aproximadamente quatro anos, comecei a me dar conta de que o insucesso dos meus projetos (vitais e profissionais) era devido a inconsistência tanto da minha formação cultural geral quanto da minha formação específica (Licenciatura em Filosofia pela UFPE).
Depois de um período de turbulência e crise, comecei, autodidaticamente, a buscar os conhecimentos e saberes capazes de me tirar da situação de ignorância, medo e reduzida auto estima que até aquele momento impediam que o meu potencial crítico-criativo se desenvolvesse.

Edgard Morin, filósofo francês autor do livro
A cabeça bem-feita, inspiração para o blog
Nesse meu movimento de autoconstrução da identidade (ou seja, da autoeducação que venho me proporcionando), tive acesso, há mais ou menos um ano, a um livro do pensador francês Edgar Morin, chamado “A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento”. Remontando a Montaigne, Morin traz nesse pequeno livro, o conceito de “cabeça bem-feita”, que nada mais é do que uma “cabeça”, ou seja, um sujeito que é capaz de dispor de "uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas” e de “princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido.”(Morin, 2011, p. 21).

Fazia tempo que pensava em escrever um blog, mas sempre adiava a iniciativa, pois, ainda confuso, não sabia ao certo qual seria a linha editorial. A ideia da “cabeça bem-feita” me pareceu perfeita para batizar o projeto, pois era justamente essa competência geral para colocar e tratar problemas, bem como a busca de princípios organizadores que me permitissem ligar e dar sentido aos saberes, que procurava naquele momento.
Em fevereiro de 2012 nasceu o blog Cabeça Bemfeita com o objetivo de ser um espaço dialógico de reflexão, crítica e busca de sentido sobre algums conhecimentos que considero fundamentais para o exercício de uma existência cidadã no mundo contemporâneo: a filosofia, a arte, a ciência, a tecnologia e a comunicação.
Depois de cinco meses de experimentações, no último mês de julho, o blog fez uma parada para avaliação dessa minha primeira incursão na blogosfera. Acredito que os aspectos positivos superaram as inúmeras limitações e equívocos, tão comuns para quem ousa trilhar um caminho nunca antes percorrido.  
Além do aspecto visual, outras importantes mudanças marcam esse novo momento do blog. O presente texto tem o objetivo de apresentar a vocês a nova identidade do Cabeça Bemfeita. Espero que aprovem as mudanças!

1)      Nova formatação dos textos

A produção textual requer equilíbrio entre os propósitos e intenções de quem escreve com as características dos possíveis leitores. Tal qual uma criança que fica deslumbrada com seu novo brinquedinho, fiquei eu com o fato de ter encontrado um meio para exercitar a escrita (atividade que até então só havia praticado por obrigação, seja na educação básica ou no ensino superior). Instigado, saí escrevendo vorazmente e, quando percebia, os textos já estavam longos (ao menos para os padrões do mundo "virtual", na maioria das vezes, superficial e fragmentado).
Até a metade de 2011 acumulei sete anos de trabalho, ou melhor, emprego alienado e sei como as atividades rotineiras, burocráticas e reprodutivas que executamos tomam parte considerável do nosso tempo. Somando-se o tempo de dedicação à família e, às vezes,  a si próprio, não sobra muito tempo para o cidadão médio se dedicar a leitura.
Como o blog tem um declarado compromisso ético e político (ajudar outros sujeitos que, assim como eu, herdaram uma condição sócio-econômica-cultural desfavorável, a se libertar de todo tipo de alienação e a desvelar o discurso ideológico que mascara nossa real situação de oprimidos), escreverei textos mais concisos, pensando justamente naqueles/naquelas colegas que, presos à atividades alienantes, não têm tempo para se dedicar a leituras fora do seu campo de atuação profissional.
Sem prejuízo da crítica e da reflexão e sem ser menos profundo e rigoroso na abordagem dos diferentes temas de interesse do blog, a ideia é oferecer textos que levem em conta a falta de tempo que a maioria daqueles que desejo como meus leitores experimenta.


 2) Reestruturação das páginas

Da primeira experiência do blog, algumas páginas foram suprimidas, enquanto outras ganharam novos nomes e objetivos. Cada página equivale a uma área do conhecimento que considero fundamental para a realização dos meus projetos (individuais e coletivos). Eis as páginas:
FILOSOFAR = Na página filosofar, sem abrir mão dos temas e conceitos clássicos dentro da história da filosofia, darei maior ênfase à sua dimensão metodológica, ou seja, priorizarei a filosofia enquanto método de produção e crítica do conhecimento;
AISTHESIS = O que é arte, história e filosofia da arte, arte contemporânea e arte pernambucana, são os campos de interesse da página. Sempre apreciei muito a arte, mais nunca tive a oportunidade de me dedicar sistematicamente ao seu estudo. A página AISTHESIS pretende ser um espaço de discussão e reflexão sobre o universo artístico;
(CONS)CIÊNCIA E TECNOLOGIA = No mundo contemporâneo a ciência e a tecnologia exercem cada vez mais influência. Dominar conhecimentos básicos dessas duas áreas é fundamental para o exercício da cidadania. Nessa página, além de discutirmos o que são ciência e tecnologia, também refletiremos sobre as implicações éticas e políticas dos seus diferentes usos;
MÉDIA MÍDIA = A expressão “quarto poder” dimensiona bem a influência que a mídia exerce para além da dimensão estritamente comunicacional. Política, economia, religião, arte, esporte, comportamento, são alguns setores da cultura cujas concepções ideológicas e práticas efetivas são legitimadas pelos meios de comunicação de massa. Não podemos compreender a sociedade contemporânea sem uma análise crítica sobre a mídia. A página MÉDIA MÍDIA pretende ser uma espécie de “Observatório da Imprensa” do blog Cabeça Bemfeita;
Essas quatro páginas têm o objetivo de ser um espaço de investigação, aprofundamento e sistematização das informações e conhecimentos que for adquirindo sobre as áreas contempladas em cada página.
Como sou fruto da educação formal de péssima qualidade que a quase totalidade das instituições escolares, sejam elas públicas ou privadas, da educação básica ou superior, oferecem, não consegui construir uma base mais firme sobre os conhecimentos acima citados. O blog surgiu justamente para minimizar os efeitos nocivos que o sistema educacional brasileiro me legou.
Como as duas páginas a seguir têm um funcionamento bem particular, resolvi falar sobre elas separadamente.

