quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Letramento digital e cidadania: mais Machado de Assis e Joyce, menos Jobs e Gates


Olá, amigo leitor, amiga leitora, do Cabeça, tudo certo?

Infelizmente não tenho conseguido manter um intervalo constante entre uma postagem e outra. Tentei, mas não deu! Na verdade, demorei a perceber que é praticamente impossível manter uma regularidade e um rigor cronológico (característicos do trabalho industrial) para uma atividade essencialmente criativa, como a escrita (é claro que tem uma galera que escreve mecanicamente ou que tem que produzir certa quantidade de texto por semana, mas não esse tipo de produção textual a qual me refiro).  

Nossos corpos e mentes são tão condicionados ao ritmo do trabalho alienado, fragmentado, seriado, que, inconscientemente, estava tentando imprimir para o blog o ritmo característico das sociedades industriais (e contra o qual o próprio blog se insurgiu!).

Assumindo, então, que a criação textual (ou qualquer outra atividade criativa) não deve ser engessada por imposições temporais, o intervalo das postagens, a partir de agora, obedecerá ao tempo natural da sua escrita, dentro, obviamente, do tempo liberado que atualmente me é disponível – que não é muito, pois não gozo (ainda) de ócio criativo, já que sou assalariado – e à minha motivação para escrever, que só vem crescendo depois que o Cabeça nasceu.


De qualquer forma, como pesquiso e estudo quase que diariamente, acredito que seja possível manter (vou me esforçar para!) uma média de duas postagens por semana, sempre intercalando um texto voltado especificamente voltado para a formação continuada do professor/educador e outro direcionado para a reflexão e crítica sobre as áreas de interesse do blog, como tecnologia, eixo temático da postagem de hoje.

Antes de deixar vocês com minhas considerações sobre letramento digital, permitam-me apresentar a programação da Cabeça Bemfeita TV e da Rádio Cabeça dessa semana. Resolvi colocar na programação apenas produções que tive acesso através da internet, já que é sobre inclusão digital que pretendo falar.
(Quem preferir, pode ir direto para o texto "Letramento digital e cidadania: mais Machado de Assis e Joyce, menos Jobs e Gates", mais abaixo.) 

Como a maioria dos leitores do blog são professores (acredito eu), acredito que a Série de Diálogos O Futuro se Aprende, que aconteceu no dia 10 de setembro de 2012, em São Paulo-SP, trará informações importantes para os docentes que se preocupam com sua formação tecnológica. Entre as palestras, temos a do professor da UFPE e colaborador da OJE (Olimpíada de Jogos Digitais e Educação), Luciano Meira, que fala sobre tendências, desafios e oportunidades de utilização das tecnologias na educação. Os créditos da programação de hoje devem ser dados para o designer e músico HD Mabuse, que disponibilizou a informação no facebook em um dos dias em que entrei.

Já na grade da Rádio Cabeça, resolvi homenagear dois sites que me mostraram coisas bem interessantes recentemente: o Na Lupa e o Jamendo.

Através do Na Lupa conheci Blitz The Ambassador, projeto de Samuel Bazawule que nasceu na República do Gana (1982) e mudou-se, em 2001, para os EUA. No som do cara influências das clássicas bandas de rap A Tribe Called Quest, De La Soul, The Jungle Brothers e Public Enemy, misturadas a batidas africanas.  Fela Kuti é também outra grande influência. As imagens que acompanham o vídeo do disco Native Sun compõem um belo documento visual sobre elementos da cultura (música, dança, vídeo,comportamento, etc) africana.
"Accra city blues" (versão de estúdio)

"Accra city blues" (Montreal Jazz Festival 2011)



As outras dicas foram selecionadas por mim num site sediado em Luxemburgo, chamado Jamendo. No Jamendo  dá para ouvir e baixar músicas livremente. Pra quem gosta de música independente, dos mais variados estilos (pop, rock, metal, blues, jazz, reggae, rap, indie, experimental, eletrônica), dá pra achar algumas coisas bem legais. Os norte-americanos do Lorenzo´s Music fazem um som com pitadas de blues, rock, ritmos latinos, new wave, soul. Percebemos no som da banda influências de Morphine, Tom Waits, TV on the Radio, entre outros.
Outra banda que descobri através do Jamendo e que também está na programação da Rádio Cabeça, são os italianos do Sicilian AV Project, que promovem um diálogo entre literatura, música, artes visuais e ilustrações. A galera faz uma mistura de drum&bass, eletrônica e jazz.
Fechando a programação, temos o Fluxo, banda de rap formada em 2005 fruto da parceria dos cariocas Arthur Moura e Wallace Carvalho. Após experiência em bandas (que tinha Wallace no vocal e Arthur na guitarra), passaram a trabalhar em dupla. O Fluxo possui quatro álbuns: “Relatoatividade” (2006), “O Som do Tempo” (2007), “Prévia do Amanhã” (2008) e "Visões Remanescentes"
Antecipando possíveis críticas de teor etnocêntrico, nacionalista ou xenofóbico, do tipo: “Esse Zebé não defende a cultura nacional! Não deu nenhuma dica de MPB ou música nordestina!”, farei  uma observação sobre minhas escolhas de vertente nitidamente pop.

Além de gostar de alguns ícones da cultura pop, um dos objetivos do blog é oferecer uma leitura crítica sobre a produção cultural contemporânea, procurando identificar o que há de interessante dentro de uma oferta vertiginosa de opções, na maioria das vezes de qualidade estética questionável.

Sou pernambucano, amo minha cultura (considero a música feita em Pernambuco uma das mais criativas e originais que existem), amo a música brasileira, os músicos daqui estão entre os melhores do mundo. O primeiro texto dedicado à música aqui no Cabeça, inclusive, teve como eixo a A Nova Musica Pernambucana. Ora, também sou educador, trabalho com crianças e adolescentes que têm na comunicação de massa (principalmente as infovias) seu principal veículo de informação e, o que é pior, de formação. Sendo assim, acredito que seja função do professor/educador promover uma reflexão crítica sobre os conteúdos veiculados pelas diferentes mídias, procurando, assim, identificar os interesses morais, políticos, ideológicos e econômicos por traz do “lixo pop” despejado no mundo pela industria cultural.   
Em tempos de Lady Gaga, One Direction e Luan Santana, nós, professores, temos o compromisso de apresentar para nossos estudantes alternativas ao discurso massicante e hegemônico dos diferentes meios de comunicação.
Para quem quiser aprofundar a discussão sobre tecnologia e sobre  a "sociedade informática", na página (Cons)CIÊNCIA E TECNOLOGIA  estão disponíveis três textos: um falando sobre a relação entre técnica, tecnologia e ciência (texto 1), outro sobre as características da sociedade informática, resultado da segunda revolução técnico-industrial (texto 2) e um último trazendo algumas considerações sobre letramento digital (texto 3).

Agradeço a vocês que dedicam uma parte do tão precioso, e cada vez mais raro, tempo, para dialogar. Gostaria de ouvir vocês também. Estão gostando? O que deve ser mudado? Fiquem à vontade para comentar. O retorno de vocês é muito importante!  

Gostaria de agradecer especialmente a Lucas Delaqua, do Na Lupa, pela força dada no início de minha aventura no ciberespaço. Valeu, cara!

