quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Meu pai e a palavra



A publicação de hoje é uma homenagem a meu pai, que nos deixou há três anos, e marca a retomada das atividades do novo Cabeça Bemfeita, que agora é um espaço de reflexão e formação nas áreas da literatura, das histórias em quadrinhos e do cinema 

A última publicação do Cabeça Bemfeita, meu primeiro blog, foi impulsionada pela tristeza. No dia 30 de novembro de 2014, depois de passar alguns dias em coma, meu pai faleceu. Como forma de trabalhar a profunda dor que senti naquele final de ano, compartilhei, no dia 7 de dezembro, o ensaio “Da tristeza”, de Michel de Montaigne (1533-1592).


Hoje, dia 7 de dezembro de 2017, três anos após o último texto publicado, retomo as atividades do blog que transformou minha vida, desta vez movido pela felicidade de ter sido filho de Crenivaldo Regis Veloso, ou simplesmente Seu Du, um contador de histórias, a quem devo meu encontro com a palavra. A postagem de hoje, portanto, é uma homenagem a meu pai, através do qual tive a oportunidade de crescer num ambiente que favoreceu o meu contato com a arte, principalmente a música, a literatura e o cinema, além de marcar a volta do Cabeça Bemfeita.


Na primeira parte, exercitando um pouco a “pesquisa narrativa”, que venho realizando através de outro blog (o Portal de Educação Tecnológica e Artística), compartilho como herdei o gosto pela palavra com o “velho”, para, na segunda parte, apresentar o novo Cabeça.


Seu Du, a literatura e o cinema


Mais novo dos filhos homens da "dona de casa" Carmelita Regis Veloso e do pedreiro José Benedito Sales Veloso, meu pai teve a “sorte” (e, consequentemente, eu também) de não precisar trabalhar muito cedo, como os irmãos (as irmãs eram "preparadas" para casar), e pôde, com relativa tranquilidade, se dedicar aos estudos, finalizando, inclusive, um curso técnico (Estradas) pela antiga Escola Técnica Federal de Pernambuco (hoje IFPE), algo pouco provável, na época, para os indivíduos das classes menos favorecidas.


Além da sua formação escolar pouco comum para os padrões da realidade socioeconômica da minha família, vítima de uma sociedade que distribui desproporcionalmente sua riqueza entre os que muito têm e os que nada ou quase nada possuem, meu pai ampliou, durante a década de 1970, consideravelmente suas referências intelectuais e estéticas ao entrar para a SUDENE, onde passou a ter contato com artistas e intelectuais pernambucanos, a maioria oriunda da classe média que procurava no serviço público uma estabilidade econômica para se dedicarem a sua produção simbólica.


Todas essas referências fizeram com que meu pai, para utilizar uma linguagem platônica, saísse da caverna na qual estava preso e visse que a verdade e a realidade estavam lá fora, fora do mundo de ilusões, de imagens, de simulacros ao qual minha família, geração após geração, estava submetida. Meu pai rompeu com uma tradição de opressão política, econômica e cultural que impedia o desenvolvimento integral da minha família (e aqui, incluo o lado materno da minha família, em condições econômicas e culturais - me refiro a “cultura erudita” ou de “elite” - mais desfavoráveis, no agreste pernambucano) e se tornou consciente da sua condição política, bem como desenvolveu um rigor científico e senso estético apurado.    


Devo ao meu pai o contato com a boa música, o romance dos séculos XIX e XX e o cinema, principalmente os clássicos e o cinema nacional. 

Com relação à literatura, o estímulo começou desde cedo. Lembro de uma coleção de clássicos da literatura infantil que ele comprou, como “Chapeuzinho Vermelho”, “Os três porquinhos”, “Branca de Neve”, entre outros. No finalzinho da década de 1970, por volta dos cinco, seis anos, ficaram marcadas em mim as cores, as ilustrações, os desenhos das palavras. Mas, o que mais me impressionou foram as próprias palavras, a forma como, combinadas, traduziam enredos, com personagens que, em um determinado tempo e lugar, faziam/sofriam coisas a partir de certas razões e com algumas finalidades.  


Vale lembrar que, a despeito do pouco tempo efetivo que meu pai passou na infância comigo e meu irmão, uma  vez que ele passava o dia inteiro trabalhando para sustentar a família*, as poucas vezes em que ele leu para gente foram suficientes para plantar as sementes do que hoje é uma dimensão imprescindível do que sou e do que faço: a leitura.


Na pré-adolescência, quando surgiram as dúvidas naturais sobre questões relacionadas a sexualidade, consultei meu pai, que não teve dúvida: me entregou uma coleção de livros sobre sexualidade para que eu mesmo descobrisse o que me intrigava. Por falar nisso, enciclopédias e coleções as mais diversas eram com o velho. Lembro de uma estante de madeira, que ele mesmo fez**, onde dispunha suas coleções de Lima Barreto, Machado de Assis, Gilberto Freire, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, dividindo espaço com livros de divulgação científica, culinária, conhecimentos gerais, etc. A estante, que não era tão grande assim, ocupava lugar de destaque no nosso humilde lar de um cômodo: uma sala, uma cozinha, um banheiro, um quarto, mas com um quintal, onde pude viver uma infância subindo em árvore, jogando futebol e bola de gude, rodando pião, brincando de pega-pega e esconde-esconde, enfim, longe dos problemas econômicos e políticos característicos do fim da Ditadura Militar e início da redemocratização na Brasil. Nessa época não tinha jeito: sempre que acordava e saia da cama, dava de cara com a estante.