3)      FORMAÇÃO (DES)CONTÍNUA 
Apesar dos temas e questões levantados pelo Cabeça interessarem a todo/toda aquele/aquela que se preocupa em rever crítica e reflexivamente suas práticas e representações (principalmente para quem trabalha com  pesquisa, seleção, análise, sistematização, produção e transmissão de informações e conhecimentos, nos diferentes códigos e linguagens), boa parte dos meus leitores é formada por professores. Pensando em você, amigo, professor, amiga, professora, retomarei a página FORMAÇÃO (DES)CONTÍNUA, nosso espaço de reflexão sobre pedagogia, filosofia e psicologia da educação, didática, ciências auxiliares da educação, além de questões atualmente em evidência no universo educacional.

Toda quinta publicarei um texto que, segundo meus critérios, poderá contribuir com o processo de formação permanente de boa parte dos meus pares que, sem tempo para estudar, permanecem vítimas da alienação (pois quem não estuda, não lê, e quem não lê, fica com uma consciência limitada, tanto sobre o mundo, quanto sobre si mesmo/mesma) e da dicotomia entre teoria e prática, tão comum entre os que trabalham com educação.

4)      CLÁSSICOS DA VEZ

Essa é outra página da primeira fase do blog que ficou só na intenção. No primeiro semestre desse ano voltei a lecionar depois de um afastamento involuntário devido a falta de habilidade dos espaços onde até então trabalhava em conviver com um professor reflexivo. Fui, inclusive, acusado por uma tradicional escola recifense, tal qual um Sócrates contemporâneo, de corromper a juventude, ou melhor, de "promover uma guerra virtual" (afinal, estamos no século XXI e não na Grécia Antiga!)contra o estabelecimento citado, o que, obviamente, não aconteceu. 
Quase na mesma época do nascimento do Cabeça Bemfeita, o Instituto Helena Lubienska abriu suas portas para mim. Era (está sendo) a oportunidade que estava esperando para começar a colocar em prática as competências para ensinar no século XXI (Perrenoud, 2001) que venho buscando construir, principalmente nos dois últimos anos.
A carga de trabalho ficou bem intensa, pois não é tarefa das mais simples construir um método autoral de ensino e aprendizagem, incluindo material didático físico e virtual (blog), fundamentado na interdisciplinaridade, no desenvolvimento de competências e habilidades reflexivas, na solução de situações-problema, na educação estética (com foco na arte pernambucana) e na abertura para os temas sociais (temas transversais). 
Quem não pertence as classes privilegiadas sabe o quanto é difícil mergulhar no universo da arte, da ciência, da filosofia, enfim, no mundo da cultura, quando se tem que batalhar diariamente apenas para (mal) satisfazer as necessidades do corpo (moradia, alimentação, transporte), já que a remuneração média do professor não permite que ele satisfaça suas necessidades simbólicas, como se dedicar as artes, as ciências e a filosofia.
Como minha preocupação no momento tem sido mais pragmática, pois não é fácil sustentar os dois seres responsáveis pelo sentido da minha existência, meus filhos Caio e Ravi, confesso que tenho utilizado meu escasso tempo “livre” para fazer leituras e escrever textos que, de uma forma ou de outra, têm o objetivo, além da formação do meu espírito, de me ajudar na superação de minha situação material imediata, o que tem deixado um pouco de lado a fruição de obras de arte.
No entanto, como não posso abrir mão da minha educação estética, pensei na seguinte solução: mensalmente fruir uma obra literária, um disco, uma história em quadrinhos e um filme (se possível, todas essas linguagens, se não, pelos duas), considerados clássicos pela crítica especializada, e compartilhar, também mensalmente, com vocês minhas impressões.

5)      CABEÇA BEMFEITA TV e RÁDIO CABEÇA

Na primeira fase do blog o audiovisual deixou muito a desejar, mais pela falta de domínio (na verdade, de tempo para aprender) da tecnologia do que uma opção deliberada.  Aproveito essa volta do Cabeça para começar a investir na abertura para a crítica e a reflexão feita por autores que usam o som e a imagem como meios de expressão.  A Cabeça Bemfeita TV e a Rádio Cabeça surgiram para minimizar a carência sentida na primeira experiência do blog.

Com relação a Cabeça Bemfeita TV, por enquanto, a programação que irá ao ar será feita automaticamente pelo youtube a partir de palavras-chave sugeridas por mim. A ideia é que em breve, assim que viabilizar os recursos tecnológicos e mergulhar mais na linguagem do audiovisual, o blog tenha na sua grade de programação produções próprias.   Dando início a programação, sugeri os conceitos norteadores do blog, filosofia, arte, tecnologia e comunicação.

Já a Rádio Cabeça surgiu para compartilhar com vocês o som que vem fazendo minha cabeça há mais de 20 anos. A ideia era abrir espaço só para o áudio, mas, pela minha limitação técnica, a saída foi postar as músicas através da tecnologia do vídeo. Aqui também a seleção específia das músicas será feita pelo youtube a partir das bandas ou cantores/cantoras sugeridas por mim. A seleção é bem diversificada e representativa das diferentes identidades musicais pelas quais passei até o presente momento.

Apesar da heterogeneidade (não se surpreendam em ouvir por aqui o jazz-rap do The Roots os experimentalismos sonoros de Hermeto Pascoal) de estilos com os quais me identifico, há uma característica que liga os artistas que serão destacados: todos, de uma forma ou de outra, demonstram uma postura crítica e reflexiva.

E para começar, duas bandas que me mostraram, quando eu tinha 12 anos, que a música pode ser um espaço de reflexão política, Plebe Rude e Public Enemy. Fechando a programação dessa primeira experiência da Rádio Cabeça, dois músicos que me indicaram novas possibilidades de estruturas sonoras, Frank Zappa e Hermeto Pascoal.  Espero que vocês curtam!