Ufa!!! Depois dessa enorme introdução fiquem finalmente com o texto:


Letramento digital e cidadania: mais Machado de Assis e Joyce, menos Jobs e Gates
Não sei se por pertencer à chamada geração X  ou por ser oriundo das classes menos favorecidas (como vocês sabem, nossos hábitos e consumos culturais dependem da nossa situação histórico-social concreta), o certo é que nunca fui um entusiasta das novas tecnologias da informação e da comunicação.

Fruto de puro preconceito, durante boa parte da minha vida apenas percebia a tecnologia pelos seus aspectos negativos. Ingênua e romanticamente, considerava que os avanços tecnológicos desumanizavam e potencializavam o processo de alienação e reificação (“coisificação”) do sujeito contemporâneo, mais do que trazia benefícios.

Como consequência do meu amadurecimento intelectual, venho revendo minha relação com a tecnologia e atualmente estou em pleno processo de “letramento digital”. As possibilidades de aprendizado, de diversão e de trabalho oferecidas pelas tecnologias de informação e comunicação (TICs) têm me ajudado muito na construção e desenvolvimento dos meus projetos pessoais e profissionais.

De acordo com Serafim, letramento digital é "a capacidade que tem o indivíduo de responder adequadamente às demandas sociais que envolvem a utilização dos recursos tecnológicos e da escrita no meio digital." (SERAFIM, Lúcia. Letramento digital na sociedade do conhecimento. Disponível em http://www.algosobre.com.br/cultura/letramento-digital-na-sociedade-do-conhecimento.html [07/11/2012]). Dentro desse contexto, venho desenvolvendo critérios para utilizar crítica e eficazmente a tecnologia, sabendo quando e por que utilizá-la, ampliando, assim, o exercício da cidadania.

No texto de hoje, que por sinal inaugura a página (Cons)CIÊNCIA E TECNOLOGIA, defenderei a ideia de que, para que nós, formados no paradigma tradicional (fundado na fragmentação, na transmissão, na unilateralidade, na abstração, no enciclopedismo e na descontextualização) possamos exercitar uma cidadania adaptada aos desafios contemporâneos, precisamos dominar e utilizar, competentemente, conhecimentos tecnológicos básicos.
Antes de mais nada, permitam-me apresentar minha própria experiência, através de uma breve linha do tempo, com a tecnologia, para ilustrar o posicionamento por mim assumido, qual seja, que é fundamental o domínio da tecnologia para participarmos mais ativamente do “jogo” social.


Só por uma questão de “sincronia semântica”, consideremos, inicialmente, a tecnologia como “o conhecimento utilizado na criação ou no aperfeiçoamento de produtos e serviços”. Sendo assim, o escopo do termo tecnologia abarca praticamente todas as atividades humanas. (Medeiros e Medeiros, 2010, p. 10).

Supergame CCE VG-2800: primeiro
e último vídeogame deste que vos
escreve
Meu histórico com a tecnologia começa com livros e TV (para toda família assistir “sentada no sofá da sala”, só para lembrar Tom Zé), ainda na infância; um videogame (mais precisamente um Supergame, quem foi criança ou adolescente em meados da década de 1980, deve se lembrar desse console da CCE, versão mais em conta do Atari), um walkman e HQ's, na puberdade; na sequência, da adolescência até a idade adulta, vieram o cinema, o rádio, as fitas K7’s (gravadas em lojas alternativas de discos no centro do Recife ou mesmo em programas segmentados das rádios FM, entre elas, Cidade, Transamérica, 89 FM e Universitária, como Novas Tendências, Rock Report, Let’s Rock, Cidade Dance Club, Mangue Beat, entre outros), os vinis e os CD’s.


Basicamente, prezados leitor e leitora, esses foram os meios tecnológicos através dos quais me mantive “antenado” com o mundo durante mais de 20 anos.

Até que, nos idos de 2006, não consegui resistir mais e me rendi ao computador.  Por uma necessidade profissional (até então, eu, que sou Professor de Filosofia, entregava os originais, de provas ou de atividades, manuscritos) passei a digitar meus documentos e, pasmem: enviá-los por email! Meu primeiro correio eletrônico, portanto, data dessa época.
Já entre 2008 e 2009, superei a simples utilização de editores de textos (como Word e Power Point) e de receber/enviar emails e passei a consumir também áudio (MP3) e vídeo através da World Wide Web.

Finalmente, chegamos a 2012, e esse é um capítulo à parte, pois representa o “auge” do meu envolvimento com a tecnologia de informação e comunicação. Desde o final de 2010, depois de minha saída da escola Mater Christi, vinha alimentando a ideia de criar um blog para manter contato com a garotada que em sete anos de casa aprendi a amar.

Passados pouco mais de um ano, em 29 de fevereiro de 2012, nasceu o Cabeça Bemfeita, blog pensado e escrito por mim para, além de encontrar velhos e novos amigos e amigas, organizar e sistematizar as informações e conhecimentos que venho adquirindo depois que passei a administrar minha própria formação continuada.

Não demorou e vieram na sequência uma página pessoal no facebook (que, timidamente, venho movimentando com mais frequência, chegando, inclusive, a entrar três dias consecutivos na última semana!) e, mais recentemente, uma página do Cabeça Bemfeita, também na rede social criada por Mark Zuckerberg, visando um contato mais dinâmico e direto com os leitores do blog e a busca de novos parceiros para um diálogo crítico, reflexivo e, principalmente, afetuoso, sobre temas que nos interessam.

A partir do momento em que rompi com os paradigmas nos quais havia sido formado e superei o preconceito e a ignorância com relação à tecnologia, tenho experimentado uma participação social mais ativa nos diferentes espaços onde compartilho com outros sujeitos a responsabilidade da construção dos valores e normas éticas, políticas e estéticas.

O meu paulatino e constante aprofundamento nas mídias digitais tem sido acompanhado de uma participação mais efetiva nas, chamadas por mim, “Ágoras contemporâneas”. Como vocês sabem, a Ágora era a praça pública onde os gregos, com base nos princípios de isonomia (igualdade de direitos) e isegoria (igualdade na fala), se reuniam para discutir sobre os assuntos (justiça, obras públicas, leis, economia, cultura, etc.) ligados à vida da cidade (pólis).

Para mim, são “Ágoras” a família, a escola, o trabalho, jogos coletivos, comunidades de investigação, grupos de amigos, redes sociais, ... Resumindo: onde existirem pessoas que discutem, deliberam, refletem, decidem, fazem escolhas e agem coletivamente, os ideais da “Ágora” estão presentes.   

Se hoje procuro meus/minhas amigos/amigas no trabalho, ou mesmo se começo a utilizar as redes sociais para buscar um diálogo com aqueles/aquelas que são referências em áreas que alimentam meu sentir e pensar sobre o mundo (arte, ciência, comunicação, tecnologia) devo muito as tecnologias da informação e comunicação que vêm me ajudando a promover uma síntese criativa de sentimentos, ideias, saberes, conhecimentos, atitudes, procedimentos e competências que venho buscando construir.

Contudo, não nos enganemos: meu caso particular é fruto mais das minhas disposições, personalidade, contexto sócio-cultural e econômico, visão de mundo, valores, resumindo, das minhas experiências singulares, do que de um projeto emancipador de sociedade.