Já do final da adolescência aos primeiros anos da idade adulta, vieram os clássicos da literatura universal. Meu pai tinha uma coleção da Abril Cultural, intitulada “Os Imortais da Literatura Universal” (1971), que também ficava organizada na referida estante. Confesso que até o final da adolescência brincar na rua e, principalmente ouvir música, me seduziam mais que a leitura. No entanto, comecei a me aproximar de alguns títulos da coleção, como “Os Irmãos Karamázovi” (Dostoiévski) e “Retrato do artista quando jovem” (Joyce). Nessa fase, dois títulos foram decisivos para que eu me apaixonasse pela literatura: Dom Casmurro (Machado de Assis) e Os Buddenbrook (Thomas Mann). Lembro que eu ficava lendo e imaginando como seriam os lugares e tempos narrados. Muitas vezes recorria aos conhecimentos históricos para reconstruir o cenário da época. Os dilemas existenciais, morais, políticos, enfim, humanos, me faziam trabalhar meus próprios valores, sentimentos e concepções de mundo.


A palavra, que até mim chegou através do gosto do meu pai pela leitura, também está presente no cinema, outra linguagem que teve a contribuição de Seu Du para minha aproximação.  Meu pai foi o contraponto ao cinema comercial norte-americano. A partir da segunda metade da década de 1980, um dos meus programas preferidos era me reunir com os amigos do bairro de Campo Grande e irmos para o cinema. Como hoje, as salas eram monopolizadas pela indústria hollywoodiana. A diferença é que antes as salas estavam localizadas no centro da cidade,  como o Moderno e o Veneza, dois dos que eu mais frequentava, ao lado do São Luís, único que ainda resiste, ao passo que, atualmente, os shopping centers concentram a quase totalidade dos espaços para exibição. Meu pai ajudou na ampliação do meu olhar sobre o cinema ao me mostrar na grade de programação das redes estatais de televisão a produção de outras escolas cinematográficas para além da norte-americana, como a escola latino-americana, europeia, oriental, africana. Numa época sem internet, não posso deixar de mencionar a contribuição para a minha formação cinematográfica que tiveram as coleções de filmes, que meu comprava, promovidas pelos jornais e revistas semanais distribuíram, em meados da década de 1990, como comemoração pelo centenário do cinema.      


Além da influência através da literatura e do cinema, meu pai também deixou sua contribuição para meu contato com a palavra através de suas próprias narrativas. O velho gostava de narrar suas peraltices na infância e travessuras na adolescência. Politizado que era, a ditadura militar (1964-1985) sempre esteve presente nas nossas conversas. Não foram poucas também as discussões sobre seu principal ídolo político, Miguel Arraes. O olhar do velho brilhava sempre que ele falava que Arraes havia respeitado seu voto ao não renunciar ao cargo de governador de Pernambuco quando os militares tomaram o poder. Outros nomes da política também animaram nossos debates, entre eles Ulisses Guimarães, Dom Hélder Câmera (meu pai sempre considerou Dom Hélder mais um político do que religioso), Roberto Freire, Fidel Castro, Che Guevara, entre outros. O tom das discussões por vezes subia quando eu, já revelando minha tendência libertária, dizia que não via diferença entre ditaduras de direita ou esquerda e que o governo de Fidel era ilegítimo. Apesar de considerar que a igualdade e a liberdade devam caminhar juntas (é por isso que luto, para mim mesmo e para meus iguais), se tivesse que escolher entre as duas optaria pela liberdade, enquanto Seu Du ficaria com a igualdade. Enfim, meu pai é um dos eixos fundantes da minha conscientização política.  


E assim, mediados pela palavra, se passaram 40 anos de convívio com meu pai, onde aprendi muito e pude ensinar também, pois, a medida em que eu crescia e tomava contato com outras referências, ia questionando alguns valores e comportamentos mais conservadores do velho, possibilitando, assim, a constante reflexão e revisão dos nossos limites. Eu e meu irmão, através da influência do meu pai, tivemos acesso à informação e ao conhecimento elaborado sistematicamente pela ciência, criticamente pela filosofia e esteticamente pela arte, o que foi benéfico também para o velho que pôde colocar em questão e rever muitas das suas próprias concepções e posturas herdadas da nossa origem cultural, nas suas duas últimas décadas de vida, momento em que eu e meu irmão, a partir da cultura herdada, construímos nossas identidades, e meu pai, a partir da influência de novos padrões culturais desenvolvidos por mim e meu irmão, reconstruiu a sua.


No dia 30 de novembro de 2014, Seu Du, fisicamente, nos deixou, mas suas experiências e histórias, bem como seu gosto pela palavra, continuam vivas em mim e seguirei construindo e narrando, através das minhas próprias experiências, essas e outras histórias.


O Cabeça Bemfeita tem papel fundamental no meu cultivo da palavra, processo esse que devo ao meu velho, que me acompanha na minha tarefa diária de ir buscando as palavras certas que possam promover mais adequadamente a mediação entre mim, as outras pessoas e o mundo.            