6)      Periodicidade das postagens

Até por ser uma atividade experimental, na primeira fase do blog não havia um intervalo fixo entre uma postagem e outra. Agora, visando sistematizar e organizar melhor meus estudos e reflexões, e também orientar a leitura dos seguidores e visitantes fortuitos, os textos terão a seguinte periodicidade:
a)      Todo domingo publicarei alguma coisa que, direta ou indiretamente, terá alguma relação com as áreas do conhecimento contempladas nas páginas FILOSOFAR, AISTHESIS, (CONS)CIÊNCIA E TECNOLOGIA e MÉDIA MÍDIA. Tanto posso publicar um ensaio, uma resenha crítica, um resumo de alguma obra, ou mesmo alguma dica cultural, como sites, livros, músicas, enfim, a ideia é ficar compartilhando com vocês um pouco do que for vivenciando nesse meu processo de construção de uma cabeça bem-feita;

Observações:

1)      Os problemas e conceitos específicos das áreas do conhecimento que forem citados nas postagens serão aprofundados nas respectivas páginas;

2)      O texto inaugural das publicações dos domingo será postado no dia 26/08/12 e fará alguma referência à filosofia e ao filosofar. Nos domingos subsequentes, arte (02/09), ciência e tecnologia (09/09) e comunicação (16/09), se sucederão como objetos de análise crítica das postagens e páginas do blog.

b)      Às quintas, começando no próximo dia 23/08, publicarei um novo texto (ou alguma dica cultural)  especificamente para os professores (principalmente aqueles e aquelas que não tiveram uma formação inicial adequada e nem dispõem de programas eficazes de formação continuada) que acompanham o blog poderem refletir sobre suas práticas e representações;

c)      Mensalmente, na página CLÁSSICOS DA VEZ, um texto trará minhas impressões sobre algumas obras fundamentais (sempre dentro das linguagens  que me sensibilizam mais profundamente, a música, a literatura, as histórias em quadrinhos e o cinema) para a formação do espírito humano. A partir da publicação do próximo dia 23/08, terei aproximadamente um mês para curtir as obras escolhidas e escrever sobre elas. Até lá! 

É isso aí, galera, o Cabeça está de volta e mais do que nunca conta com a sua participação para se consolidar como um espaço de reflexão e crítica da cultura, oferecendo uma alternativa de discussão e formação permanente para todo/toda livre pensador/pensadora que deseja, não acumular ou empilhar saberes, mas construir uma cabeça bem-feita.

Obrigado por dedicar seu precioso tempo para dialogar comigo!!! Um forte abraço e até quinta que vem!

Zebé Neto
filósofo, escritor e educador

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A douta ignorância (ou em defesa das posturas crítica e reflexiva)

Olá, amigos e amigas que acompanham o Cabeça Bemfeita, tudo bem?

         O texto A douta ignorância (ou em defesa das posturas crítica e reflexiva) foi publicado originalmente no último dia 04. Porém, para tornar minhas ideias e posturas mais claras, fiz várias intervenções até o dia de hoje. Como acredito ter chegado a um resultado satisfatório (ainda com possíveis erros e inadequações que, provavelmente, perceberei depois), decidi excluir a postagem anterior e publicar hoje a versão definitiva.
         Abaixo vocês encontrarão meu pensamento (na verdade, um esboço inicial ao qual cheguei depois que comecei a tentar compreender minha práxis pedagógica) sobre a realidade da educação privada de Pernambuco. Aproveito a oportunidade também para fazer um manifesto em defesa das posturas crítica e reflexiva, não só na prática docente mais também em qualquer atividade que de alguma forma esteja relacionada a pesquisa, seleção, organização, gestão e produção de informção, comunicação e conhecimento.
         Com essa publicação encerro uma fase importante do meu processo de formação permanente: saio das reflexões solitárias para a busca de um pensar coletivo. Aproveito para plantar, através da criticidade e reflexibilidade, a semente daquilo que os especialistas vem chamando de "comunidade aprendente". 
       
         Ah, se você ainda não é um / uma seguidor / seguidora do Cabeça, gostaria muito que você se identificasse, se tornando um seguidor / seguidora e/ou deixando um comentário (se possível, claro!). É que gostaria de saber com quem estou dialogando. Desde já, obrigado por acolher (ou negar) minhas ideias. Fiquem então com:

A douta ignorância (ou em defesa das posturas crítica e reflexiva)



"O Homem será tanto mais douto quanto mais ignorante se souber."
(Nicolau de Cusa)

"O diálogo supõe para que realmente ocorra uma atitude de abertura, uma relação de reciprocidade, de amizade e receptividade que basicamnte só poderá ocorrer se houver antes uma intenção em conhecer o outro."
(Ivani Fazenda)

"O homem, por não estar só no mundo, por possuir uma necessidade essencial de se comunicar, de se relacionar, tem na palavra sua condição primeira de encontro com o outro"
(Ivani Fazenda)  