Como qualquer conhecimento ou atividade, a tecnologia não foge da dimensão ética da experiência humana. Seu uso social estará sempre condicionado aos valores hegemônicos em dado momento histórico. Como os valores predominantes a partir da modernidade são o individualismo, a competição, a exploração, a alienação e a exclusão da grande maioria da humanidade da produção e consumo de bens e serviços, observamos que os avanços tecnológicos estão a serviço dos grupos privilegiados que dominam e controlam os saberes, os procedimentos e as competências necessárias para a produção tecnológica.

É importante também frisar que o simples “saber utilizar” os formidáveis recursos tecnológicos atualmente à disposição não significa, necessariamente, ser um usuário crítico e competente das mídias digitais. Uma coisa é ter seu olhar guiado por critérios próprios, ser capaz de discernir entre o que é relevante ou não, o que é verdadeiro ou falso, e outra bem diferente, é utilizar as novas tecnologias acriticamente, seguindo o que é ditado pela indústria cultural.
Para muitos estudiosos da cultura contemporânea, vivemos uma espécie de “cegueira” pelo excesso de informação. Antes, a dificuldade estava na escassez de acesso à informação. Hoje, o problema é a ausência de critérios para saber o que é pertinente diante da banalização da informação.

Finalizo, lembrando para aqueles que ainda permanecem à margem do “admirável mundo novo” das tecnologias de ponta (e para aqueles/aquelas que acham que ser incluído digital é postar fotos e links para vídeos do youtube), que a exclusão digital (e, consequentemente, da cidadania) a que a maioria da população está submetida, decorre muito mais do não domínio de competências básicas para o exercício da cidadania, como a capacidade de leitura crítica e reflexiva de textos de diferentes estruturas e registros, por exemplo, do que propriamente ao acesso mecânico aos recursos tecnológicos.

Será que a maioria dos 70,9 milhões de brasileiros que acessaram a internet em setembro (segundo Instituto Ibope Nielsen Online) possui "uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas” e de “princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido” (Morin, 2011)? A julgar pela “estatística catastrófica” que o professor Luciano Meira (UFPE) compartilhou na Série de Diálogos O Futuro se Aprende (em cartaz na sua Cabeça Bemfeita TV) de que apenas 10% dos estudantes que concluem a Educação Básica demonstram um letramento adequado em Língua Portuguesa e Matemática, a resposta é não.

Só passei a mim incluir digitalmente (meu letramento digital, assim como toda minha formação, é autodidata) quando resolvi desenvolver e aprimorar duas competências pilares de todas as outras: as competências leitora e escritora.
Para mim as coisas começaram a mudar quando percebi que antes de pensar em mergulhar na linguagem tecnológica deveria voltar-me para as tecnologias básicas de leitura e escrita. A minha inserção no mundo digital é uma consequência direta, portanto, do meu processo de pesquisa sobre a língua.
Por tudo o que foi dito, prezados leitor e leitora, deixo-lhes a seguinte questão: não estaria na hora de procurarmos sermos primeiro Machado de Assis ou James Joyce, para só depois tentarmos ser Steve Jobs ou Bill Gates?
Zebé Neto
filósofo e escritor

sábado, 27 de outubro de 2012

Novas Competências para Ensinar: Trabalhar em Equipe

Antes de deixar vocês com minhas reflexões sobre trabalho em equipe, gostaria de combinar uma mudança na frequência das postagens. Como minha situação histórico-social ainda não me permite exercer o ócio criativo como gostaria, não tem me sobrado muito tempo para manter um intervalo rigoroso entre os textos. A partir de hoje, as quintas e as segundas-feiras ficam sendo apenas dias-referência das postagens, podendo as mesmas serem publicadas um, ou mesmo dois dias depois, dependendo do meu árduo cotidiano.

Como o tema de hoje é trabalho em equipe e amanhã, dia 28 é o Dia Internacional da Animação, e como essa expressão artística para ser realizada requer um intenso trabalho de equipe, a programação da Cabeça Bemfeita TV dessa semana traz uma seleção de curtas de animação (Obs.: minhas indicações foram: A Ilha, O animador, Mais Valia e O Mito da Caverna, outros vídeos que aparecerem foram selecionados pelo blogger). Dentro do mesmo espírito de equipe, a programação da Rádio Cabeça traz algumas bandas que admiro bastante.  Mother of Inventions e Radiohead, do lado internacional, Mutantes e Hurtmold, do lado nacional. Espero que gostem!


Uma última coisa: na página FORMAÇÃO (DES)CONTÍNUA vocês encontram dois textos que aprofundam a temática do trabalho em equipe.

Finalmente, fiquem com o texto:

Novas Competências para Ensinar: Trabalhar em equipe
 

Invariavelmente, todos os referencias de competências necessárias para o exercício da cidadania no mundo contemporâneo, apontam a habilidade de trabalhar em equipe como uma das principais. Especificamente para nós, professores, o mundo de hoje exige que, mais do que um conjunto de habilidades cognitivas, tenhamos a capacidade de trabalhar cooperativamente em equipe (Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica, 2010).

Devido a uma demanda concreta (me coloquei como iniciador de um processo de formação de equipe), recentemente precisei me apoderar de conhecimentos sobre trabalho de grupo, pois, como já falei aqui no blog, sou fruto da educação massificante e alienada que prevalece na maioria das escolas brasileiras, portanto, não construí saberes e procedimentos de formação de equipes e condução de atividades realizadas em grupo.
 
Nas minhas pesquisas cheguei ao livro 10 Novas Competências para Ensinar, de Philippe Perrenoud, onde o autor faz um inventário sobre as competências que contribuem para redefinir o papel do professor no mundo contemporâneo.

O contato com o livro me instigou a escrever uma série de cinco textos inspirados em cinco das dez famílias de competências, listadas pelo sociólogo suíço, que julgo serem fundamentais para nosso êxito como professores na sociedade atual. São elas: "trabalhar em equipe", "participar da administração da escola", "utilizar as novas tecnologias", "enfrentar os dilemas éticos da profissão" e "administrar sua própria formação contínua". Resolvi priorizar essas cinco, por considerar que as demais já se encontram, indiretamente, pressupostas nas escolhidas. 

Para falar sobre o tema de hoje, trabalho em equipe, resgato um movimento que realizei recentemente na escola onde trabalho, o Lubienska Centro Educacional, para incentivar o início da construção de um trabalho verdadeiramente de grupo.

Não sei se vocês tiveram a oportunidade de ler, mas em algumas ocasiões aqui no blog afirmei que 2012 para mim é um ano muito especial, pois senti que  era o momento de sair do isolamento e buscar outros sujeitos que, assim como eu, acreditam que as possíveis saídas para as incertezas, dúvidas e impasses colocados pela sociedade contemporânea à educação só podem ser construídas colets.

Há muito percebi que para alcançar os princípios e objetivos esperados da educação básica em geral, e da minha disciplina em particular (a Filosofia), não poderia mais trabalhar isoladamente. Na verdade, é próprio da filosofia sua função de interdisciplinaridade, estabelecendo a ligação entre as diversas ciências e técnicas que auxiliam a pedagogia.
 
Fiel a minha busca por espaços dialógicos comecei a mandar emails para os diversos sujeitos que dividem comigo a responsabilidade de criar os valores éticos, políticos, estéticos e pedagógicos do nosso espaço de vivência.