O novo Cabeça Bemfeita


O blog surgiu, em 2012, como uma resposta a uma dupla necessidade: precisava de um espaço para sistematizar e organizar melhor as informações e conhecimentos que vinha acumulando desde 2010, quando passei a investir autodidaticamente na minha formação continuada, e também precisava me aproximar mais das tecnologias de informação, comunicação e conhecimento, uma vez que hoje, ainda que possamos criar situações de ensino e aprendizagem significativas apenas com o giz e a lousa (ou até sem isso, pois temos as principais tecnologias de todas, nossos corpos e nossas falas), essa ferramenta pode potencializar enormemente os processos formativos, não só d(x) educand(x)s, mas também d(x)s docentes


Em sua primeira fase (2012-2014), o Cabeça tinha o objetivo de ser um espaço onde eu pudesse organizar os conhecimentos que eu vinha construindo dentro das áreas que considerava (e ainda considero) imprescindíveis para a atividade docente: Filosofia, Arte, Ciência, Comunicação e Tecnologia.


Hoje, depois de um hiato de três anos, retomo as atividades do blog, mas com algumas mudanças, inaugurando uma nova fase: a de ser um espaço de formação em três linguagens que são fundamentais para mim, não só como profissional, mas, principalmente, como pessoa: literatura, histórias em quadrinhos e o cinema.


As áreas mencionadas acima (Filosofia, Arte, Ciência,...) continuam despertando minha atenção e sobre elas pesquiso e reflito no Portal de Educação Tecnológica e Artística (PETECA), blog voltado mais especificamente para a educação e a formação docente. Aqui trataremos especificamente da “arte da palavra”, manifestada de diferentes formas na literatura, nos quadrinhos e no cinema.


Antes das novidades, falemos das permanências. Tal qual a primeira versão do Cabeça, a atual permanece fiel à perspectiva da “cabeça bem-feita”, postura epistemológica defendida por Montaigne no início da modernidade e retomada por pensadores como Edgar Morin na contemporaneidade, segundo a qual é preferível pensar bem, ter critérios epistemológicos para pensar de forma rigorosa e autônoma (“cabeça bem-feita”), do que acumular, acriticamente, informações sem sentido e sem relações umas com as outras, nem muito menos com a vida concreta de que acumula muita informação (cabeça bem-cheia”).


Dentro dessa perspectiva, o novo Cabeça Bemfeita está estruturado em quatro páginas: uma de apresentação e uma para cada uma das três expressões objetos de nossas investigações (literatura, histórias em quadrinhos e cinema). Por sua vez, cada página dedicada às linguagens está assim estruturada: uma primeira parte onde apresentaremos um pouco da história, uma segunda onde os elementos das linguagens são apresentados e, por fim, uma terceira e última parte onde apresentamos autor(x)s da linguagem em questão com (x)s quais dialogamos e/ou com (x)s quais ainda dialogaremos.

Bem, é isso. Espero ter conseguido reunir nesta postagem as palavras adequadas para expressar o quanto meu pai é importante para quem hoje sou (obviamente que, do ponto de vista biológico, sem ele e minha mãe, nem eu e nem meu irmão existiríamos, mas falo aqui da existência simbólica ou espiritual) e ter dado o recado sobre a volta do blog.

Forte abraço e façamos nossa cabeça por aqui em 2018!

Zebé Neto
Professor, pesquisador e escritor 

* Apesar da sua consciência política e de classe, aliada a um refinado senso estético, as condições concretas do velho não permitiram que ele superasse, de início, a herança patriarcal e machista segundo a qual cabe à mulher cuidar das crianças e ao homem ser o provedor, pensamentos e posições colocadas em questão e superadas no decorrer dos anos enquanto eu e meu irmão crescíamos e nos conscientizávamos no ambiente dialógico e democrático inaugurado por meu pai. 

** Meu pai sempre foi muito hábil com as mãos, talento que irei explorar no curta-metragem "Gambiarra", uma representação do velho em texto e imagens que estou produzindo para meus filhos, Caio e Ravi, que conviveram pouco, mas intensamente, com o avô.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Da (minha) tristeza

Nos últimos anos encontrei na escrita uma forma de enfrentar as adversidades e os infortúnios que insistem em me perseguir. Exatamente às 22h30, do último dia 25 de novembro, uma terça-feira, comecei a redigir um texto para tentar trabalhar a dor que naquele momento sentia. No dia anterior, meu pai, nascido em 1943, registrado como Crenivaldo Regis Veloso, mas, mais conhecido como Du, deu entrada na emergência do Hospital Albert Sabin para verificar a causa de um cansaço que já se anunciara há alguns dias, mas que na manhã da segunda, dia 24, ficou insuportável.

Nos primeiros procedimentos a equipe médica constatou a gravidade da situação e não demorou para que meu pai fosse internado. Logo foi identificado um edema pulmonar, agravado por uma pneumonia adquirida na UTI. Para piorar a situação, na sexta, 28, a função renal parou. Imaginem vocês a situação de um senhor de 71 anos, que não era lá tão afeito aos cuidados com o corpo, e que já havia sofrido uma lesão no coração, como demonstrou o cateterismo ao qual meu pai foi submetido. O quadro foi se agravando cada vez mais e, no dia 30 de novembro, meu pai faleceu.