Prezado leitor, prezada leitora, meu notebook me deixou na mão. O que vocês lerão aqui é uma tentativa de reconstrução de um texto que estava trabalhando há aproximadamente vinte dias, mas que agora, na rapidez típica do mundo virtual, desapareceu num piscar de olhos na manhã da última terça, dia 04. Pocuro sempre fazer backup dos meus documentos, mas, dessa vez, "vacilei" com os arquivos mais recentes. Tal fato, contudo, ao invés de me paralisar, será aproveitado para reforçar minha defesa das posturas crítica e reflexiva.
Como o que pretendo dizer tem uma implicação ética e política, estava tendo todo o cuidado para escrever aquele que seria o texto mais importante da minha vida. Procurei escolher as palavras certas, organizar meticulosamente as ideias, encadear de forma coerente e coesa os parágrafos, citei várias autoridades para corroborar minhas ideias, enfim, procurei apresentar de forma clara e objetiva minhas ideias e posicionamentos, e eis que me vejo agora obrigado a escrever tudo (ao menos a maior parte) no menor intervalo de tempo possível, porque tenho uma certa urgência em iniciar um diálogo crítico e reflexivo com vocês, fiéis seguidores e seguidoras do Cabeça e leitores e leitoras fortuitos.
Bem, vamos lá, sigamos em frente, já que é sobre dificuldades, erros, medos e, principalmente, superação que quero falar.
Nicolau de Cusa, cardeal e filósofo alemão, desenvolveu no século XV o conceito de douta ignorância por acreditar que ele encerra uma importante dimensão pedagógica, revelada na importância dada pelo filósofo ao não-saber. “Para ele, a busca pelo conhecimento está inteiramente alicerçada na ciência que o homem alcança de sua própria ignorância. É o saber de seu não-saber que permite que o ser humano construa, de forma progressiva, o conhecimento.” (Guendelman, 2009)
Pensadores contemporâneos, como o filósofo e poeta francês Gaston Bachelard (1884-19620), por exemplo, retomam a positividade dos erros na construção do saber científico e no processo de aprendizagem. O não-saber e o erro são considerados, portanto, elementos constitutivos do aprender.
Resolvi chamar o texto de A douta ignorância (ou em defesa da postura crítico-reflexiva), pois, assim como Nicolau de Cusa, acredito que a consciência das próprias limitações, fragilidades, lacunas, enfim, a consciência da nossa “ignorância”, é o motor que nos impele a buscar o conhecimento, superando, assim, nossa condição sócio-histórica, que, no caso do professor, tem sido de desvalorização, desrespeito e alienação.
Com o presente texto, pretendo iniciar um debate franco, sincero, ético e fraterno, onde o objetivo não é apontar falhas, erros e limitações de quem quer que seja (até, porque, a pessoa mais limitada que conheço sou eu mesmo), ou apresentar “culpados” pelo fracasso da maioria dos projetos pedagógicos. Na verdade, meu objetivo é defender que somos todos, que trabalhamos com educação, vítimas de um sistema educacional que apenas reproduz os valores morais, políticos e estéticos do projeto de sociedade hegemônico, fundamentado na alienação, no individualismo, na superficialidade, no descartável e na ideologia do consumo e do mercado.
No entanto, acredito que, com base na perspectiva pedagógica crítico-emancipatória (a qual reflete cientificamente sobre a educação e propõem modos de uma ação emancipatória), somos responsáveis, enquanto intelectuais transformadores, em apontar possibilidades de enfrentamento da persistente crise do sistema educacional.
Dividirei o texto em três partes: na primeira, argumento que na rede privada de Pernambuco prevalece o que os estudiosos chamam “espontaneísmo” na educação. Essa primeira parte funciona também como uma espécie de epílogo para a série de textos que me propus a escrever sobre a identidade do professor; depois, apresento o conceito de professor reflexivo, como chamam Alarcão e Perrenoud, ou professor como intelectual transformador, como prefere Giroux; finalizo, deixando um convite para a construção de comunidades aprendentes nos diferentes espaços onde estabeleço, com outros sujeitos, relações éticas e políticas, como alternativa para superarmos, coletivamente, os impasses e dificuldades que enfrentamos em nossas escolas.



O “espontaneísmo” nas práticas e representações docentes



No texto de apresentação do blog mencionei uma reportagem da revista NOVA ESCOLA (Dez/2008) que falava sobre o “discurso vazio” bastante comum no meio educacional. Segundo a reportagem, a não equalização entre teoria e prática presente nas falas dos professores evidenciaria:

“a fragilidade dos referenciais teóricos que sustentam as ideias dos profissionais. Essa realidade, segundo os especialistas citados na reportagem, revelaria a precariedade da formação dos educadores que por não conseguirem se aprimorar, acabam fazendo um trabalho intuitivo e equivocado. Além disso, é muito comum os professores usarem expressões consagradas no meio educacional [...] sem refletir sobre elas nem compreender em que se baseiam. Ainda segundo a matéria, uma parte considerável dos professores que afirmam defender essa ou aquela teoria demonstra dificuldade quando precisa justificar suas escolhas.”