Como não sou tão ingênuo como pareço, sabia que minha missão não seria tão simples assim, pois não é fácil “falar dos medos, das fantasias de perder a autonomia, dos territórios a proteger, dos poderes a assumir ou a se submeter (Perrenoud, 1996c), das competências e das incompetências a minifestar ou a construir, em suma, de todas as vicissitudes das relações intersubjetivas (Cifali, 1994) [...]” (Perrenoud, 2000, p. 84).
Com relação ao corpo gestor, tudo tranquilo, minhas ideias foram bem recebidas. Tanto é que já estou tendo um canal de diálogo para ver como poderei agregar minhas ideias ao projeto pedagógico desse tradicional centro de educação. Mas, com relação ao corpo docente, confesso: o trabalho tem sido mais árduo do que imaginava!

Desde o simples não envolvimento, revelando uma certa apatia (o que convenhamos, é bem compreensível,  pois não é fácil manter a chama acesa perante a humilhação, a exploração e a desvalorização as quais somos submetidos e submetidas), passando até por agressão verbal a minha pessoa, e claro, minha própria inexperiência e ignorância com relação as competências envolvidas na criação e condução de atividades de grupo, têm me mostrado o quanto é difícil se apresentar para o debate e batalhar pela construção de comunidades aprendentes.

 
O movimento deu uma esfriada agora (sabem como é, fechamento de ano letivo é sempre uma correria nas escolas), mas com toda certeza teremos desdobramentos mais na frente. Por enquanto, continuo no meu processo de formação permanente para que, quando as situações exigirem, eu possa ajudar, não só lá no Lubienska, mas em todos os espaços com os quais colaboro, a encontrar as melhores saídas para os problemas enfrentados.

De qualquer forma, minha atitude foi importante principalmente por dois aspectos:
 
1)      Serviu para alertar que não formamos uma “equipe treinada”, no sentido atribuído por Perrenoud. Segundo o sociólogo suíço, cabe à equipe transmitir aos recém-chegados informações que os ajudarão a assimilar a cultura da equipe e a compreender por que se faz o que se faz e se diz o que se diz. (Perrenoud, 2000). Ora, está havendo uma inversão: eu é que tenho procurado conhecer a cultura da equipe para poder compreender o que se diz (representações) e o que se faz (práticas);
2)      Além disso, sair do isolamento foi importante para ouvir críticas e perceber vários pontos em que preciso investir para desenvolver mais minhas inteligências intra e interpessoal para evitar que a gênese de uma equipe aborte “por falta de habilidade, excesso de precipitação, ausência de escuta ou de organização, de memória ou de método.” (Perrenoud, 2000, p. 88).
 

É isso, pessoal! Obrigado pela companhia de vocês e semana que vem eu volto com mais uma competência profissional que, no meu entender, precisamos construir para podermos sobreviver nesse mundo cada vez mais informatizado e globalizado e, ao mesmo tempo, cada vez mais seletivo e excludente.
 
Um forte abraço,
 
Zebé Neto
filósofo, escritor e educador
 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Rede Globo: cinismo com os moradores de “avenida” no Brasil

Hoje seria o dia em que começaria a movimentar a página (CONS)CIÊNCIA E TECNOLOGIA, mas não posso deixar de me posicionar diante do cinismo da Rede Globo de Televisão em uma reportagem exibida no último sábado, dia 20, no Jornal Nacional, que falava da repercussão do último capítulo do folhetim Avenida Brasil.

Depois de mostrar que o Brasil parou em frente à televisão para ver o último capítulo da novela Avenida Brasil, destacando "ruas e avenidas vazias em todo o país" (datalhe: para a Globo "todo o país" se resume à São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Manaus, Pará, Porto Alegre, Recife e Belo Horizonte), o repórter Flávio Flachel nos apresenta Dona Isabel que “não tem sala, não tem casa. Mora na rua, em Porto Alegre. Mas fez questão de juntar um dinheirinho para comprar uma TV e acompanhar até o fim, na calçada, toda a história daquele povo do lixão.”

Prezado leitor, prezada leitora, não é que a Globo conseguiu me surpreender. Tudo bem dizer que em São Paulo e no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, “teve gente pedindo pra trocar o som da banda (nos bares) pelo áudio da TV”, ou mesmo que “o corre-corre habitual do aeroporto de Congonhas teve pausa obrigatória onde houvesse imagem, onde estivesse passando a novela que encantou o país”, mas utilizar cinicamente  uma senhora cuja situação sócio-histórica degradante é consequência da desigualdade na distribuição das riquezas do país, que tem nos meios de comunicação de massa sua justificativa ideológica, é “tirar onda” com a nossa cara!

Para dar uma fundamentada na minha crítica à postura ideológica da Rede Globo em defesa do status quo, através do Jornal Nacional, pesquisei alguma coisa sobre o gênero televisivo telejornal. No livro Temas de Filosofia, as autoras, Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, dizem que os telejornais “não são neutros, objetivos ou imparciais, mas deixam sempre uma brecha para que o público confronte as vozes ouvidas (às vezes contraditórias) com suas outras fontes de informação e suas experiências pessoais.” (ARANHA, M.L. e Martins, M. H.. Temas de Filosofia. 3. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 66).  

Pegando uma carona na brecha deixada pela fala do repórter no final da matéria, que dizia que “Avenida Brasil terminou com a mensagem de que é possível perdoar, ir além”, finalizo confrontando a voz do repórter (que na verdade traduz o discurso ideológico da Globo),  com uma leitura crítico-reflexiva da mídia, através das seguintes indagações:

Não estaria a Rede Globo, com produtos como Avenida Brasil, a estimular, via catarse coletiva, o “perdão”, ou seja, o “esquecimento”, da exploração econômica e da exclusão social a que boa parte da população está submetida?

Como diz o repórter, até Adriana Esteves “chorou vendo o fim da novela.” Não estaria na hora do brasileiro começar a chorar porque pessoas como Dona Isabel não têm casa para morar e porque gigantes da comunicação, como a Rede Globo, essa realidade insistem em camuflar?

 
Zebé Neto
filósofo, escritor e educador
 
 
 
p.s.
 
1) Quem quiser conferir, a matéria citada na postagem está disponível em http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/10/brasil-para-no-ultimo-capitulo-de-avenida-brasil.html;
 
2) A programação da Cabeça Bemfeita TV e da Rádio Cabeça é a mesma da última postagem;

3) Na página MÉDIA MÍDIA, vocês encontram um texto das professoras Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helana Pires Martins sobre gêneros televisivos. 
 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Profissão professor: desafios e saídas

Olá, leitor e leitora do Cabeça Bemfeita, tudo bem? O texto que vocês lerão abaixo foi publicado na última quinta. Ontem e hoje fiz algumas revisões e acréscimos. Os principais acréscimos foram: um texto da educadora portuguesa Isabel Alarcão sobre "o papel do professor na sociedade da informação" que postei na página FORMAÇÃO (DES)CONTÍNUA e a nova programação da Cabeça Bemfeita TV e da Rádio Cabeça que, em sintonia com a postagem, presta uma homenagem (dentro do espírito crítico e reflexivo do blog, claro!) ao professor. Na Cabeça Bemfeita TV vocês conferem as ideias do encantador filósofo e educador Rubem Alves, enquanto na Rádio Cabeça, minha homenagem em forma de música, através  das representações sobre a escola e, consequentemente, sobre o professor, das bandas Pink Floyd, Bad Brains, Patife Band e Gabriel O Pensador.