Michel de Montaigne (1533-1592): importante 
apoio para entender esse momento difícil 
Naquela noite que me referi acima, tomado pela tristeza, me deixei paralisar e não consegui redigir um único parágrafo. Já no dia seguinte, pela manhã, quando fui visitar o “velho”, lembrei-me de um pensador com quem gosto de dialogar e que naquele momento poderia, de alguma forma, confortar minha alma: Michel de Montaigne. Não tive dúvida: levei os Ensaios comigo e, no ônibus, no caminho para o hospital, li o texto que me ajudou muito nesse momento difícil da minha vida: Da tristeza. Imediatamente pensei: “Se não reuni condições para escrever um texto próprio que traduzisse esse momento doloroso, publicarei esse texto de Montaigne, que muito diz sobre o meu estado de espírito.”     

É a Seu Du, que teve o privilégio natural de ser o caçula e por isso estimulado pelo meu avô, José Benedito Veloso, para o mundo dos estudos, numa época em que uma formação mais esmerada não estava ao alcance das classes trabalhadoras, que dedico essa que é apenas a segunda postagem do ano do Cabeça Bemfeita  (o nome do blog, aliás, é inspirado na concepção montaigniana da “cabeça bem-feita”, ou seja, de um espírito crítico com princípios e critérios de seleção e organização de informações e conhecimentos, dando sentido aos saberes, concepção antecipada por Montaigne há mais de quatro séculos e hoje meta da educação do século XXI). Vejam a prezada leitora e o prezado leitor, a relação entre as duas postagens: no primeiro texto, defendi a tese de que o solo de onde brota a filosofia é a nossa própria vida, nossa própria existência, que em certos momentos nos coloca desafios que exigem uma reflexão mais radical, rigorosa e de conjunto, ao passo que, nesse segundo, deixo um exemplo concreto de alguém que, motivado pela própria vida, recorreu à filosofia para melhor compreendê-la, justamente a partir do que, ao menos na visão do senso comum, é a sua negação, ou seja, a morte. Vejam também que recorri não a qualquer filósofo, mas aquele para o qual filosofar é aprender a morrer. Eis uma das razões porque cultivo a atitude filosófica: para “aprender a morrer” e entender a ida (ou seria a volta?) daqueles que amo.

Ainda não foi dessa vez, Montaigne, que consegui a ataraxia (a imperturbabilidade do espírito), pois fui tomado pela dor e aflição e tive meus movimentos tolhidos, tendo que recorrer às lágrimas para aliviar a alma e poder recuperar minha ação. No entanto, saiba que, quanto a mim, assim como você, também “sou pouco predisposto a essas paixões violentas; tenho uma sensibilidade naturalmente grosseira e a torno mais espessa ainda e empedernida mediante raciocínios diários”, como esse que ensaiei realizar com a presente postagem. 

É isso, meu pai, obrigado por ter me amado, cuidado de mim e ter me apresentado à música e à filosofia, a primeira, espontaneamente, através do seu gosto musical refinado dentro de um contexto sócio-econômico-cultural adverso e, a segunda, quando perguntei-lhe o que era a filosofia e destes-me dois tomos com alguns diálogos platônicos (livros que datastes no dia do teu aniversário de dezoito anos, em 20 de junho de 1961, e que trago comigo desde os meus dezoito anos), dizendo-me: “Eis a filosofia, filho!”. Sem o saber, fornecestes as duas atividades humanas que nesses dias difíceis estão me ajudando a entender e aceitar sua morte física: a música e a filosofia.

Não se preocupe com nosso “espelho”, pois ele nunca vai se quebrar, já que seus netos, Caio e Ravi, continuarão a refleti-lo. Por falar nisso, amanhã, dia 08 de dezembro, fará três anos que teu neto Ravi está a te refletir. Descanse, ou melhor, "agite" em paz onde o senhor estiver, pois seus filhos, eu e Danda (Veloso), continuaremos a ampliar a ruptura com a facticidade adversa que o senhor iniciou.
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Fico por aqui, deixando um trecho da canção “Além do espelho”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, que costumávamos cantarolar nos inúmeros encontros festeiros que promovemos no nosso quintal:

“A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Beijos, meu pai e até breve! Por enquanto, sigamos cantarolando a canção da vida!

"Espelho"
(João Nogueira/Paulo César Pinheiro)



"Além do espelho"
(João Nogueira/Paulo César Pinheiro)




Zebé Neto. 

Filho de Seu Du, de Dona Tereza, irmão de Crenivaldo Veloso Júnior (Danda), Professor de Filosofia e Sociologia.

***

Da tristeza

Por Michel de Montaigne
Adaptação: Zebé Neto

Sou dos que menos sentem essa paixão; não a aprecio nem a valorizo, embora de um modo geral, e preconceituosamente, os homens a respeitem e estimem. Com ela enfeitem a sabedoria, a virtude, a consciência, mas o adorno é pobre e feio. Os italianos com muito mais razão deram seu nome à maldade, pois ela é sempre nociva, sempre insensata, e também covarde e desprezível: os estoicos a proíbem aos sábios.  