Ora, como sabemos, qualquer atividade pedagógica que se queira intencional, deliberada, deve ter o esclarecimento prévio sobre os pressupostos teóricos (concepções sobre o ser humano e sobre a sociedade, sobre os valores morais, políticos e estéticos e sobre o conhecimento) que orientam a ação. "No entanto, é comum observarmos o 'espontaneísmo', resultado da indevida dicotomia entre teoria e prática, porque o professor não foi devidamente informado a respeito da teoria ou porque não sabe como integrá-la à prática efetiva" (Aranha, 2006, p. 33) 
A reportagem citada me marcou muito, pois em plena crise profissional (na verdade, uma interface de uma crise existencial mais profunda), pude ver mais claramente a razão das minhas experiências pouco significativas: eu era um típico representante do “espontaneísmo”, pois minhas escolhas pedagógicas (métodos, recursos didáticos e paradidáticos, recursos multimídia, atividades, concepção de avaliação, etc.) eram intuitivas, feitas aleatoriamente, ou melhor, seguindo o senso comum. Foi muito difícil para mim, que havia feito Filosofia, reconhecer que não possuía um corpo teórico, orgânico e sistemático, que orientasse minhas experiências profissionais (e vitais) intencionalmente.
Infelizmente, analisando minha própria experiência, as observações diretas das práticas dos meus colegas em oito anos no meio educacional pernambucano, e pelas pesquisas que venho realizando, acredito que a maioria dos professores (e, provavelmente, também coordenadores e diretores) da rede privada de ensino (falo da escola particular porque essa é a minha realidade, mas, no ensino público, não deve ser diferente) desempenha suas atividades sem ter uma noção muita clara sobre os pressupostos filosóficos e pedagógicos que fundamentam suas escolhas categorias e axiológicas, revelando propostas "espontaneístas".
Não devem ser poucos os professores e instituições de ensino que executam seus trabalhos sem nunca terem feito uma leitura crítica sobre a legislação educacional vigente ou mesmo sobre o que diz a produção científica sobre educação e áreas afins.
Por favor, não pensem que ao dizer isso, eu mesmo já tenha conseguido equalizar meus referenciais teóricos com minhas práticas efetivas. Longe disso. Se me permitem uma referência ao Mito da Caverna, de Platão, digamos que eu apenas rompi (acho eu) com os grilhões (sentimentos, crenças, opiniões, valores e atitudes) que me mantiveram preso no fundo da caverna durante quase toda minha existência. Começo agora a escalada do muro que me separa do mundo real, verdadeiro, bom e belo. Mas, diferentemente do prisioneiro-filósofo de Platão, não esperarei até sair da caverna e contemplar o mundo real para poder retornar e alertar os outros prisioneiros que estamos todos presos às “verdades” veiculadas pelas diferentes instituições sociais.
Sei que encontrarei muitas resistências, pois muitos talvez não tenham desenvolvido a humildade intelectual para reconhecer suas próprias fragilidades e limitações, ficando presos às suas “verdades” dogmaticamente aceitas. Outros talvez digam que estou, como se diz por aí,“me achando”. Talvez alguns prefiram se manter no isolamento, evitando o diálogo, para que ninguém perceba suas limitações...
Para essas pessoas, apenas digo que foi justamente a percepção de minha própria ignorância que me deu força para superar minhas limitações, frustações e medos. Vejam vocês: se não tivesse assumido minhas incoerências, erros e fragilidades (que, aliás, ainda se fazem presentes), não teria desenvolvido algumas (poucas) habilidades que estão me permitindo timidamente começar a exercer, de fato, minha cidadania.
Entre as competências necessárias para o exercício efetivo da cidadania na sociedade contemporânea, está a capacidade de utilizar a informação eficazmente, fazendo emergir problemas relacionados ao acesso, avaliação e gestão das informações, além da organização e ativação dos conhecimentos. Estes processos pressupõe a capacidade para lidar tanto com a informação quanto com os meios que a fazem circular (Alarcão, 2009)
É a essa capacidade que agora recorro para defender a identidade que, por sua vez, tem me permitido utilizar mais eficazmente a informação, transformando-a, como diz Morin, em “conhecimento pertinente” (aquele “que é capaz de situar qualquer informação em seu contexto”): a do professor reflexivo ou intelectual transformador.


O professor reflexivo ou professor como intelectual transformador


Como diz Aranha, apesar de algumas críticas (eventual descuido do saber escolar, falta de rigor, “resumo da teoria”, etc.), o movimento de defesa do educador reflexivo tem se mostrado forte. Infelizmente, por enquanto, só tenho observado essa força nos meios acadêmicos e nos documentos oficiais do MEC. Na minha realidade imediata, aqui no Recife, ainda não os encontrei, muito provavelmente pelo isolamento ao qual a maioria de nós está submetida, ficando praticamente impossível conhecer as experiências dos nossos colegas.
O educador intelectual transformador “deve estar atento à intencionalidade de sua ação, questionando seu saber e agir, articulando o conhecimento sobre educação com sua práxis educativa, com flexibilidade para inventar caminhos quando a situação concreta exige soluções criativas”. (Aranha, 2008, p. 47). É o que aconteceu comigo: perdi um texto, para mim o mais importante que escrevi, no tocante à minha identidade coletiva, e, imediatamente, em função de uma situação concreta, tive que "inventar caminhos", ou seja, mobilizar recursos (saberes, informações, conhecimentos, procedimentos de leitura e escrita, administrar o tempo, articulando a produção intelectual com outras atividades de um cidadão normal, como cuidar dos meus "filhotes", Caio e Ravi) para dar uma solução criativa (um outro texto) para meu problema (perda dos arquivos recentes).
Para além do especialista em alguma área do conhecimento, o professor intelectual é o sujeito capaz de ter uma visão do todo e de estar comprometido com a ética e a política. Segundo Isabel Alarcão, doutora em Educação e membro do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), da Universidade de Aveiro, em Portugal, o desenvolvimento acelerado de múltiplas fontes de informações exige reestruturações na relação que o professor mantém com o saber disponível e com os diferentes usos aos quais se destina.
Para Alarcão, a noção de professor reflexivo fundamenta-se:


“na consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como criativo e não como mero reprodutor de ideias e práticas que lhe são exteriores. É central, nesta conceptualização, a noção do profissional como uma pessoa que, nas situações profissionais, tantas vezes incertas imprevistas, atua de forma inteligente e flexível, situada e reativa.” (Alarcão, 2010, p. 44).
Outro pensador que aponta a necessidade de se repensar e reestruturar a natureza da docência é Henry Giroux. Segundo o educador norte-americano, a categoria do professor como intelectual transformador é útil por: 1) oferecer "uma base teórica para examinar-se a atividade docente como forma de trabalho intelectual, em contraste com sua definição em termos puramente instrumentais ou técnicos"; 2) esclarecer as condições ideológicas e práticas necessárias para os professores transformarem-se em intelectuais, e 3) ajudar a esclarecer "o papel que os professores desempenham na produção e legitimação de interesses políticos, econômicos e sociais variados através das pedagogias por eles endossadas e utilizadas." (Giroux, 1997, p. 161).
Tenho consciência, prezado leitor, prezada leitora, de que estou apenas no início de meus estudos sobre a identidade do professor reflexivo ou intelectual transformador. No entanto, o pouco que consegui construir até aqui, principalmente através de um diálogo que venho mantendo principalmente com Alarcão, Giroux e Perrenoud (sociólogo e antropólogo suíço), já me dá confiança para vencer o medo e sair em busca de parceiros e parceiras que queiram se rever e se ressignificar (na profissão e na vida) através do desenvolvimento da criticidade e da reflexibildade.