Um último informe antes do texto: as postagens sobre filosofia, arte, ciência, tecnologia e comunicação serão agora publicadas nas segundas, enquanto as postagens dedicadas a nossa formação continuada continuam sendo publicadas nas quintas-feiras.

Espero que vocês gostem! Finalmente, fiquem com o texto:

Profissão professor: desafios e saídas

Era minha intenção que o presente texto tivesse sido publicado na última segunda, dia 15 de outubro, Dia do Professor. Acontece que, como ainda ganho a vida apenas como professor (o que implica muito trabalho, pouca remuneração e ausência de ócio criativo para me dedicar às artes e à literatura), não tenho tido muito tempo para escrever como gostaria.

Aliás, não tenho nem conseguido manter a regularidade das publicações das quintas (voltadas para a formação continuada) e dos domingos (direcionadas para a discussão de temas diversos, como arte, filosofia, comunicação e tecnologia), como o leitor e a leitora que acompanham o blog mais de perto já perceberam.

De qualquer forma, como aqui a preocupação com a valorização do trabalho docente é permanente, não importa muito o dia em que o texto está sendo publicado. O importante é que no Cabeça Bemfeita,  prezado professor, prezada professora, em qualquer dia do ano vocês encontrarão um espaço de reflexão e crítica sobre os desafios e as possibilidades colocadas pela sociedade contemporânea ao ofício de professor.

Como hoje é quinta-feira, dia reservado para nossa formação continuada, e aproveitando a “semana” do Dia do Professor, levantarei alguns desafios que nós, docentes, enfrentamos na atualidade e, em seguida, apontarei, com base na minha própria experiência e em alguns autores com os quais venho dialogando, algumas possíveis saídas para combatermos a tão falada crise civilizacional e, consequentemente, educacional, pela qual passamos.


Os desafios

Como a prática social deve ser o ponto de partida e de chegada da prática educacional, devemos estar atentos e atentas à relação sociedade-escola, pois o contexto sócio-histórico incide diretamente no nosso trabalho.

Como decorrência do desenvolvimento da ciência moderna e da tecnologia, a sociedade contemporânea vem se transformando num ritmo acelerado. As mudanças provocadas pelas novas tecnologias da informação e comunicação e os fenômenos da globalização possibilitaram a passagem da sociedade industrial à era da informação, da comunicação e do conhecimento.

Diferentemente da sociedade industrial, onde a posse dos meios de produção material (ou a posse da força de trabalho) definia as posições dos indivíduos na sociedade, na sociedade informacional o fator que determina o poder social de indivíduos e instituições é o tratamento da informação (Flecha e Tortajada, 2000).

Ora, como na sociedade da informação certas habilidades são valorizadas e requeridas, as pessoas que não dominam as competências impostas pelos grupos privilegiados que organizam, codificam e transmitem o conhecimento, correm o risco de ficarem excluídas dos benefícios proporcionados pela sociedade informação (Idem, 2000).

Até bem recentemente, eu fazia parte do enorme contingente de pessoas que nem sequer iniciou o processo de desenvolvimento das habilidades necessárias na sociedade da informação, como seleção e processamento de informação, autonomia no pensar e no agir, colocação e resolução de problemas, ser capaz de tomar decisões, trabalhar em equipe, ser flexível, etc.

Saídas


Um leitor fortuito, com uma formação mediana, que lesse algum dos meus textos pela primeira vez, poderia ser levado a acreditar que sou um mestre ou quem sabe um doutor em educação. Que nada! Essa razoável habilidade em utilizar as palavras, em comentar, discutir e relacionar conceitos ou mesmo selecionar, tratar e transmitir informações é algo bem recente na minha vida.


Ainda falta muita coisa para que eu chegue na identidade profissional que acredito ser a mais adequada para efetivar os objetivos de uma formação integral das novas gerações, no entanto, hoje, através das habilidades reflexivas que venho construindo na minha formação permanente, vejo mais claramente quais são os limites e as lacunas que impedem o melhor desempenho profissional que eu posso alcançar.

De qualquer forma, minha vida (não só profissional, mas também existencialmente falando) começou a mudar depois que eu passei a investir na minha formação continuada. Paulatinamente, fui tendo acesso a alguns autores e autoras que foram me mostrando que, apesar das dificuldades, temos condições de sairmos da crise. 
Um autor em especial, Philipe Perrenoud, tem me ajudado bastante no meu desenvolvimento teórico e prático com sua defesa da prática reflexiva e da implicação crítica da atividade do professor. 

Recentemente, na escola com a qual colabora, o Lubienska Centro Educacional, propus um diálogo e marquei uma reunião com os colegas professores e professoras do meu segmento pra ver se a gente começa a se movimentar para construir um  trabalho interdisciplinar. 
O resultado não foi lá essas coisas, mas valeu como um primeiro passo. Narro esse fato porque ele me permitiu uma aproximação do livro de Perrenoud que, apesar de ser o mais popular, ainda não tinha lido: 10 Novas Competências Para Ensinar. 

Como não fui formado em contextos de trabalho em equipe, mas quero muito desenvolver essa competência, e como tinha marcado com o pessoal, não custava nada dar uma estudada. Fui dar uma pesquisada na biblioteca da escola pra ver se encontrava alguma coisa sobre trabalho em grupo e eis que, logo de cara, no setor de Educação, vejo o livro citado. 


Das dez competências profissionais "que contribuem para redelinear a atividade docente" (Perrenoud, 2000, p. 12) que o sociólogo suíço aponta, selecionei cinco para compartilhar com vocês nas próximas quintas-feiras. São elas: "trabalhar em equipe", "participar da administração da escola", "utilizar as novas tecnologias", "enfrentar os dilemas éticos da profissão" e "administrar sua própria formação contínua". Selecionei essas cinco por considerar que as outras competências apontadas por Perrenoud ("organizar e dirigir situações de aprendizagem", "administrar a progressão das aprendizagens", "conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação", envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho" e "informar e envolver os pais") já estão, de acordo com minha leitura, pressupostas nas competências que comentarei.

É isso aí, pessoal, valeu a atenção e a compreensão de vocês. Próxima quinta eu volto trazendo algumas considerações sobre "Trabalhar em equipe". Até mais!



Zebé Neto
    filósofo, escritor e educador   

Referências bibliográficas

FLECHA, R. e TORTAJADA, I. Desafos e saídas educativas na entrada do século. In: IMBERNÓN, F. (Org.). A educação no século XXI: Os desafios do futuro imediato. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

PERRENOUD, P. 10 novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000.





segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O Primeiro Poder


Como acontece com todos os eixos temáticos discutidos aqui no Cabeça, procuro partir do cotidiano, ou seja, da vida concreta, para buscar, na teoria, alguns olhares sobre os problemas por mim percebidos no dia-a-dia. Com a comunicação, uma das áreas de interesse do blog e objeto de estudo da página Média Mídia, não podia ser diferente.