Diz-nos a história que Psamético, rei do Egito, vencido por Cambises, rei da Pérsia, vendo passar a filha, como ele próprio cativa, e que ia buscar água vestida de serva, permaneceu mudo, olhos voltados para o chão, enquanto choravam todos os seus amigos. Vendo logo depois o filho, que conduziam para a morte, conservou a mesma atitude. No entanto, diante de um criado que levavam à tortura, pôs-se a golpear a cabeça demonstrando extrema aflição.

Pode-se comparar esse fato ao que ocorreu recentemente com um de nossos príncipes, o qual recebeu em Trento a notícia da morte do irmão mais velho, sustentáculo da honra e da manutenção da família. Logo depois sabia do falecimento do segundo irmão para o qual, desaparecido o primeiro, voltavam todas as esperanças. Ambas as desgraças ele as suportou com coragem exemplar. Eis que dias mais tarde vem a morrer um dos seus amigos, ao que não pôde resistir. Sua resolução o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações, a ponto de observarem que somente ao último acontecimento se mostrara realmente sensível. Na verdade a medida estava cheia e uma coisa de nonada bastara para abater-lhe a energia e provocar um transbordamento de tristeza. Poder-se-ia, creio, assim explicar igualmente a atitude de Psamético, se não acrescentasse a história que Cambises, tendo-lhe perguntado porque motivo ele, que tão pouco se mostrara perturbado com a infelicidade da filha e do filho, tanto se afetara ante a de um amigo, recebeu esta resposta: “É que só esta última tristeza é suscetível de se exprimir por lágrimas; a dor sofrida nos dois primeiros casos está além de qualquer expressão.”

A propósito, vem-me a memória o caso daquele pintor antigo que, no sacrifício de Ifigênia, teve de representar o sofrimento dos diversos personagens segundo o grau de interesse que cada um votava à bela e inocente jovem, e que ao chegar ao pai da virgem já havia esgotado todos os recursos de sua arte. Diante da impossibilidade de dar-lhe uma atitude em relação com a intensidade da dor, pintou-o de rosto coberto, como se nenhuma expressão pudesse ilustrar semelhante desespero. Eis porque os poetas imaginam a miserável Niobé, que depois de perder seus sete filhos viu morrerem as sete filhas, transmudada em rochedo pela sobrecarga da desventura: “petrificada pela dor”, a fim de exprimir essa espécie de embrutecimento sombrio, surdo e mudo que se apodera de nós quando as ocorrências nos esmagam ultrapassando o que nos é dado suportar. E, efetivamente, uma dor excessiva, exatamente porque excessiva, deve estupidificar a alma a ponto de paralisar qualquer gesto, como acontece quando recebemos inesperadamente uma péssima notícia. Somos tomados de espanto, penetrados de pavor ou de aflição e como tolhidos em nossos movimentos até que a prostração suceda o relaxamento. Surgem então as lágrimas e os lamentos que aliviam a alma e como lhe permitem mover-se mais à vontade: “é com dificuldade que afinal recupera a voz e pode exprimir sua dor”.

Durante a guerra do Rei Fernando contra o rei da Hungria perto de Budapeste um dos guerreiros mostrou-se particularmente valente nos combates que se verificaram. Ninguém o reconhecera e todos o elogiavam e lhe lamentavam a sorte porquanto sucumbira na refrega. E ninguém mais do que o Sr. de Raisciac, fidalgo alemão, o engrandecia, entusiasmado com tão rara coragem. Recolhido o corpo, Raisciac aproximou-se como os demais para ver quem era, e ao lhe tirarem a armadura reconheceu o filho. A emoção dos presentes aumentou mais ainda; só ele permaneceu impassível, sem dizer palavra, sem pestanejar, em pé, contemplando fixamente o corpo até que a violência da dor tendo atingido o próprio princípio da vida o derrubasse para sempre. “Quem pode dizer até que ponto arde, arde bem pouco”, dizem os amantes que querem exprimir insuportável paixão.

Da mesma forma nos comove a surpresa de um prazer inesperado: “Logo ao ver-me, ao perceber de todos os lados as armas de Tróia, fora de si, como golpeada por pavorosa visão, se imobiliza. Seu sangue gela, desmaia e só muito tempo depois pode enfim falar”.

Além daquela romana que morreu de alegria ao ver o filho escapar da derrota de Canes; além de Sófocles e Dionísio, o tirano, que também morreram de alegria ao receberem uma boa notícia; e Talma que faleceu na Córsega ao saber dos honras que o Senado de Roma lhe conferira; vimos nesse século o Papa Leão X que, ao ter notícia da tomada de Milão, tão ardentemente desejada, experimentou tal carga de alegria que a febre o assaltou, levando-o à morte. E mais um testemunho comprovador da fraqueza humana tirado dos antigos: Deodoro, o dialético, vendo-se em suas aulas públicas incapaz, de repente, de responder às objeções que lhe faziam, sentiu tamanha vergonha que morreu na hora. Quanto a mim, sou pouco predisposto a essas paixões violentas; tenho uma sensibilidade naturalmente grosseira e a torno mais espessa ainda e empedernida mediante raciocínios diários.