Em defesa das postura crítica e reflexiva


Segundo Marilena Chauí, "a palavra crítica vem do grego e possui três sentidos principais: 1) capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente; 2) exame ricional de todas as coisas sem preconceito e pré-julgamento; atividade de examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um comportamento, um obra artística ou científica." (Chauí, 2003, p. 18)
Por sua vez, "reflexão", do latim reflectere, significa "retroceder", "voltar atrás", num sentido filosófico significa o movimento pelo qual o pensamento volta-si sobre mesmo "para examinar, compreender e avaliar suas ideias, suas vontades, seus desejos e sentimentos" (idem, 2003, p. 20)
Desde o momento em que encarei de frente a fragilidade dos meus referenciais teóricos e a inconsistência dos meus saberes práticos, venho, gradativamente, fortalecendo a criticidade e a reflexibilidade como instrumentos de transformação da minha realidade. Venho obtendo ótimos resultados, a ponto de poder afirmar que, nos últimos dois anos, quando passei a conhecer melhor a identidade do professor reflexivo, minhas experiências cognitivas, afetivas, éticas, políticas e estéticas foram mais  significativas do que nas duas últimas décadas.
Quero sair do isolamento e buscar parceiros e parceiras que, assim como eu, "só sabem que nada sabem" (só pra lembrar o velho Sócrates, pioneiro em transformar a ignorância em motor da busca do conhecimento). Ivani Fazenda (2009), uma das maiores especialistas em interdisciplinaridade no Brasil, diz que a solidão é a marca mais comum no trabalho do professor "bem-sucedido". Prezado leitor, prezada leitora, posso ainda não ser um professor “bem-sucedido”, mas há muito que percebo minha solidão.
Como quero fazer bem feito a atividade que escolhi, ser filósofo da educação, durante os últimos três anos venho refletindo sobre o processo pedagógico em geral e sobre minha prática em particular.   Saio agora do isolamento para procurar outros pensadores para compartilhar minhas experiências pessoais-profissionais (mais falhas do que exitosas) e ouvir as dos / das colegas em comunidades dialógicas, críticas e reflexivas, visando oferecer alternativas para o paradigma educacional forjado no século XIX e ainda hoje hegemônico.   
Aqui no blog já venho ensaiando, com vocês, uma postura dialógica (ainda que não tenha recebido o retorno crítico como gostaria!). A partir de agora, procurarei levar as  posturas crítica e reflexiva para outros espaços de vivência.
Espero não ser mal compreendido por apenas estar (ainda que um tanto romântica e ingenuamente) tentando ser coerente com a área do conhecimento a qual resolvi me dedicar: a Filosofia, área do saber que busca a fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas humanas, estabelecendo as condições e os princípios do conhecimento que se queira racional e verdadeiro. Apenas estou colocando as competências e habilidades que a Filosofia tem me proporcionado para fundamentar melhor meus conhecimentos teóricos (conceitos, ideias, valores) e práticos (métodos, atitudes, comportamentos, procedimentos) sobre a educação, área que escolhi como objeto de minhas reflexões filosóficas.
No entanto, como "ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si" (Freire, 2011), quero levar minhas ideias e práticas para a apreciação e crítica públicas. Mesmo sabendo que muitos poderão me ignorar (o que, de certa forma já configura um posicionamento), vou batalhar para resgatar uma tradição grega: a Ágora (praça pública) como espaço onde os atenienses se reuniam para discutir e deliberar sobre assuntos ligados à administração da pólis, tais como, a justiça, obras públicas, leis, cultura, etc. Vou sugerir aos que comigo con-vivem, transformarmos  nossos espaços de vivência em verdadeiras "Ágoras" (no meu  caso, o ciberespaço, como Ágora eletrônica, meu lar, o Instituto Helena Lubienska e o Sindicato da Professores de Pernambuco) para, em comunidades aprendentes, justificarmos, discutirmos e deliberarmos sobre nossas escolhas éticas, políticas, estéticas e epistemológicas.
Como forma de efetivar nossos espaços de diálogo, sugiro que nos inspiremos no conceito de escola reflexiva, conforme propõe Isabel Alarcão, como uma "organização (escolar) que continuadamente se pensa a si própria, na sua missão social e na sua organização, e se confronta com o desenrolar da sua atividade em um processo heurístico simultaneamente avaliativo e formativo.” (Alarcão, 2001, p. 25)
Em desenvolvimento e aprendizagem ao longo do tempo, a escola reflexiva “é criada pelo pensamento e pela prática reflexivos que acompanham o desejo de compreender a razão de ser da sua existência, as características da sua identidade própria, os constrangimentos que a afetam e as potencialidades que detém”, completa a educadora portuguesa. (idem, ibidem, p. 26).
Tenho consciência que estou entrando num terreno espinhoso, incerto e imprevisível. Não sei onde tudo isso vai dar, mas não aguento mais ser um mero reprodutor de ideias e práticas exteriores a mim. 
Por enquanto, é isso. Aqui no Cabeça Bemfeita o diálogo crítico e reflexivo continua em agosto, depois de uma breve parada para uma análise crítica da proposta. Também até o início de agosto, paulatinamente, vou me aproximar de algumas pessoas consideradas por mim referências éticas e políticas dos espaços onde possuo vínculos, dando início ao meu ativismo em defesa da construção de "organizações aprendentes".
Um forte abraço e até breve!

Zebé Neto
filósofo, escritor e educador



ALARCÃO, Isabel (Org). Escola Reflexiva e nova racionalidade. Porto Alegre: Artmed, 2001.
ALARCÃO, Isabel. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. 7 ed. São Paulo: Cortez, 2010.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da educação. 3 ed. São Paulo: Moderna, 2006.
FAZENDA, Ivani C. Arantes. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 16 ed. Campinas: Papirus, 2009)
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50 ed. rev. e atual. Rio de Janeiro paz e Terra, 2011)
GUENDELMAN, Constanza Kaliks. O conceito de douta ignorância de Nicolau de Cusa em uma perspectiva pedagógica. Dissertação de Mestrado (USP). São Paulo, 2009. http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-08122009-142805/pt-br.php
PERRENOUD, P. As competências para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2001.
GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 1997.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Já estávamos "parados", comecemos a trabalhar