Sempre me considerei um ouvinte, leitor, espectador e telespectador consciente, mas, confesso que depois que resolvi também me dedicar ao estudo dos meios de comunicação aqui no blog, meu olhar ficou mais atento e rigoroso com relação ao que é veiculado pela mídia.

Do final do primeiro semestre pra cá, percebi alguns probleminhas, seja do ponto de vista ideológico, ético, político ou estético, relacionados com a imprensa pernambucana. Se me permitem, vou comentar alguns deles para em seguida defender a importância de desenvolvermos uma leitura crítica sobre os meios de comunicação.

No final do primeiro semestre, a Rede Globo NE, no telejornal NE TV, ao fazer a cobertura da greve dos professores da rede privada de Pernambuco, informou que a opção pela greve, no dia anterior, fora por “unanimidade”. Quando vi a reportagem pensei: “’pera’ aí: unanimidade não significa a completa concordância de todos sobre algum ponto sujeito a apreciação?” Rigorosamente falando, a vitória da “opção greve” não foi unânime, pois, pelo menos eu havia votado contrariamente à paralisação (motivos por mim expostos na postagem Já estávamos "parados", comecemos a trabalhar), o que contradiz a aplicabilidade do conceito “unanimedade” nessa situação específica.   

Se a emoção e a indignação (legítimas) da Diretoria e da massa dos professores presentes não permitiram que os (pouquíssimos) votos dissentes não fossem contados, nem por isso eles deixaram de existir. Acontece que, na sociedade midiática, uma coisa só passa a “existir” ou um discurso só é “verdadeiro”, se são divulgados e legitimados pelos meios de comunicação de massa. No caso aqui citado, a deflagração da greve de forma “unânime” passou para a história oficial porque a Globo assim o noticiou.

Outro problema por mim percebido foi no Diário de Pernambuco. No Caderno Aurora, do dia 09 de setembro, que traz uma reportagem sobre moradores de cabaré. A reportagem, que prometia apresentar o “cotidiano em carne viva de lares nada convencionais”, não passou da mera descrição do cotidiano de seres humanos alijados do processo de produção e consumo dos bens materiais e simbólicos. Em nenhum momento a reportagem aponta para as causas dessa realidade que ela diz retratar. Quem são esses seres humanos? Por que são obrigados a vender/comprar/alugar corpos? Qual a relação do “comportamento” desses seres humanos com a desigualdade social? Com a falta de educação? Por qual razão seus lares não são convencionais? Por escolha? Por opção? Devido à situação sócio-histórica?

Mais recentemente, gostaria de destacar a cobertura do festival No Ar Coquetel Molotov, feita por outros dois jornais pernambucanos, a Folha de Pernambuco e o Jornal do Comércio. No primeiro semestre conheci uma banda de Curitiba chamada ruído/mm. Sabendo que eles iriam tocar no Festival no sábado, dia 22 de setembro, fui conferir o som da galera. Na segunda-feira, dia 24, tive acesso a duas coberturas feitas pelos cadernos de cultura dos dois periódicos acima citados.

Não nego que meu olhar já estava procurando possíveis deslizes que pudessem corroborar as ideias que estou defendendo aqui, principalmente que devemos ter uma postura crítica, reflexiva e seletiva diante da avalanche de informações às quais estamos expostos diariamente.

Na folha, me chamou atenção a observação de que o show do Madrid, “banda de Adriano Cintra e Marina Vello, salvou a noite na Sala Cine”. Se eu fosse um leitor desatento, sem uma postura crítica e reflexiva, tomaria esse juízo de valor do jornalista como juízo de fato. Ora, o jornalista tem todo o direito de fazer julgamentos de valor, mas sua observação é, no mínimo, discutível (aliás, como todo juízo de valor!): O que exatamente ele está querendo dizer com “salvou a noite”? Que o show do Madrid foi o mais eficiente? Sob quais aspectos? Técnicos? Estéticos? De empatia com o público?  Já no Jornal do Commércio o "vacilo" foi com a veracidade dos fatos narrados. Falando sobre o show da ruído/mm o jornalista disse que a banda era mineira. Na verdade, a banda é curitibana! Alguém poderia dizer que isso é irrelevante, mas para quem  gosta não só de sentir, mas também compreender o que ouve (como é o meu caso), o lugar de origem da música é um dado a ser considerado.

Apesar de reconhecer que os meios de comunicação de massa, por atenderem ao gosto médio da população e estarem a serviço de grupos econômicos privados, acabam homogeneizando valores, comportamentos e ideias, não sou daqueles que “demonizam” a mídia, enxergando apenas sua função alienadora e manipuladora.

Nenhum meio de comunicação é, a priori, bom ou mal. Não há dúvida de que os grandes veículos de comunicação, por fazerem parte da indústria cultural, estão comprometidos com a ideologia da classe dominante, no entanto, não somos apenas receptores passivos, ou seja, “alguém que simplesmente recebe tudo o que lhe dão sem realizar nenhuma elaboração pessoal, sem fazer nenhuma síntese.” (ARANHA, M.L. e MARTINS, M.H.Temas de filosofia, 2006, p. 63)

No meu modo de ver, mais importante do que discutir se os meios de comunicação massificam, alienam ou estimulam a violência, a sexualidade e o consumismo, é a discussão sobre a necessidade de desenvolvermos uma leitura crítica sobre a mídia, que leve em conta a reflexão sobre as mensagens transmitidas e sua devida contextualização.

Para quem não consegue ler criticamente os meios de comunicação de massa, ao invés de ser o quarto, a mídia se configura como o "Primeiro Poder", no sentido de ser a principal fonte de valores, informações e conhecimentos, além de influenciar o comportamento da maioria das pessoas.   

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Projeto Político Pedagógico e a intencionalidade da ação escolar

Quem acompanha o Cabeça Bemfeita já sabe que eu, Zebé Neto, até recentemente apenas um mediano professor de filosofia, hoje filósofo, escritor e educador (para quem me ler pela primeira vez, não julgue que estou “me achando”, como se diz por aí, apenas me reconheço como ignorante, portanto, filósofo, gosto de “lerescrever”, portanto, escritor, e procuro, diariamente, superar minha condição sócio-histórica e cultural, portanto, educador), venho investindo na construção de uma nova identidade profissional.


Nesse meu movimento (confuso, duvidoso e incerto no começo, mais claro, rigoroso e sistemático no presente), fui me aproximando do conceito de professor reflexivo ou intelectual transformador da realidade. Como já falei em outras oportunidades, para além do mero técnico especialista, executor de atividades previamente determinadas, tal profissional é um sujeito crítico, reflexivo, capaz de compreender de forma rigorosa, sistemática e de conjunto o contexto no qual está inserido, além de estar comprometido com os valores éticos, políticos e estéticos que promovam a dignidade humana.


Todo esse processo de busca e construção identitária teve início quando eu, na época, ainda professor de filosofia numa tradicional escola particular do Recife, comecei a indagar a equipe gestora sobre qual era, afinal, o nosso Projeto Político-Pedagógico (PPP).


Havia sido afastado das aulas do Ensino Médio da referida instituição, pois, segundo foi alegado, “meu trabalho não estava atendendo às perspectivas da escola”. Como ainda era um típico representante do fenômeno da alienação, num primeiro momento até aceitei numa boa o acontecido, pois sabia (ainda  que ingenuamente) que realmente me faltavam vários saberes, conhecimentos e competências para que eu fosse considerado um “bom professor”. Mas, logo em seguida, comecei a questionar: “Por que meu trabalho não está em sintonia com as perspectivas da escola? Aliás, quais são as diretrizes da escola?”