MONTAIGNE, Michel de. Da tristeza. In: ____. Ensaios. Vol. 1, Col. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Primeiro, a vida, depois, a filosofia

Apesar de não postar no Cabeça como gostaria (foram apenas nove postagens em 2013), não abandonei a iniciativa que há dois anos contribuiu decisivamente para a transformação da minha existência, tanto no aspecto profissional quanto pessoal.

Profissionalmente falando, passei de um professor comum, ou seja, um professor mediano, aquele transmissor de conhecimentos, que organiza os conteúdos de acordo com os índices dos livros, que consegue um comportamento adequado dos estudantes utilizando a punição, seja tirando de sala ou diminuindo a nota, entre outros habitus que há pelo menos 200 anos tem caracterizado a atividade docente, para um professor reflexivo ou professor como intelectual transformador, como defendem alguns dos mais influentes pensadores da educação na atualidade, como Isabel Alarcão, Philippe Perrenoud, Edgar Morin e Henry Giroux, que nada é mais do que um sujeito crítico, criativo, capaz de compreender a realidade social, cultural e política, propondo situações de ensino e aprendizagem significativas.

Do ponto de vista pessoal, posso dizer que dei um salto qualitativo, cognitiva, afetiva, ética, estética e politicamente falando. No entanto, como essas dimensões sempre estiveram aquém do que acredito poder realizar dentro delas, ainda estou longe daquilo que pretendo construir como o ideal de uma existência material e simbolicamente satisfatória. 

Com relação a dimensão material, para não me alongar muito nessa introdução, digamos que hoje está melhor do que nos últimos três anos, período em que estive tentando sair do "buraco" em que me empurraram depois de ter sido leviana e injustamente demitido por justa causa de uma tradicional escola particular pernambucana, acusado de promover "guerra virtual" contra a diretora do estabelecimento.

O Cabeça Bemfeita também representou um mergulho mais profundo na filosofia, na arte, na ciência, na tecnologia, na comunicação, enfim, em áreas que me interessam, pois, como assumi o compromisso de escrever sobre tais conceitos, tinha que fazer a "tarefinha de casa" de todo aquele que quer se meter a escrever sobre qualquer assunto: ler muito sobre o que outros sujeitos escreveram sobre esses temas.

Hoje leio e escrevo diariamente, não só pela exigência profissional, mas, principalmente, como necessidade espiritual. Antes do Cabeça, prezada leitora, prezado leitor, as coisas não eram assim. Pra começar, nem projeto rigorosamente pensado e sistematicamente construído, eu possuía. Com relação à leitura e à escrita, o máximo que escrevia eram questões de provas e fichas de estudo.

Por tudo que esse blog representou e representa para mim, e para comemorar seu aniversário de dois anos, irei, na postagem de hoje, discutir com vocês sobre a área do conhecimento que abracei há quase vinte anos, e que há apenas uns dois, três anos, passei a compreender melhor, pois passei a tematizar minha própria vida: a filosofia. Não por coincidência, o cabeça foi o estímulo que faltava para que eu agregasse a pesquisa e o estudo de texto como parte da minha rotina... Já ia dizer "profissional" e "pessoal", mas, prezada leitora, prezado leitor, daqui por diante fica pressuposto que, para mim, "profissional" e "pessoal" não se separam, pois "sou" o que faço, ou, o que dá no mesmo, aquilo que faço (educar-me/educar) constitui meu ser por inteiro.

Bem, já que vamos falar sobre essa forma de pensar colocada pelos gregos há aproximadamente vinte e seis séculos, começamos a falar da vida, mais especificamente sobre a minha vida (por favor, prezada leitora, prezado leitor, como exercício reflexivo, substitua minhas  experiências pelas suas). Minha "vida" (sem querer entrar em questões ontológicas mais profundas sobre tal conceito, entendamos vida como "existência bio-psíquico-social") sempre foi muito problemática: adolescência difícil (e a de quem não foi?), formação básica escolar e universitária deficitária (novamente, a mesma questão: e a de quem não foi?), início de vida adulta atribulada, a grana sempre curta, demora a entrar no mercado de trabalho (só com quase trinta anos tive meu primeiro emprego), falta de perspectiva com relação ao futuro, um certo niilismo aqui, uma certa irresponsabilidade ali, ...

Em certo momento da vida, ali por volta dos trinta e poucos anos, resolvi que precisava fazer alguma coisa pra mudar radicalmente minha realidade. E o que foi que fiz? Me tornei filósofo? Não! Casei!

É, prezada leitora, prezado leitor, o casamento, com as responsabilidades que essa condição acarreta, me pareceu a melhor forma de dar sentido a minha vida (ao menos poderia dar "um" sentido, já que basicamente não havia algum). Foi um passo importante, conheci e me casei com uma pessoa incrível, ganhei mais maturidade (e mais uma amiga), mas ainda faltava alguma coisa que nenhum casamento pode dar: o autoconhecimento. 