        
          Segundo José Auri Cunha, o filósofo grego Platão, na obra A República, estabelece um currículo de educação para o filosofar, cujo objetivo era “propiciar o desenvolvimento do cidadão e da pessoa humana para que adquirisse quatro grandes virtudes, sustentáculo de todas as outras [...]: a sabedoria, a justiça, a coragem e a moderação” (Cunha, 2008, p. 73). Gostaria de começar minhas reflexões sobre a greve que os professores da rede particular fizeram essa semana  falando sobre a coragem. Essa virtude significa “conhecer o que deve realmente ser temido, vencendo o medo fantasioso. Significa também ousadia na busca do que se acredita ser justo. Às vezes, é preciso ter coragem para mudar uma regra injusta, mesmo correndo o risco de ter que se submeter a sacrifícios.” (Cunha, 2008, p. 73-74)
          Mais uma vez, presenciamos a demonstração de coragem dos professores e professoras da rede privada de Pernambuco em enfrentar a sempre presente ameaça de demissão para quem ousa romper com uma regra injusta (a da baixa remuneração da atividade docente), em busca do que acredita ser justo, optando por paralisar as atividades laborais. 
          Em uma Assembleia realizada na sede do Sinpro na última quarta, dia 06 (da qual não cheguei a participar, já que tive que sair de lá às pressas para socorrer minha mãe que machucara a coluna) os professores resolveram aceitar um acordo segundo o qual ficou definido que o valor do piso no Nível I (Educação infantil e Fundamental I) passará de R$ 5,00 para R$ 6,00 a hora aula e o Nível II (Fundamental II e Ensino Médio) de R$ 6,4 para R$ 7,04, enquanto quem ganha acima do piso, receberá um reajuste foi de 7%. Era o fim de mais uma greve. A questão que agora se coloca é a seguinte: os professores terão coragem de na volta às aulas procurarem seus coordenadores e diretores para refletirem sobre os pressupostos filosóficos e pedagógicos que fundamentam suas práticas escolares? Será  que os professores farão perguntas do tipo: “Qual a qualidade do aprendizado? O que estão aprendendo? O que tem garantido a permanência das crianças na escola? Como se dão as relações entre os atores?” (Ensino Fundamental de nove anos: orientações gerais)
            Voltemos à greve. A virtude da “coragem” que sobrou aos professores para paralisarem as atividades faltou em mim. Não para entrar em greve, pois aderi ao movimento. Não tive coragem foi para defender para o grande público, na assembleia realizada no dia 04, minha posição contrária à greve. Calma (falsos) “radicais”, não pensem que considerei a proposta vantajosa, pois para mim são migalhas o que nos oferecem anualmente,  ou que “amarelei” depois de ter sido demitido de duas “grandes” escolas aqui do Recife.  Muito pelo contrário: nessa campanha estou radicalizando (“radicalizar” no sentido da reflexão filosófica, que vai até as raízes dos problemas) cada vez mais minha posição. Simplesmente me posicionei de acordo com as perspectivas teóricas e práticas que venho assumindo.
          Infelizmente, como sou fruto dessa educação de péssima qualidade (gestada no século XIX e que ainda hoje reproduzimos), não tive professores que preparassem os educandos para a aquisição de habilidades fundamentais para o exercício da cidadania, como utilizar competentemente a palavra em grandes públicos (geralmente exigimos apresentações para nossos estudantes, mas nem sempre trabalhamos com eles quais são os procedimentos linguísticos utilizados em gêneros textuais orais, como o seminário, por exemplo).     
          Bem, se ainda não superei certos medos e limitações que trago como herança da minha formação inicial (básica e universitária) descurada, pelo menos consegui superar outras lacunas que me mantiveram preso à uma existência alienada e pouco significativa durante quase toda minha vida. Falo de outras dimensões da inteligência comunicacional que venho construindo: a leitura crítica e a escrita. Pois bem, são elas que a partir de agora utilizo para explicar-lhes o porquê do meu posicionamento contrário à greve.
          Já participei de três, ou quatro movimentos grevistas. Ainda que em tais situações tenha aderido à greve (devido a uma sincera utopia e um idealismo ingênuo), já desconfiava que “parar” não condizia com o processo de educar, algo para mim que sempre se confundiu com a criação, a produção de conhecimentos e atitudes para um mundo mais justo. Sempre me pareceu incoerente com a nossa profissão a ideia de “parar”. Até o termo “cruzar os braços” dá a ideia de trabalho braçal, típico dos operários das fábricas que utilizam mais habilidades mecânicas (o que inclui o trabalho braçal) do que intelectuais. Foi nas fábricas e indústrias, inclusive, onde surgiu a greve como instrumento de luta. Como defendi no texto Trabalho ou emprego? A atividade alienada (alienante) o professor a maioria dos docentes da rede privada executa uma atividade alienada, sendo meros “empregados”, simples executores de uma atividade rotineira, fragmentada e descontextualizada. Se o trabalho, no sentido filosófico, é a ação transformadora da realidade dirigida por finalidades conscientes e deliberadas, visando a satisfação das necessidades materiais e simbólicas, e, como a maioria de nós reproduz ao invés de criar, sou levado a concluir que boa parte dos que suspenderam suas atividades já estava “parada” antes mesmo da greve começar, pois não estavam criando, nem transformando a realidade dada, portanto, não estavam trabalhando.
           Em segundo lugar, ainda que a greve seja um instrumento legítimo de luta, acredito que deva ser utilizado só quando o diálogo se esgotar, e, segundo minha visão, o diálogo nem sequer foi instaurado, pelo menos não no sentido filosófico. Ainda estamos discutindo com base no senso comum, tanto nós, professores, quanto os donos das escola. Para haver de fato um diálogo filosófico precisamos superar o discurso fragmentário, ametódico e assistemático que normalmente pauta as falas dos indivíduos e instituições, visando a construção coletiva de um corpo de ideias que represente a vião dos educadores com relação à sociedade em geral e da educação em particular. Como ainda não possuímos uma ideologia reflexiva e sistematicamente construída (no sentido de conjunto de ideias, sentimentos, convicções, valores, normas e regras que oriente nossas ações, individual e coletivamente), não esgotamos, melhor dizendo, nem começamos o diálogo, portanto, a greve não me parecia ser a opção mais eficaz.   