Mesmo não sendo na época nem crítico e nem reflexivo, sabia que o documento que sistematiza as ideias e ações da escola é o Projeto Político-Pedagógico. Passei, então, a pedir a equipe gestora que discutíssemos sobre quais eram os pressupostos teóricos que fundamentavam o trabalho da escola, para ver até que ponto meu trabalho se aproximava ou se afastava das diretrizes da instituição.


Apesar do meu posicionamento ter resultado na minha demissão, pelo menos hoje tenho uma compreensão mais clara do que seja o famoso PPP. E o que é, afinal, esse documento que todo mundo reconhece sua importância, mas que poucos se propõem a discutir ou estudar?


Analisando os termos que formam a expressão, temos: “projeto”, “político” e "pedagógico". “Projeto”, do latim projectare, em português, projetar, ou seja, lançar para à frente, v. tr.atirar à distância. Um projeto é, na dimensão humana do pensar e do fazer, uma ideia ou proposta que é concebida no presente e lançada para à frente, ou seja, é projetada para ser concretizada no futuro. “Político”, do grego politikós, relativo à política ou aos negócios públicos. No caso da escola, os negócios públicos são as teorias e práticas educativas. “Pedagógico”, de pedagogia, dos termos gregos paidós (criança) e agogé (condução). Pedagogia é a área do conhecimento que tem como objeto a prática educativa, esclarecendo como se instaura e se processa a ação educativa.  


Sendo assim, o PPP de uma escola nada mais é do que um conjunto, mais ou menos sistemático, de princípios, concepções e planos de ação de ensino e aprendizagem, visando efetivar um certo ideal de educação e, consequentemente, de sociedade.  


Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica, um dos meios para viabilizar a escola democrática, autônoma e com qualidade social é o Projeto Político Pedagógico. A conquista da autonomia, por sua vez, pressupõe a construção da identidade de cada escola, “cuja manifestação se expressa no seu projeto pedagógico e no regimento escolar próprio, enquanto manifestação de seu ideal de educação e que permite uma nova e democrática ordenação pedagógica das relações escolares”. (43)


Na elaboração do projeto político-pedagógico, além da concepção de currículo e de conhecimento escolar, deve haver espaço para a “compreensão de como lidar com temas significativos que se relacionem com problemas e fatos culturais relevantes da realidade em que a escola se inscreve”. (44)


Ainda de acordo com o documento citado, o Projeto Politico-Pedagógico deve constituir-se, entre outros pontos: do diagnóstico da realidade concreta dos sujeitos do processo educativo, contextualizado no espaço e no tempo; da concepção sobre educação, conhecimento e avaliação; da explicitação das bases teóricas que norteiam a organização do trabalho pedagógico, com foco nos fundamentos da gestão democrática, compartilhada e participativa (órgãos colegiados e de representações, estudantil e pais).


Além das questões estritamente filosóficas e pedagógicas (por exemplo, o estímulo à leitura da realidade, a interpretação do perfil real dos sujeitos, a determinação da curiosidade e da pesquisa como núcleo central das aprendizagens, pelos sujeitos do processo educativo), a organização do espaço físico também deve ser concebida pelo PPP, pois a configuração espacial da instituição escolar deve ser compatível com as características de seus sujeitos e se adequar a natureza e as finalidades da educação assumidas pela comunidade educacional. “Assim, a despadronização curricular pressupõe a despadronização do espaço físico e dos critérios de organização da carga horária do professor.” (44)


Quem está inserido no meio educacional, no entanto, constata que há um abismo entre o que é colocado  como referência de PPP pelas Diretrizes Curriculares e as práticas efetivamente observadas na maioria das escolas. É raro encontrarmos escolas que possuam concepções sistematizadas e rigorosas sobre os pressupostos filosóficos (concepção de ser humano, sociedade, conhecimento, ética, política, estética) que orientam (ou deveriam orientar) as escolhas pedagógicas e o trabalho didático-administrativo.  

Não é raro encontrarmos escolas onde cada professor/professora possui sua concepção (quando isso acontece é até menos nocivo, pois ao menos possuem uma) sobre educação e conhecimento, tem seu próprio “método”, avalia da forma que lhe é mais conveniente, possui uma leitura particular da realidade, etc., não havendo, portanto, práticas e representações comuns à coletividade escolar.
Ao invés de se configurar como instrumento de planejamento e avaliação, ao qual as equipes gestora e pedagógica devem recorrer sempre em que houver deliberação, escolhas e tomadas de decisões, o PPP acaba se tornando apenas um documento engavetado,  ou mesmo desatualizado ou inacabado, pois a razão de ser de sua existência, na maioria dos casos,  se deve à exigência legal-burocrática.


No meu modo de ver, o descompasso entre o que é sugerido nas diretrizes e o que realizamos na prática é fruto do “espontaneísmo” que predomina na educação, por sua vez, corolário da dicotomia entre teoria e prática.   Como sabemos, toda intervenção pedagógica que se queira consciente, intencional e eficaz deve esclarecer, previamente, quais os pressupostos teóricos orientarão a ação. No entanto, o que se observa é o predomínio de práticas e representações ametódicas, assistemáticas e fundamentadas no senso comum, justamente porque o PPP, que deveria ajudar no esclarecimento das referências práticas e teóricas mais adequadas para o trabalho pedagógico, não é vivenciado como deveria.


Consequentemente, são poucos os espaços que conseguem viabilizar os meios necessários para a construção de uma escola democrática, autônoma e com qualidade social.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Leitura e escrita: instrumentos da liberdade


Olá, amigo leitor, amiga leitora do Cabeça Bemfeita, tudo certo? Comecei a escrever o texto abaixo na manhã da quinta, 20, e só agora, sexta, à noite, dia 21, estou terminando. Como as postagens das quintas são destinadas à nossa formação continuada, falo sobre a importância das competências leitoras e escritoras para o nosso desenvolvimento, não só profissional, mas, principalmente, pessoal.

A programação da Cabeça Bemfeita TV e da Rádio Cabeça dizem respeito à postagem anterior, que fala sobre a nova música pernambucana. Na Cabeça Bemfeita TV, destaco a série "Filosofia do rock", coordenado e apresentado pela filósofa Márcia Tiburi. E na Rádio Cabeça, vocês conferem três das dicas por mim apresentadas no texto citado acima: Areia e Grupo de Música Aberta, ruido/mm e Ska Maria Pastora. Domingo, na próxima publicação, as outras bandas citadas no texto anterior serão escaladas na programação da Rádio Cabeça.

Gostaria de dedicar o texto de hoje a linguista e professora de Língua Portuguesa, Ana Maria Vasconcelos, exemplo de coesão e coerência no cuidado com nosso vernáculo.

***

O presente texto começou a ser redigido antes  de duas reuniões muito importantes para mim. Uma com um grupo de professores do Fundamental II, do Lubienska Centro Educacional, onde sou professor de Filosofia,  e outra com a Diretora Pedagógica, Rozário Azevedo, e o Diretor Financeiro da instituição, Guilherme Maciel. Tanto a conversa com os/as docentes, quanto com a equipe gestora, dizem respeito a minha busca por novos paradigmas epistemológicos, éticos, políticos e profissionais.