Nietzsche (1844-1900): em busca
da superação de si.
Por falar em "autoconhecimento", me permitam, antes de prosseguirmos, compartilhar o que entendo por esse processo de conscientização, ou como chamo aqui, autoconhecimento. Em sentido nietzscheano, me refiro a um processo de passagem da moral de escravos (moral por mim herdada) que nega os valores vitais e que resulta na passividade, transformando o ser humano em animal doméstico ou cordeiro, para a moral de senhores, comprometida com a conservação da vida e seus instintos fundamentais, fundada na capacidade de criação, de invenção, resultando na alegria que, por sua vez, surge como afirmação da potência. Só o fato de estar nesse momento escrevendo esse texto para compartilhar com vocês, já me causa alegria e, consequentemente, a afirmação da minha potência.

Todo aquele que consegue se superar, atinge o que Nietzsche chamou de "além-do-homem" (ou "super-homem"), ou seja, "aquele que transpõe os limites do humano".  



Heidegger (1889-1976): da facticidade
à transcendência do "Ser-aí". 
Também posso falar em autoconhecimento em sentido heideggeriano, pois, também há dois anos, venho paulatinamente superando minha facticidade (minha condição sócio-histórica herdada) e atingindo o estágio superior, chamado por Heidegger de "existenz", a pura existência do Dasein (o "Ser-aí"), ou seja, nós mesmos, que, num primeiro momento somos lançados no mundo de maneira passiva, pois herdamos uma herança biológica e cultural, mas, depois, podemos tomar a iniciativa de descobrir o sentido da existência e orientar nossas ações nas mais variadas direções (transcendência). Dessa tensão entre o que somos (o que herdamos) e o que viremos a ser, como responsáveis pelo nosso próprio destino, provoca uma sensação de angústia, necessária para retirar-nos do cotidiano e nos reconduzir ao encontro de nós mesmos. É exatamente isso que venho fazendo, reconduzindo meu "eu" factual para o "eu" intencionalmente projetado, até o momento meu "projeto final", ou seja, minha própria morte.      

Depois desse esclarecimento, voltemos para minha vida. Depois de alguns anos casado, desfizemos a união e eis que, há aproximadamente quatro anos, reencontro uma grande amiga que, assim como eu, também estava saindo de um relacionamento. Não deu outra: namoro na certa. Acontece que, desse namoro, há três anos e meio nasceu o “cara” que me reconduziria definitivamente a assumir meu eu: Caio, meu primeiro filho. Mas, ainda faltava mais um "empurrãozinho" para que eu mergulhasse de vez em “busca da sabedoria”, e ele veio há dois anos: Ravi, meu segundo filho.

Fui obrigado, então, pela facticidade da minha existência, a pensar no futuro, pois agora não estava mais só no mundo. Tenho dois seres que não pediram para nascer e cujas existências dependem de mim. Meu segundo casamento não mais existe (em compensação retomei a convivência com uma grande amiga que me ensinou muita coisa enquanto fomos casados e que ainda hoje ensina). Minha preocupação momentânea, enquanto "homo economicus" é dar o suporte material que meus filhos precisam, para que o Zebé Neto educador possa garantir que eles desenvolvam as competências, saberes, procedimentos e atitudes necessários para se tornarem sujeitos críticos, criativos, reflexivos, livres e responsáveis, capazes de conduzir suas próprias vidas.

Marías (1914-2005):
a situação concreta
impele à filosofia.
Trago essas questões pessoais, prezada leitora, prezado leitor, para corroborar as ideias do filósofo espanhol Julián Marías de que no momento em que necessita dar razão da situação em que está efetivamente inserido, o ser humano se vê forçado a se propor um horizonte de problemas, se quiser viver autenticamente, ou seja, na verdade. (Marías, 1985)

A minha situação concreta, me obrigou a propor meu próprio horizonte de problemas. A situação na qual me encontrava (e me encontro) me forçou a procurar saber o que tinha que fazer e saber por que e para que tinha que o fazer, visando uma certeza radical.

Como a própria etimologia da palavra indica, um "problema" é um obstáculo, pois o substantivo "problema" significa, em primeiro lugar, "alguma coisa saliente, um promontório por exemplo, mais concretamente, significa um obstáculo, algo que encontro diante de  mim e, por extensão metafórica, o que usualmente chamamos problema intelectual." (Idem, 1985, p. 20)

No entanto, não é por estar à minha frente que uma coisa se converte necessariamente em obstáculo para mim. Como diz Marías:

"[...] tenho diante de mim a parede e ela não me serve de obstáculo mas sim de abrigo [...]. Para que a parede se converta em obstáculo não é suficiente sua presença diante de mim mas é preciso que eu necessite passar para o outro lado justamente através dela. Então ela é efetivo obstáculo na forma concreta em que os gregos chamavam aporia, isto é, falta de caminho para sair de uma situação." (Idem, 1985, p. 20-21)

É mais ou menos isso o que aconteceu comigo: sempre tive consciência da existência das paredes próximas a mim, servindo como abrigo, mas que, principalmente depois da chegada das duas baterias que realimentam minhas energias diariamente, Caio e Ravi, passaram a representar obstáculos para que eu passasse para o outro lado, o lado da sabedoria, da justiça, da coragem e da prudência, necessários para que eu possa formar meus rebentos dentro desses princípios.

E como encontro em minha circunstância uma realidade histórico-social chamada filosofia, que tradicionalmente persegue a verdade radical, tenho que enfrentar essa realidade para ver até que ponto ela é capaz de me dar essa certeza que necessito (Idem, 1985). É a partir, portanto, de nossa situação efetiva, a qual temos que “dar conta”, que nos vemos forçados a penetrar nessa filosofia que existe em nossa circunstância (Idem, 1985).      
  