           Em terceiro lugar, fui contrário à greve porque, por mais paradoxal que possa parecer, ela fortalece muito mais a classe patronal do que a nós mesmos. Acompanhem: todos sabemos que, por mais que digamos que algumas cláusulas são sociais e outras econômicas, todas repercutem na dimensão financeira, pois no sistema capitalista tudo tem seu valor (de mercado, óbvio). Não podemos esquecer que as escolas particulares são instituições híbridas, são empresas e escolas ao mesmo tempo (na quase totalidade dos casos com predominância das primeiras, e, em pouquíssimos, com equilíbrio entre as duas identidades). O foco, portanto, centra-se na clássica oposição maniqueísta entre os proprietários dos meios de produção (donos de escola) e os detentores da força de trabalho (professores). Como o “econômico” monopoliza as atenções, o problema central da desvalorização e aviltamento do professor fica de fora dos holofotes: a educação de péssima qualidade que a maioria das escolas oferece. Se revelássemos para a sociedade que o quê ela compra como ensino de qualidade na verdade não passa de uma educação de massa, normatizadora, alienante e alienada, que trabalha de forma fragmentária, ametódica e assistemática, favorecendo, assim, a reprodução dos valores hegemônicos, entre eles o individualismo, o consumismo e a intolerância, teríamos muito mais avanços no resgate de nossa valorização e dignidade.  
           Por último, e não menos importante, fui contrário à greve porque nossas práticas, individuais (professores) e coletivas (sindicato), são o exemplo clássico da dicotomia entre teoria e prática que prevalece entre nós. Geralmente agimos sem termos uma noção muito clara sobre as teorias que, consciente ou inconscientemente, fundamentam nossas práticas. O exemplo disso é a tática que escolhemos para exercermos o direito à greve. Será que piquetes e carros de som são as únicas maneiras de se exercer a greve? Não existem teóricos que pensaram a greve como instrumento de luta e que poderiam nos ajudar? Em uma breve pesquisa na internet, descobri que a greve de braços cruzados é apenas uma entre outras formas de greve. Não provocaríamos um impacto maior se, ao entrarmos de greve ao invés de deixarmos de ir pras escolas, fôssemos para nossas salas de aula munidos de um currículo alternativo preparado pelo Sinpro abordando questões sociais, éticas, políticas e pedagógicas? Para mim, seria muito mais efeciente se aproveitássemos a greve para suspendermos nossas atividades alienadas e convidar coordenadores e diretores para discutirmos com nossos estudantes e famílias qual é a qualidade da educação oferecida pelos espaços aos quais estamos vinculados. Ao invés de deixarmos de irmos para a sala de aula, deveríamos ir discutir nas próprias escolas o que sentimos e o que pensamos sobre educação, propondo alternativas para os impasses que todos nós enfrentamos.  
         Na verdade, a questão, prezado, leitor,´prezada, leitora, não é ser "a favor" ou "contra" a greve aprioristicamente, mas considerá-la a partir de uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto, levando sempre em consideração os determinantes histórico-sociais que condicionam, em última instância, a maior ou menor eficiência desse recurso de luta política. E na atual conjuntura, da sociedade pós-industrial, ou era da informação, da comunicação e do conhecimento, não vejo a greve como o instrumento mais inteligente (pelo menos para nós, professores) para avançarmos na conquista de nossa emancipação.  É urgente, portanto, contruírmos novas formas de luta. 
         É isso pessoal, sei que todo projeto de mudança é difícil, mas não dá mais para ficarmos presos ao velho discurso da lamentação sem fazermos nada. Como dizem Ramón Flecha e Iolanda Tortajada, no livro A educação no século XXI: os desafios do futuro imediato, "para superarmos a crise da escola, primeiramente devemos deixar de falar do óbvio, justificando assim não fazer opções ou, o que dá na mesma, atuar como Freire, passando da cultura da queixa para a cultura da transformação." (FLECHA, R. e TORTAJADA, I., 2000, p. 28)
          Finalizo minhas considerações, chamando nossa responsabilidade, professores e professoras, para construção dessa "cultura da transformação", pois "os primeiros que devem estar mais preparados cientificamente somos nós, autores e autoras, que fazemos propostas educativas."(idem, p. 28)
         Como filósofo, tenho a obrigação ética e política de contribuir com o esclarecimento dos pressupostos filosóficos e pedagógicos que fundamentam as ações do orgão responsável por representar os interesses da categoria a qual faço parte, a dos professores. A partir da próxima sexta, dia 15, estarei pela manhã na sede do Sindicato dos Professores de Pernambuco para ajudar na construção de novas perspectivas teóricas, mais em sintonia com o mundo atual e que possibilite as mudanças necessárias em nossas práticas e representações. As mudanças na educação e no movimento sindical já são requeridas há algumas décadas. Comecemos agora, com a ajuda da filosofia e das demais ciências, a ressignificar as práticas docente e sindical, visando elevarmos o nível do debate, sob pena de continuarmos desvalorizados e desrespeitados em nossa dignidade. 
         Deixo aqui o convite para todo aquele e toda aquela que já não aguenta mais o ciclo de humilhações ao qual estamos submetidos para unirmos nossas forças e refletirmos juntos sobre novas estratégias de ação. Não deixemos chegar a campanha 2013 para só aí começarmos a discutir sobre nossa valorização e dignidade.
         Prezado, professor, prezada, professora, tenhamos coragem para enfrentarmos as condições adversas, tão comuns à nossa profissão, não apenas em duas ou três assembleias, ou mesmo nas greves, mas cotidianamente nos nossos espaços de atuação, pois é aí que começa o isolamento, o desrespeito e a desvalorização do nosso trabalho. Comecemos a trabalhar de fato.

Zebé Neto
filósofo, escritor e educador
         

 
Referências bibliográficas


CUNHA, José Auri. Filosofia para a criança: orientação pedagógica para educação infantil e ensino fundamental. Campinas, SP: Alínea, 2008.

FLECHA, R. e TORTAJADA, I. Desafios e saídas educativas na entrada do século. In. IMBERNÓN, Francisco. A educação no século XXI: os desafios do futuro imediato. Porto Alegre: Artmed, 2000)

MEC/SEB/DPE/COEF. Ensino Fundamental de nove anos: orientações gerais.