Como digo no texto A douta ignorância (ou em defesa das posturas crítica e reflexiva) quero levar minhas ideias e práticas para a apreciação e crítica públicas. Na verdade, o que venho buscando fazer é resgatar o conceito da Ágora grega  como espaço de discussão e deliberação sobre assuntos ligados à organização e administração da pólis (para além da "cidade-estado" grega, entendam "pólis" como todo e qualquer espaço físico e simbólico onde pessoas e/ou instituições estabelecem entre si relações morais, polítcas e/ou profissionais. Nesse sentido, "pólis", para mim, pode ser a família, a escola, o sindicato, o bairro, a cidade, etc). 

Com o surgimento da pólis, nasce a ideia de espaço público e com ela um novo tipo de palavra ou de discurso, "surge a palavra como direito de cada cidadão de emitir em público sua opinião, discutí-la com os outros, persuadi-los a tomar uma decisão proposta por ele, de tal modo que surge o discurso político como palavra humana compartilhada, como diálogo, discussão e deliberação humana, isto é, como decisão racional e exposição dos motivos ou das razões para fazer ou não fazer alguma coisa."   (CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2003, p. 38)

Nesse sentido, o uso competente da palavra, seja de forma escrita ou oralmente, torna-se fundamental em contextos de discussão, diálogo e deliberação, como no uiverso escolar, por exemplo. No presente texto defenderei a importância da leitura e da escrita como instrumentos imprescindíveis para uma participação social mais efetiva nas diversas esferas públicas das quais participamos.
 
Quando passei pela minha maior crise profissional, no biênio 2007-2008, percebi o quanto minha proficiência leitora e escritora deixavam a desejar. Tudo bem que já havia cursado dois anos de jornalismo, me formado em Filosofia e já havia três anos que era professor, mas, comparando com a competência e a eficiência com que hoje exerço a leitura e a escrita, sou obrigado a reconhecer que era um dos brasileiros que tinha sua cidadania limitada pelo fato de não ter desenvolvido adequadamente na educação básica tais competências.

Segundo as autoras do livro Temas de Filosofia, Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, leitura é a atividade de atribuir significados ao que acontece ao nosso redor, sendo "efetuada toda vez que lemos um significado em algum acontecimento, alguma atitude, algum texto escrito, comportamento, quadro, mapa [...]." (ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Instrumentos do filosofar (apêndice). in Temas de Filosofia. 3 ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 320)

É óbvio que a tarefa de leitura, ou seja, de atribuir significados, depende da vivência do leitor, uma vez que é essa vivência que faz com que cada um de nós observe o mundo de uma forma singular. Sendo assim, nossa história de vida tem influência decisiva na nossa condição de leitores: experiências, gênero, idade, época, lugar, classe social, formação. (Aranha e Martins, 2005)

Como mostraram os números do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), de 2009, quase 60% dos alunos brasileiros têm baixa proficiência, ou mesmo não fizeram nem a prova. Entre 65 países  participantes do PISA 2009,  o Brasil ficou com  a 53ª colocação. Infelizmente, prezado leitor, prezada leitora, até o momento em que passei a investir na leitura e na escrita como as competências fundamentais para sair do estado de alienação e reprodução ao qual estava preso, eu era um desses seis brasileiros, em cada grupo de dez, que ficam de fora das tomadas de decisões nas diversas esferas sociais por não terem construído durante a educação básica uma competência linguística mais consistente.

O meu ativismo em defesa de espaços dialógicos, críticos e reflexivos, que teve início com o Cabeça Bemfeita e continua agora com minha busca pelo uso da palavra argumentada nos espaços onde con-vivo com outros sujeitos, é um corolário do meu aprimoramento como leitor e escritor.

Nas duas reuniões citadas acima, procurei utilizar quatro competências apontadas pelo PCN da Língua Portuguesa (Ensino Fundamental) como fundamentais para o exercício da cidadania:


1) "expandir o uso da linguagem em instâncias privadas e utilizá-la com eficácia em instâncias públicas, sabendo assumir a palavra e produzir textos — tanto orais como escritos — coerentes, coesos, adequados a seus destinatários, aos objetivos a que se propõem e aos assuntos tratados";

2) "utilizar a linguagem como instrumento de aprendizagem, sabendo como proceder para ter acesso, compreender e fazer uso de informações contidas nos textos: identificar aspectos relevantes; organizar notas; elaborar roteiros; compor textos coerentes a partir de trechos oriundos de diferentes fontes; fazer resumos, índices, esquemas, etc";

3) "valer-se da linguagem para melhorar a qualidade de suas relações pessoais, sendo capazes de expressar seus sentimentos, experiências, ideias e opiniões, bem como de acolher, interpretar e considerar os dos outros, contrapondo-os quando necessário";

4) "usar os conhecimentos adquiridos por meio da prática de reflexão sobre a língua para expandirem as possibilidades de uso da linguagem e a capacidade de análise crítica".

Amigo leitor, amiga leitora, seria praticamente impossível chegar aonde cheguei, ou seja, ser ouvido e ter minha fala (discurso) acolhida, ainda que com possíveis posicionamentos contrários, pelos meus companheiros e companheiras de trabalho, se eu não tivesse desenvolvido minimamente essas e outras habilidades linguísticas.  
Venho a cada dia expandindo o uso da linguagem em instâncias privadas e utilizando-a em instâncias públicas, acredito que com uma certa competência, já que venho conseguindo assumir a palavra e produzir textos (orais e escritos) coerentes, coesos e adequados aos meus destinatários (professores/professoras, coordenadores e diretores).

Hoje utilizo eficazmente a linguagem como instrumento de aprendizagem, ou seja, sei como proceder para ter acesso, compreender e fazer uso de informações presentes nos textos. Por exemplo, o presente texto está sendo construído através da coordenação e encadeamento de algumas ideias próprias e outras provenientes de outros textos com os quais estou dialogando. As ideias com as quais dialogo aqui foram por mim acessadas, compreendidas e, agora, estou as utilizando.

Como estou expressando melhor meus sentimentos, experiências, ideias e opiniões, bem como tenho acolhido, interpretado e considerado os dos outros, contrapondo-os quando necessário, as minhas relações pessoais (incluindo casamento) tem melhorado sobremaneira.

Enfim, o usar os conhecimentos adquiridos por meio da prática de reflexão sobre a língua", tem me permitido expandir "as possibilidades de uso da linguagem e a capacidade de análise crítica", imprescindíveis para todo aquele/aquela que deseja ser crítico, criativo, livre e responsável.

Fico por aqui, deixando uma provocação para nós, professores e professoras: se como vimos acima, seis em cada dez estudantes apresentam dificuldades para ler e escrever, sendo considerados analfabetos funcionais, e se nós, docentes, já fomos estudantes, não seria razoável pensar que em média seis, de cada dez professores, teriam dificuldades para ler e escrever? 

Bem, seja qual for sua resposta, o certo é que, antes de buscarmos construir os saberes e competências necessários para ensinar no século XXI, como defendem grandes mestre da educação contemporânea, devemos, antes de mais nada, voltarmos ao século XX e aprendermos a ler e a escrever adequadamente.