Nesse sentido, a introdução à filosofia, antes de ser uma disciplina como a geometria, a química ou a lógica, é um empreendimento, uma tarefa, um quefazer. Ao invés de pensar a filosofia como um domínio de objetos, um método de acesso a eles e um conjunto de verdades enunciadas, “devemos apelar primeiramente a uma situação concreta, da qual é necessário partir.” (Idem, 1985, p. 18).

Essa situação concreta, mais ou menos problemática, é a facticidade na qual estamos inseridos, cuja estrutura precisamos conhecer de forma radical, rigorosa e de conjunto para que possamos nos afastar do cotidiano e nos reconduzir ao encontro de nós mesmos.

Não posso finalizar esse texto, cujo objetivo é comemorar os dois anos de vida do Cabeça, sem tocar em dois pontos.

O primeiro, é que o título da postagem não representa uma relação hierárquica entre vida e filosofia, mas apenas representa a ideia de que só podemos pensar sobre a vida se ela se apresenta, de alguma forma, problemática. E isso só pode ocorrer se, de início, assumimos nossa condição existencial e vivemos. Como diz Sartre, "o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define." Fatalmente, sentiremos a angústia como consequência da percepção da tensão entre o que somos de fato e o projeto de vida que intencionamos alcançar, a partir de valores éticos, políticos e estéticos bem definidos, o que, consequentemente, nos leva à busca da sabedoria, ou seja, à filosofia, fundamental para a superação dos nossos limites - excetuando-se a morte, claro.

O segundo, é que quando falamos em situação problemática, não emprestamos à expressão nenhuma conotação moral, no sentido de que uma situação problemática seja, necessariamente, má. Antes, nos referimos mais propriamente a desafios, metas, projetos, objetivos, que para serem alcançados requerem a mobilização de saberes, conhecimentos, procedimentos e atitudes.        

Por certo, ainda estou na superfície dessa tal "verdade radical" que a filosofia aspira, mas, ao menos já iniciei a escalada do "muro" (só pra lembrar do velho Platão) que nos separa do mundo verdadeiro, para além da "caverna" de preconceitos, medos e ignorâncias na qual nós, herdeiros dos grupos oprimidos, nascemos e que, graças à filosofia podemos superar.   

Zebé Neto
professor e blogueiro

Referência bibliográfica

MARÍAS, Julían. Introdução à filosofia. 4. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1985.

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Na página FILOSOFAR está disponível o texto de Julían Marías que aborda a questão da filosofia como empreendimento, como tarefa ou um quefazer.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Proclamemos nossa liberdade


15 de novembro de 1889. Há 124 anos o Brasil, diz a historiografia oficial, passava a ser uma República. 29 de fevereiro de 2012. Há um ano, nove meses e vinte e três dias, eu, Zebé Neto, passava a investir de forma mais intensa na minha formação continuada. Não sei se do final do século XIX pra cá o Brasil mudou sua identidade (ou melhor, sei: não mudou muita coisa, pois tanto naquela época, quanto hoje, o destino da nação é decidido por reacomodações entre os grupos dominantes), mas eu, desde a primeira publicação do Cabeça Bemfeita, mudei consideravelmente a minha.

Desde o dia 12 de julho não publiquei mais nada por aqui. Várias foram as razões para esse hiato tão grande, mas o principal motivo é o fato de que, apesar de estar tentando superar minha condição existencial, meu cotidiano ainda revela a situação concreta que herdei, de alienação e privação material.

Foi justamente para superar essa realidade que resolvi criar um espaço onde pudesse investir no meu autoaprendizado, talvez uma das  únicas possibilidades para quem não pertence às classes privilegiadas obter sua emancipação. Por isso mesmo, não podia abandonar o Cabeça, iniciativa responsável pelo meu amadurecimento intelectual, afetivo, moral e político.

Apesar da irregularidade das publicações (pela razão acima apresentada), o blog continua com seu objetivo inicial de ser um espaço de discussão, reflexão e crítica sobre temas que interessam a esse que vos escreve. Filosofia, arte, ciência e tecnologia continuarão com seus espaços garantidos por aqui. Nas próximas postagens, as páginas FILOSOFAR, AISTHESIS e (Cons)CIÊNCIA & TECNOLOGIA retornam reformuladas.
 
Por enquanto, na Cabeça Bemfeita TV, fiquem com uma edição especial do programa "De lá pra cá" sobre os 120 anos da Proclamação da República, exibido pela TV Brasil, em 2009, e, na Rádio Cabeça, algumas canções da banda curitibana Relespública, só pra manter a relação com o dia de hoje.
 
É isso, prezada leitora, prezado leitor, enquanto o Brasil permanece uma timocracia (sistema de governo em que preponderam os ricos), vou tentando me libertar das condições adversas que ainda impedem meu desenvolvimento integral.

Continuo acreditando que a emancipação humana só virá se cada um de nós fizer sua própria revolução pessoal. Para que isso aconteça é necessário que assumamos a condução de nossa própria formação. Nesse sentido, espero que o Cabeça continue me ajudando a proclamar, diariamente, minha liberdade.